sexta-feira, 17 de abril de 2020

“Viva o Rui”



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

“Quem não viu aquilo não viu nada. Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões, tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram.... Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do chão, mas não é verdade. Quando muito, caía do céu.”

O texto é do Machado de Assis falando dos sonhos do Rui Barbosa, o jurista genial e financista visionário. Oitenta anos antes do presidente Nixon transformar o dólar em “dinheiro-fiat”, o nosso Rui já sonhava com o que aconteceria se libertasse os nossos contos de réis das amarras da moeda-lastreada.

Mas seu sonho não andou como queria. O plano do “encilhamento” foi sabotado pelos gananciosos-impatriotas-de-plantão. Os que reclamavam dos prejuízos que tiveram com a libertação dos seus escravos viram no plano do jurista-financista, de encilhar e liberar a “cavalaria-na-corrida-do-mercado”, a oportunidade de lavar-a-égua...

Os latifundiários do café e do leite tomaram o poder dos militares, dominaram a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e criaram a de São Paulo para desnaturar o plano do Rui e promover as festanças com a multiplicação caótica do novo dinheiro-fiat e distribuí-lo entre os amigos.

Depois que os vilões impatrióticos penduraram a conta nas costas do Tesouro Nacional, este, não conseguindo reconhecer a dívida, decretou que ela não valia o que diziam e desvalorizou o conto de réis. Quem não tinha saído do ‘mico’, trocando papéis por bens, viu que ficou pobre da noite-para-o-dia e o sonhado choque-de-consumo virou pesadelo para o País.

Rui Barbosa pagou-o-pato por ser o “bode-expiatório” mais conveniente, enquanto os donos de terras saíram na boa e inauguraram a Política dos Governadores que durou 35 anos até o Getúlio lhes dar o golpe-de-estado, aproveitando o anseio reprimido da população em CONSUMIR.

Os americanos escreveram uma História diferente. A libertação do dólar da camisa-de-força-da-moeda-lastreada abriu a grande oportunidade de prosperidade baseada no giro livre da economia. Desde a decisão tomada em 1971 até hoje, a quantidade de dólares, como dinheiro-fiat em circulação, cresceu 10 vezes, já descontando a inflação. Existe quase 5 mil dólares em circulação para cada americano.

E no Brasil? Menos de 200 dólares para cada brasileiro, ou seja, 4% do que dispõe cada americano! Em relação ao respectivo PIB, os Estados Unidos têm quase 4 vezes a mais em dinheiro circulando do que o Brasil!

Sem dinheiro circulando, não podemos nos surpreender que a nossa economia esteja parada, nem que qualquer aumento de moeda em circulação possa provocar inflação...

O pouco dinheiro que gira é para especular com papéis que só criam riqueza para os especuladores, enquanto empobrecem os incautos sem alternativas (1 + -1 = 0). Sem alimentar a economia-de-consumo, o dinheiro não se reverte em investimentos produtivos (1+1=3) e, portanto, não gera riqueza para o País...

O estrago já está feito. É preciso, agora, tentar sair do marasmo sem fazer mais besteiras. A criação de uma base monetária paralela poderia ser uma das saídas. Bem concebido, um plano usando dinheiro-fiat paralelo pode também servir para selecionar os setores que o gestionário procurará estimular aproveitando o enorme contingente de brasileiros que não produzem nem consomem.

Alinhar os vários parceiros públicos e privados procurando satisfazer a demanda reprimida por bens-de-consumo-básicos, como a produção em massa da linha-branca (geladeiras, fogões e lavadora), pode representar uma oportunidade para ensejar um ‘tranco’ para sair da inércia e, ao mesmo tempo, ajudar na melhoria da qualidade de vida da população.

Afinal, não é p’ra isso que serve o dinheiro?

Iniciativas assim, articuladas com parceiros internacionais, servem também para centrar no Brasil o elo de novas “cadeias-de-valor” que estão se estruturando no Mundo e fomentar o desenvolvimento também de outros setores, como veículos elétricos e voadores.

Será que o nosso atual superministro não vai sair da sua torre-de-marfim? Será que ele vai ficar na mesmice e insistir em não infringir a cartilha-sagrada-do-monetarismo nem que só até sair da recessão? Será que ele não vê que o patamar tecnológico está trocando e abrindo uma nova janela de oportunidades depois de 100 anos da última troca?

Será que Paulo Guedes vai nos privar da oportunidade que o corona-vírus nos trouxe para ousar na criação de novas modalidades de “dinheiro-fiat”, como o “Vale-Consumo”, e nos ensejar os meios para produzir um choque-de-consumo ‘a la’ encilhamento, que faria a economia pegar-no-tranco?

Será que ele vai perder a chance de se inspirar no patriotismo e na criatividade do seu antecessor, o também liberal-da-gema, Rui Barbosa e vai nos deixar com a saudade da euforia do Machadão?

Afinal, não foi p’ra isso que nós elegemos o Bolsonaro.


Fabio Chazyn, autor dos livros “Consumo Já! Projeto Vale-Consumo” (2019) e “ O Brasil Tem Futuro?” (2020) https://clubedeautores.com.br/livro/o-brasil-tem-futuro

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