sábado, 2 de maio de 2020

O Fisiologismo venceu... É a Soma Zero



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por André Luís Vieira

Hoje, choro a minha inocência por acreditar num projeto de país justo, ético e desenvolvido...

O choque de realidade gerado pelo conflito entre a busca pela democracia participativa e pela cidadania ideal, de um lado, versus o exercício da democracia real e do jogo político, de outro, roubaram a minha esperança nesse projeto de Brasil...

Nosso modelo de democracia é a apenas uma versão moderna do platônico mito da caverna.

Foi-nos prometida uma democracia ampla e participativa, mas na prática personalismos e corporativismos, patrimonialismo e corrupção estão degradando o sentido da constitucionalidade e o alcance das instituições.

É o agravamento irrefreável da erosão de nossa democracia!!!

Nossa democracia é uma novela tão surreal que a sociedade do espetáculo já não dá mais conta de acompanhar. Está atordoada, dividida, fragmentada...

Enquanto paixões irascíveis acirram ânimos e nos afastam mais do que o isolamento social pandêmico, acordos e conchavos são efetivados. E a lição aprendida no jogo político é a sobrevivência por quaisquer meios e a qualquer custo, mesmo ao custo da esperança...

O poder popular não é soberano, há muito tempo. O poder popular, em nossa democracia pouco representativa, está a cada dia mais restringido aos períodos eleitorais e olha lá, hein?!

Hoje, a participação popular é confrontada como um risco a própria democracia, pela ótica de instituições que não são democráticas, cujos atores não foram eleitos ou cujos mandatos são quase vitalícios e ilimitados. Paradoxo da democracia à brasileira?

Estou convencido de que há três formas de se analisar uma questão política: a forma certa, a forma errada e a visão do oportunismo político, lastreada pelo interesse de ocasião.

Como invariavelmente é a visão do oportunismo que prospera, acrescentando-se boas pitadas de imoralidade, também estou convencido de que só há duas maneiras de se enxergar as coisas na política, ou é ingenuidade, ou é método.
Como não creio que nesse âmbito haja ingenuidade, só me resta admitir o método. De fato, restou claro que tudo depende da intensidade e da direção para onde o vento sopra...

Só importa, além da sobrevivência política, o poder pelo poder para o poder!!! No fundo e ao cabo, são as duas únicas regras do jogo. O resto é ingenuidade...
Crise permanente? Presidencialismo de coalizão? Parlamentarismo branco? “Ministrocracia”? “Amigocracia”? “Jeitinho brasileiro”? O que vejo é a oligarquia cleptocrática formatada como um amálgama permanente de interesses sempre presentes, qualquer que seja o governo.

Matematicamente, nossa democracia de soma zero é um paradoxo difícil de explicar. Apesar dos vetores se anularem, o resultado tende a menos infinito. Tende ao subdesenvolvimento. Tende ao retrocesso. Tende à demagogia. Tende ao fracasso civilizatório.

Sinceramente, por que chorar, então? Sabemos que a política é a arte das conciliações improváveis. Todo o resto é ilusão... Uma espessa cortina de fumaça...
O fisiologismo venceu e foi de goleada... Seria um novo 7x1?

Mais uma guerra perdida pelo povo brasileiro. E essa não tem volta...

Ah é, e o povo, como fica nisso tudo? O povo é vítima e, ao mesmo tempo, algoz de sua própria tragédia. A trágica da democracia de soma zero.

Continuaremos a ser o “país do futuro” que escolheu o fracasso como compromisso histórico e institucional.

E onde fica a obrigação moral em ser ético? Não fica...

Às vezes, a melhor forma de mostrar que alguém está errado é deixá-lo persistir no erro!!!

Temos mitos e heróis à vontade nas prateleiras, renovando nossas esperanças a cada 4 anos, sempre numa visão de governo, nunca de Estado.

De Roma para cá, pouca muita coisa mudou. A política continua cínica e populista, retórica e demagógica... Tudo depende de oportunidade e conveniência...

Mas, enquanto a decepção com os fatos se aprofunda, a pandemia avança impiedosa. Já estamos batendo na casa dos 6 mil óbitos e a população em estado de indigência nas ruas aumenta assustadoramente.

Difícil a solução. Qual o caminho? Não tenho respostas. Somos o que somos e continuaremos a ser...

E, infelizmente, persistimos e persistiremos no erro. E, por isso, o Brasil não tem o menor perigo em dar certo!

André Luís Vieira é Advogado.

Um comentário:

Chauke Stephan Filho disse...

O Brasil não tem cura, porque a doença é o próprio doente.