quinta-feira, 7 de maio de 2020

Doutrinas artificiais: Socialismo e Liberalismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Maynard Marques de Santa Rosa

A quarentena imposta pelo coronavírus enseja espaço útil para o ócio criativo. As mudanças em curso estimulam a meditação em torno das ideias que moldaram a sociedade moderna, e agora estão mergulhadas no vórtice do processo de evolução compulsória.

Socialismo e liberalismo são faces opostas da mesma moeda. Ideologias que pregam formas diferentes de administrar as relações sociais, têm ambas por finalidade o bem comum. A dicotomia enquadra-se no princípio da unidade dos contrários, enunciado por Heráclito de Éfeso, cinco séculos antes de Cristo. São, no entanto, doutrinas arquetípicas, com apelo emocional excludente e dilema maniqueísta, como os são o bem e o mal, o dia e a noite, a alegria e a tristeza.

O socialismo é um conceito coletivista que prega a imposição compulsória do interesse coletivo sobre o do indivíduo. A violência é uma tática preconizada pelo marxismo. A aplicação política do socialismo suscita o enigma da representação da coletividade.

A teoria socialista elegeu o Estado como depositário e gestor dos recursos da sociedade. A massificação inerente ao sistema reduz o indivíduo a simples peça do mecanismo social, destinada a uma função celular que lhe anula as aspirações e a dignidade. O centralismo e os controles peculiares ao processo polarizam o poder político em um vértice tirânico. Por isso, não há respeito à liberdade individual. O próprio conceito socialdemocrata é um sofisma que não escoima a rejeição ao direito de propriedade.

O liberalismo prega a soberania do livre-arbítrio individual. Ninguém, em tese, tem o direito de impor servidões ao indivíduo sem a sua aquiescência. A cooperação social é uma concessão do indivíduo ou a sua submissão à necessidade. Não seria, porém, essa submissão uma dependência que relativiza o próprio conceito liberal? A sujeição à necessidade do conjunto torna-se, assim, um impositivo categórico.

Portanto, socialismo e liberalismo são visões de mundo antagônicas. A meta socialista é o bem coletivo, enquanto que a liberal é o bem do indivíduo. O método socialista é autoritário, enquanto que o liberal é livre. O centralismo é um princípio vital do modo socialista; o do modo liberal é a liberdade. 

Em uma visão antropológica dos fatos, a história da humanidade mostra que a organização social sempre decorreu de imposição. Em todas as épocas, os potentados impuseram modos de vida, servidões e impostos aos súditos para fazer a guerra, construir obras e preservar os privilégios do grupo dominante. A cooperação compulsória tem sido o costume tradicional das relações sociais. Portanto, no fundo, a ideia socialista não passa de um atavismo.

O socialismo floresceu no século XIX, como resposta à exploração capitalista da revolução industrial, que havia introduzido uma nova forma de servidão nas relações sociais. Contudo, o ideal socialista já havia nascido muito antes, como observou Alexis de Tocquéville, em O Antigo Regime e a Revolução: “Acredita-se que as teorias destrutivas que em nossos dias são designadas pelo nome de socialismo sejam de origem recente; é um erro: essas teorias são contemporâneas dos primeiros economistas. Enquanto esses empregavam o governo todo-poderoso com que sonhavam para mudar as formas da sociedade, os outros apossavam-se em imaginação do mesmo poder para demolir-lhe as bases” (pág. 181).

A liberdade é uma conquista gradual do processo civilizatório e um anseio natural de justiça das relações sociais. O movimento liberal foi uma onda que cresceu a partir do humanismo da Renascença e atingiu o ponto culminante na Revolução Francesa, quando uma sociedade consciente e amadurecida rejeitou a ordem tradicional regida por tirania e privilégio de sangue.

O liberalismo consagrou as ideias-força de liberdade e igualdade que varreram o Ocidente, a partir da queda da Bastilha, em 1789, resumindo as aspirações de todos os povos. A terceira legenda, inspirada no idealismo de Rousseau, nunca chegou a sensibilizar as massas. É que a fraternidade não tem peso na equação do poder. Talvez o tivesse a propriedade, que foi a sugestão (materialista) de John Locke.

O forte embasamento ideológico da Revolução Francesa, contudo, não foi suficiente para prevenir uma nova tirania: “Das próprias entranhas de uma nação que acabava de derrubar a realeza, viu-se sair subitamente um poder mais extenso, mais detalhado, mais absoluto do que o que fora exercido por qualquer dos nossos reis” (Alexis de Tocqueville).

As sociedades dos dois últimos séculos tiveram a oportunidade de vivenciar experiências dialéticas de liberalismo puro e socialismo marxista, que deixaram um legado de lutas, conquistas e sofrimento em vão ou não.

Na verdade, a marcha do destino coletivo obedece a uma lógica inacessível à razão humana. Irrefutável é a dedução de Heráclito, de que nada é permanente, exceto a mudança. A sabedoria milenar do Eclesiastes adverte que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e todo propósito debaixo do céu tem o seu tempo” (Cap. 3, salmo 1). Logo, tudo passa, e o tempo é o vetor da evolução.

As doutrinas concebidas para modelar a sociedade são quimeras efêmeras do orgulho humano. Socialismo e liberalismo passarão para a História, deixando parcelas de legado civilizatório. Entretanto, o componente de abuso que lhes é inerente terá o desfecho descrito no Evangelho: “Toda planta que meu pai não plantou será cortada e lançada ao fogo” (Mt, 15:13).

Maynard Marques de Santa Rosa é General de Exército na reserva. Foi Secretário de Assuntos Estratégicos do Governo Federal, durante o primeiro ano da administração Bolsonaro.

2 comentários:

aparecido disse...

os Generais de nosso exercito parecem poodles no colo de madames...depois dessa segunda feira estive no interior de SP e isso era o que os cidadãos mais instruidos falavam sobre eles...A constituição tem que ser respeitada por todos...Porque só o poder executivo tem que respeitar a constituição ??? legislativo boicotar executivo é crime de responsabilidade...Judiciario controlar e cercear executivo é crime de responsabilidade...e os poodles vão lá para uma conversinha ???? A MIDIA tem que respeitar a constituição e dizer todas as versões de uma noticia... a liberdade de expressão não é absoluta como fazem as emissoras de Tvs e Jornais e portais...Governadores que falsificam as estatisticas de mortes tem que serem denunciados criminalmente.. Ou a justiça cumpre seu papel ou fechem esta josta...Generais de pijama virando escritores...lugar de general não é no teclado...é na luta..general que tem medo de luta deve se enfiar dentro de casa e não sair mais de lá... de vergonha....

Anônimo disse...

Eu aprecio muito aquele máxima, da qual desconheço o autor: O Socialismo só deu certo nos países onde NÃO foi implantado. Ou a versão: O Socialismo só NÃO deu certo nos países onde foi implantado.