segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Saí para o Recreio


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por H. James Kutscka

Há mais de dois anos, por gentileza de meu amigo Jorge Serrão, toda segunda feira me utilizo de seu site como uma tribuna para escancarar toda a podridão que tomou conta de nosso país.

Embora seu prestigiado “site” conte com centenas de milhares de visitas toda semana, minhas denúncias e de outros articulistas para meu espanto, não levaram a nenhuma mudança no essencial da porcaria.

Portanto, como eu mesmo já estou cansado de bater nas mesmas teclas apenas mudando os dedos, resolvi dar um tempo e com a anuência do “dono do pedaço”, publicar um conto extraído de meu livro “Casa dos Mortos” Contos do dia 33, com a ilustração feita por outro querido amigo: Hector Gómez Alísio.  

Venham para o recreio comigo, espero que se divirtam.

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Caso:

“COURIER”

Logo abaixo do título, Club do Catálogo Universal, em carácteres dourados, estava impresso: Trazemos qualquer coisa de qualquer lugar em uma semana.

As palavras “qualquer” estavam em “bold”, como que para enfatizar seu sentido amplo, e brilhavam mais que as demais.

Foram elas que chamaram a atenção de “Caco”- como era conhecido Carlos Coroña por seus vizinhos e raríssimos amigos. Caco vivia sozinho, não por opção sua, mas provavelmente por opção do resto do mundo. Baixinho, gordinho, meio careca e prepotente, não tinha muitos atrativos que pudesse oferecer para conseguir companhia.

Em termos financeiros, sobrevivia bem graças a uma agencia de publicidade medíocre que dirigia com um sócio que desprezava. 

Estava acostumado a receber catálogos por correspondência de tudo quanto era porcaria.

Um ex funcionário seu, despedido por ter um coeficiente intelectual maior do que o desejado, estava se vingando dele, usando o seu nome para responder e pedir catálogos de todos os pilantras que apareciam com anúncios vendendo coisas raras, pinçados com cuidado só justificado pelo ódio - de revistas de fotonovelas ou de pornografia.

No começo Caco ficara puto.

Havendo recebido aviso dos correios de que havia um pacote em seu nome e não sabendo do que se tratava, fora levado pela curiosidade a pagar para saber o que esse continha.

Cento e cinquenta reais revelaram ante seus olhos a única e autentica Cruz de Caravaggio.

Uma pequena cruz de metal com um cristal incrustrado, pendurada em uma correntinha de metal dourado embalada em uma caixinha plástica, mais um diploma dando-lhe os parabéns por ter adquirido esta joia da sorte, que prometia curar qualquer mal de quem com fé a utilizasse, desde uma simples falta de sorte até a impotência.

O pacote todo na melhor das hipóteses, não valeria mais que dez reais.

Da segunda vez, pagou quarenta reais para retirar uma fita de vídeo de vinte minutos intitulada “O melhor do sexo Gay”

Houve é claro a terceira, a quarta vez, e muitas mais, mas Caco já não se incomodava de ir até ao Correio.

Simplesmente lhes ignorava os avisos e o pacote voltava ao remetente.

Quanto à correspondência que lhe chegava em casa, ainda não havia encontrado uma maneira de evitar as dezenas de catálogos de coisas inúteis que brotavam embaixo de sua porta todas as semanas.

No começo os guardou por curiosidade, e as vezes até dava uma olhada, mas seis meses depois já apenas os chutava para o lado da porta onde o zelador os havia deixado quando chegava em casa após o trabalho.

Naquele dia no entanto, Caco havia chegado do escritório mais cedo e o sol da tarde entrando pela janela brilhou na palavra qualquer, impressa em ouro na capa de um dos catálogos que se encontrava na penumbra, espalhado com outros pelo chão.

A curiosidade o levou a abaixar-se e recolher a revista.

Na capa trazia uma placa metálica com a imagem tridimensional de uma orquestra sinfônica sobre ela. O texto logo abaixo da foto dizia: TV Holográfica.

Você ainda não viu nada se não viu a nova Simphonic 4000.

Oferta especial para nossos sócios, só esse mês US$ 39,99.

- Apenas outra daquelas merdas de catálogos que o estavam levando à loucura, pensou.

Aquilo não teria mais fim, era uma bola de neve.

Quem quer que fosse que houvesse iniciado o processo, talvez não tivesse ideia do que detonara, o nome de Caco entrara no circuito através de algumas dezenas de editoras às quais seu ex-funcionário havia enviado resposta aos anúncios mais ridículos que havia encontrado.

Posteriormente seu nome fora negociado junto com milhares de outros, agora com o pomposo nome de “Mailing”.

Esse “mailing segmentado de “compradores” ou “vítimas mais suscetíveis”, foi vendido a tudo quanto é negociante de bugigangas pelo correio existente no país.

Como alguns deles tinham tentáculos no exterior, no terceiro mês Caco já estava recebendo todo tipo de correspondência e ofertas dos Estados Unidos, Europa e até dois catálogos da Austrália.

Foi mais ou menos por aí que Caco percebeu que poderia colecionar os mais interessantes e os provenientes de lugares mais estranhos.

Esse que agora tinha em suas mãos, ganhava de longe o prêmio de mais criativo de todos.

A oferta da capa era só o começo de uma deliciosa sequência de aparelhos que fariam parecer a mais alta tecnologia atual, como o arco e flecha em relação ao raio laser.

Aquilo deveria ser um “gimmik” (criação de um fato intrigante para ser desvendado por uma campanha publicitária posterior) para o lançamento de algum seriado de TV de ficção científica ou algo que o valha.

Dentro do catálogo, com a promessa de: “Sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”, existiam desde descascadores de frutas à laser até “cyborgs” de ambos os sexos que prometiam satisfazer qualquer de suas preferências sexuais, sem guardar memória do fato além de servir como criado.

O catálogo parecia impresso em algo similar a um tecido plástico que dava relevo e tridimensionalidade às fotos dos produtos.

Caco nunca havia visto nada igual, e embora nunca houvesse comprado nada por catálogo, resolveu levar a brincadeira adiante e fazer um pedido pelo número de “toll free” impresso com tinta luminosa na contra capa.

Para sua surpresa, do outro lado da linha foi atendido por uma voz eletrônica que lhe navegou pelos circuitos indicando em cada porto o que deveria fazer para ter seu pedido atendido.

Assim a máquina arrancou seu número do American Express Card, seu endereço, seu CEP, e é claro seu pedido.

Uma tv holográfica por US$ 39,99 frete incluído. Afinal de contas o que eram US$ 40,00?

Uma semana depois Caco já havia esquecido completamente o pedido, por isso mesmo surpreendeu-se, quando o zelador lhe disse que havia chegado um pacote para ele de um tal de “Clube do Catálogo Universal.

- Acabaram vencendo o senhor, heim seu Caco? comentou o zelador com uma intimidade que o incomodava.

- Carlos, por favor me chame de Carlos.

- Desculpe seu Carlos, mas pensei que o senhor houvesse dito que jamais compraria algo destes picaretas que lhe enviam catálogos.

Caco não respondeu, pegou o pacote que parecia uma destas embalagens com que as pizzarias fazem entrega à domicílio e inclusive pesava como tal e dirigiu-se ao elevador que acabava de chegar ao térreo, trazendo a gostosa da cobertura que passou por ele sem o cumprimentar.

Carlos nutria por ela um tesão reprimido, e um ódio mais público pelo empresário que lhe pagava o aluguel e uma vez por semana vinha cobrar seus favores.

- Vaca, pensou enquanto entrava no elevador que ainda rescendia a seu perfume importado.

Durante o percurso até o décimo oitavo andar, aquela fragrância penetrante distraiu sua atenção do pacote que tinha em mãos e o conduziu por sonhos eróticos onde ele imaginava seu nariz metido nos loiros pelos da intimidade da vizinha.

- Estariam esses também perfumados? Talvez com um leve toque de mar, pensou.

Ouviu-se um “plin” e Carlos voltou à realidade. A porta do elevador abriu e o pacote que durante seu devaneio havia perdido o peso, voltou a obedecer às leis da gravidade em suas mãos.  Era claro que havia sido enganado, uma tv holográfica fosse como fosse, o dia que existisse, deveria pesar mais e ser maior do que aquilo que tinha agora sobre a mesa de centro da sala de seu apartamento.

Pelo menos era isso que seus parcos conhecimentos de física e eletrônica insistiam em lhe dizer. Dentro da caixa aberta sem muito interesse, apenas uma placa metálica quadrada de uns cinquenta cm. de lado por no máximo um cm. de espessura, não pesaria mais de umas quinhentas gramas, na verdade, o que dava peso à caixa era um livro, Manual de Instruções de sua Simphonic 4000 que havia sido acondicionado junto à placa que supostamente era o aparelho.

Agora curioso, Carlos colocou a placa sobre a mesa central.

Gravados em baixo relevo, sobre a placa podia se ver em suas bordas vários retângulos com símbolos, um deles dizia liga / desliga, outro dizia,  tradutor universal, outro, definição, outro, canais, assim por diante passando por coisas que ele somente saberia para que serviam lendo o compendio que acompanhava o aparelho.

É claro que Caco como bom brasileiro não leu nem a primeira página do manual antes de apertar o botão Liga.

Imediatamente sobre a placa, apareceu uma linda mulher morena de uns cinquenta centímetros de altura, vestida apenas com um tecido leve e translucido, que parecia balançar ao sabor de uma brisa inexistente no calor de janeiro de seu apartamento fechado.

Quando Carlos deu por si, estava sentado no espaldar do sofá olhando absolutamente maravilhado para a pequena e sensual criatura, que parecia falar com ele. Com o susto, havia perdido as primeiras palavras, mas a imagem tridimensional seguia: ...onic 4000 você agora vai poder ver o que de melhor é produzido na galáxia como se estivesse presente. Nosso aparelho permite a seleção de até quatro mil canais de notícias, entretenimento e lazer, para melhor disfrutar de seus recursos, recomendamos a leitura do manual de instruções que o acompanha. Parabéns e boa diversão. Como por encanto, a mulherzinha desapareceu e o silêncio voltou a reinar na sala escura.

-Porra! isto não é possível, alguém está tirando uma com a minha cara.

Agarrou a placa sobre a mesa e começou a examiná-la por todos os ângulos.

Não havia marcas de solda nem de parafusos, e ainda por cima o peso, era quase nada. Além das gravações em baixo relevo, na parte de cima que aparentemente funcionavam por eletricidade estática através do toque, nada mais podia se ver que remotamente explicasse o milagre.

Quem tentara foder sua vida acabara dando-lhe um presente, se aquilo era verdade ele ficaria rico.

Carlos era um negociante, não precisava ver mais nada, o que precisava era do catálogo; onde mesmo o colocara?

Guardou a placa dentro da caixa e passou a procurar o catálogo, que a uma semana atrás havia largado em algum lugar do qual não se recordava.

Lá pela uma da manhã desistiu, perguntaria no dia seguinte a Benedita, a faxineira que vinha uma vez por semana para pôr ordem na bagunça que ele deixava no apartamento nos outros seis dias.

Durante a noite sonhou com seus desafetos, todos juntos em uma sala de reuniões gigantesca, sentados em volta de uma enorme mesa da qual ele ocupava a cabeceira. Uma porta encimada pelas letras CCC de Carlos Coroña Corporation se abria e por ela uma loira fatal entrava e em passos lentos e cadenciados cobria toda extensão da mesa que parecia infinita, até encostar seus lábios carnudos nos dele, fazendo com que todos os circunstantes engolissem em seco.

Neste momento Carlos punha-se em pé e dava uma solene banana a todos.

A loira, é claro, era a vaca da cobertura, que por ser dele, agora havia sido promovida de bovino à gatinha.

Acordou cedo, havia muito o que fazer.

Benê, só viria lá pelas dez da manhã, a essa hora já havia mandado seu sócio na agência de publicidade, para a puta que o havia parido e jogado suas ações na mesa para que esse as enfiasse onde melhor lhe aprouvesse. Começava uma nova vida. Ele que nunca havia sido simpático com ninguém, agora podia exercitar toda sua antipatia sem medo.

Antes de sair da agência, disse o que pensava de cada um dos funcionários, desde o diretor de criação que para ele não passava de um cornudo puxador de fumo para o qual odiava ter de pagar um alto salário, até o humilde “office boy” que ele insistia em chamar de mameluco.

Ao meio dia sem amigos, mas com o espírito renovado, foi para casa para o início de sua nova vida.

Primeiro, pediria um Cinturão Temporal que de acordo com o catálogo, possibilitava locomover-se no tempo; o resto seria consequência.

Quando chegou no edifício em que morava, imagens de grandeza revoavam por seu cérebro desordenadas como bandos de andorinhas ao entardecer.

- Boa tarde seu Caco, disse o zelador ao vê-lo adentrar à portaria.

- Carlos, energúmeno! disse dirigindo-se ao elevador.

Abriu a porta do apartamento mecanicamente já gritando por Benê.

-Dna. Benedita onde a senhora pôs um catálogo grande, mais ou menos do tamanho de uma revista Veja, tinha na capa com letras douradas “Clube do Catálogo Universal.

- Sei não seu Caco, deve ter ido junto com todos os outros catálogos que o senhor recebe e mandou eu jogar no lixo.

-Não pode ser Benê, sua burra, e não me chame de Caco, meu nome é Carlos, senhor Carlos.

Com um ódio crescente pelas classes menos privilegiadas, olhou para a mesa da sala e não viu a caixa que deixara sobre ela na noite passada.

- Onde você pôs a caixa que estava em cima da mesa?

- Ah! a caixa da pizza, já joguei com o resto do lixo no incinerador do prédio seu Carlos, tinha um livro lá dentro e o suporte, foi tudo junto, se o senhor pôs o livro lá dentro, em uma caixa de pizza é porque queria que eu jogasse fora não é mesmo? perguntou Benedita já sem tanta certeza.

Carlos matou Benedita estrangulada com a corda do ferro de passar roupa que essa usava quando ele chegou em casa.

A defesa alegou insanidade temporária.

Baseada nos testemunhos de seu antigo sócio e empregados sobre o acontecido na agência na manhã do crime não foi difícil, para seu advogado, trocar a cadeia por uma instituição mental, onde Carlos assina e responde à todas as ofertas de clubes de compra  que chegam às suas mãos, e é conhecido pelos outros internos como “o cliente”.

-Pô, Guedes cê vai querê que a gente acredite nesta cascata?

O investigador Lauro Guedes que estivera contando o caso para os companheiros no fim do expediente na quadragésima oitava, olhou para Tonhão que comia uma coxinha engordurada, e entre uma mastigada e outra o interrompera e seguiu.

- São só histórias que eu ouço Tonhão, não têm porque serem levadas à sério.

Enquanto dizia isso, acabava de recortar, deixando pedaços de papel sobre a mesa do bar, um anúncio da revista Ilusão, no qual se vendia uma pedra por apenas quarenta reais, que prometia curar a impotência.

Na fórmula impressa para o pedido, havia colocado o nome Carlos Coroña- o endereço era o da casa de saúde.

Guedes pediu licença e saiu, - Desculpem, mas tenho que por uma carta no correio.

Quando Guedes acabou de sair, Raeli, outro dos que haviam acompanhado a história completou: - Não sei o que um sujeito culto destes faz sendo tira, sei que já foi até publicitário.

-Vai vê que até conheceu esse tal de Caco que matou a doméstica, disse Tonhão tomando mais um gole do chopp quente que estava à sua frente.

-É... vai vê que até pode sê. Completou Raeli olhando a porta.


H. James Kutscka é Escritor e Publicitário
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