sexta-feira, 17 de julho de 2020

O editorialista e sua armadilha


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant’Ana

As sereias, metade peixe, metade mulher (embora a descrição possa variar), usavam as armas do feminino para excitar a imaginação masculina e açular o desejo: enlouqueciam marinheiros, que, seduzidos e descontrolados, buscando a felicidade, ganhavam a morte.

É a mitologia, ensinando, entre outros, que somos todos propensos a ser guiados por impulsos irracionais e a fazer escolhas não genuínas.

O seguinte fato está batido, mas não vencido: há uma cilada que precisa ser vista com mais vagar.

Em 08/07/20, não sem dar um verniz filosófico à insensatez, Hélio Schwartsman, editorialista da FSP (Folha de S. Paulo), falou sem rodeios que torce "para que Bolsonaro morra" de covid-19.

É o padrão FSP. Há poucos dias, Gregorio Duvivier, seu colunista, foi condenado judicialmente por postar, não no jornal, é certo, mas no Facebook, seu desejo de que "alguém" matasse o empresário Luciano Hang.

E Mario Sergio Conti, em 07/09/19, com ardis retóricos para se proteger, lamentou que a facada sofrida por Bolsonaro não haja sido fatal.

Mas, no libelo de Schwartsman, o pior é o argumento capcioso, uma cilada cognitiva que pode capturar leitores desavisados.

Para explicar a conveniência da morte do presidente, ele evocou o "consequencialismo", no qual, conforme diz, "ações são valoradas pelos resultados que produzem." Assim, "o sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior", acrescentou.

Aplica-se à escolha do motorista que opta por atropelar uma pessoa para poupar a vida de várias. Não é uma ideia apreciável?

Situações há em que semelhante escolha é meritória. E um advogado de defesa pode absolver seu cliente ao evocá-lo.

No entanto, ter o consequencialismo como princípio geral é um desastre! Em última análise, dá margem a que cada qual se veja legitimado para decidir e agir como bem entenda, criando a própria lei.

Que tal ver na prática? Bolsonaro pensa que as universidades estão dominadas por professores que fazem pregação de esquerda. E tem razão! Pergunto: se, para frear essa abusiva elite acadêmica, Bolsonaro recorresse a métodos violentos, Schwartsman aceitaria?

É claro que não! Homem culto que é, que sempre se declarou avesso a ideias totalitárias e a toda espécie de autoritarismo, jamais aceitaria. E, nesse ponto, estaria coberto de razão. No entanto, seria coerente com o que escreveu se aceitasse.

O consequencialismo presta-se a justificar fatos históricos abomináveis que, até o recrudescimento da estupidez da FSP, Schwartsman sempre repudiou com ênfase e fundamento. Teria mudado?

Foi pretextando fazer o bem à Alemanha e à fictícia raça ariana que Hitler tentou exterminar os judeus (matou mais de seis milhões).

Os fascistas de Francisco Franco pretendiam "limpar" a Espanha da presença "imunda" de bascos e catalães.

Mais de 76 milhões de chineses foram mortos pelo regime comunista entre 1949 e 1987, além dos 3,5 milhões de civis que o Partido de Mao Tsé-Tung já tinha assassinado antes de consumar a revolução chinesa (totalizando 80 milhões).

E, na União Soviética, a revolução comunista matou 62 milhões de pessoas entre 1917 e 1987.

Note-se que, só nessas duas revoluções, foram mais de 140 milhões de mortos, tudo para, no dizer dos revolucionários, um "bem maior".

Augusto Pinochet (Chile) e Fidel Castro (Cuba) extinguiram vidas aos milhares, "valorando" suas ações pelos resultados, na presunção de que, de tamanha violência, "adviria um bem maior".

Fica claro que o argumento do consequencialismo serve a qualquer tirano. Não é por nada que o aplauso mais retumbante ao desvario de Hélio Schwartsman vem do pessoalzinho alinhado com o Foro de S. Paulo.

Volto à mitologia. O verniz de filosofia na insensatez de Schwartsman é o "canto da sereia" a seduzir o leitor que, incapaz de abstrair o conceito, tem a ilusão vaidosa de dominar um paradigma filosófico.

Contrariando presumíveis convicções de Schwartsman, aquele que aceita a sua tese assimila, mesmo sem perceber, uma visão autoritária.

Talvez ele devesse reler a Odisseia de Homero, recordar as aventuras de Ulisses e pensar sobre como o herói venceu o encanto das sereias.

Alertado para os riscos que corria, Ulisses cuidou que o amarrassem ao mastro do navio e tapou com cera os ouvidos de seus marinheiros. Enlouqueceu, seduzido por aquelas vozes irresistíveis. Mas não se desviou do rumo. Venceu. E triunfou porque teve método.

O mito ensina que somos todos propensos a ser governados pela paixão, a fazer escolhas egoicas e a contrariar nossas próprias boas intenções.

É claro que Bolsonaro tem muito a ser criticado. E, pela enésima vez, diga-se: não é democrático blindar governo algum a crítica.

Só que, como muitos de seus colegas, Hélio Schwartsman está encanzinado em combater Bolsonaro, o que é diferente de criticar. Bacharel em filosofia, ele poderia ter método para não cair nas armadilhas do próprio ego. E não escreveria uma coluna tão desarrazoada.

Seu artigo ainda contém um sofisma, um raciocínio lógico  baseado em premissa falsa. Mas já chega! Outros já o criticaram.

Para finalizar, vale lembrar uma ideia universal, elementar nos regimes democráticos: ninguém deve ser julgado nem, muito menos, punido pelo que pensa e sente, ao passo que cada qual é responsável e deve responder por seus atos, palavras e omissões. É a gestão da liberdade.

Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
E-mail: sentinela.rs@uol.com.br

2 comentários:

aparecido disse...

Os canhotos estão tão atrevidos que vão indo alegremente ao precipicio sem perceber...igualmente aos juizes e procuradores superiores...governam o pais mas não aceitam a responsabilidades de seus atos de governo...e o bichinho mata em todo o mundo mas aqui o bichinho faz genocidio......e a responsabilidae do tal genocidio náo é de quem colocou o bichinho em circulação, mas do presidente do pais agredido por ele...mais parecem as tropas napoleonicas e depois as alemãs na Rússia.. os generais russos correram para dentro de seu imenso pais e deixaram as tropas avançarem até o ponto em que não podiam mais voltar...kkk do jeito que está brevemente os atos de nosso PJ poderão ser colocados pendurados nas paredes de toaletes...Com seus rasos conhecimentos juridicos nossos deuses estão armando arapucas para eles masmos...Veja o caso daquele que vai daqui a pouco o chefe deles... disse que a lei manda no canhão...e qualquer estudante de direito aprende na primeira semana do curso que as leis são uma concessão dar armas para governar um pais...se não funcionarem o canhão faz o serviço.. é assim em qualquer lugar do mundo onde o homo sapiens governa...e os deuses não sabem ????

Anônimo disse...

Com tantos inimigos desejando seu mal, precisamos redobrar as orações pelo presidente, porque seu abdome está preocupantemente volumoso.