segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Consumir ou consumar


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Fábio Chazyn

Agir ou sucumbir. Ser ou morrer. Ser ou não ser. Eis a questão!

O dilema popularizado por Shakespeare nos idos 1600 continua nos clamando para a ação da batalha, ainda que a expressão do tormento do príncipe Hamlet tenha se transformado no tempo.

Atualmente o “ser”-humano assumiu a forma de “ser” uma célula do organismo que é a sociedade de consumo, relativizando as mazelas das suas questões existenciais.

Foi ruim para a satisfação das carências afetivas do ser-humano de outrora, mas bom para a sociedade de consumo que o seguiu. E, como parte dela, se abriram as portas para este novo ser-humano poder viver com mais conforto e por mais tempo. Tudo isso com a condição (e preço) de não parar de consumir.

Da área da psicologia, o assunto passou a ser tratado pela da economia. O consumo virou a ‘gasolina’ da prosperidade. Sem o consumo a máquina não funciona; é inútil continuar discutindo sobre como melhorar o desempenho da máquina quando falta combustível -- quando falta o consumo.

Quando a economia está parada, a primeira medida a ser tomada é botar combustível, ou seja, estimular o consumo e, daí, reativar o seu funcionamento. No momento da recessão, recorrer a dogmas ou tabus que atrapalham essa iniciativa é medida contraproducente.

As duas preocupações permanentes dos técnicos da área econômica são (i) a administração do déficit fiscal, porque ele gera inflação e, ela, aniquila o consumo e (ii) o estímulo ao investimento, que gera emprego, renda e, consequentemente, o consumo.

Para enfrentar a questão do déficit fiscal, a cartilha do economista o obriga a reduzir o prejuízo entre a receita do Estado com impostos e os seus gastos. O problema enfrentado pelos economistas é que reduzir os gastos do Estado tende a impedir que ele compareça como provedor de serviços básicos (educação, saúde, transporte público, segurança), obrigando o cidadão a assumir este papel ele mesmo, em detrimento do seu papel maior, de consumidor.

A redução da despesa não sendo a solução, e sim o aumento da receita, leva à evidência de que toda política econômica tem que estar associada a um plano abrangente de criação de empregos. É por isso que o único remédio eficaz para reduzir o déficit fiscal é o crescimento econômico. Por sua vez, este depende do entusiasmo dos empreendedores, sem os quais é impossível disseminar a criação de emprego e renda.

Só daí pode advir o consumo. Ao Estado cabe criar as condições prévias, ou seja (i) assegurar a segurança jurídica, sem a qual o empreendedor não pode se assegurar do direito de receber pelo que vende e (ii) impedir que monopólios financeiros gananciosos constranjam as iniciativas dos empreendedores.

Os “salvadores-da pátria” já ludibriaram o povo com todo tipo de mentiras. Acenaram com a “necessidade” do Estado de assumir a função de Empresário, mas o que conseguiram foi produzir mais despesas do que receitas.

O Estado não consegue se proteger contra governantes que o usam para cooptar o seu corpo burocrático e praticar a ‘política-da-miséria’ para  manterem-se no poder. É hora de tentar a solução oposta do Estado-Mnimamente-Necessário-e- facilitador-do-empreendorismo.

A transição tem que ser feita através do uso inteligente de novo ‘dinheiro-fiat’ sem perturbar a política macroeconômica atual que tenta reduzir o déficit fiscal sem aumentar a quantidade de moeda-fiduciária oficial, o real.

O exemplo da ideia do “voucher-educação”, em que o cidadão recebe um direito de gastar para se educar como bem lhe aprouver, é ilustrativa. Outra é a do “Projeto Vale-Consumo” com o poder de fazer a economia ‘pegar-no-tranco’, usando a poupança externa, estrategicamente, para melhorar imediatamente a qualidade de vida da população mais carente, transferir tecnologia e criar empregos no Brasil.

O “Projeto Vale-Consumo” representa um atalho para a re-industrialização do País. É um exemplo de Comércio Exterior Patriótico que o Itamaraty já tarda em adotar. De fato, o dirigente de plantão já tarda em clamar a sociedade para ajudá-lo a definir um ‘Projeto Estratégico de Nação’ que envolva o estímulo do consumo interno, sem o qual não podemos sair do atoleiro da “política-da-miséria” dos especialistas em cabresto-eleitoral e seguir no caminho da prosperidade do País.

Ser consumidor ou não ser. Eis a questão!

Fabio Chazyn, autor dos livros “Consumo Já! Projeto Vale-Consumo” (2019) e “O Brasil Tem Futuro? Projeto A.N.O.R. – Inteligência Artificial Coletiva” (2020)   https://clubedeautores.com.br/livro/o-brasil-tem-futuro

Um comentário:

Anônimo disse...

Nem sempre o empreendorismo facilitado dá bons resultados, se seu titular defende interesses alheios à população.


[Além disso, a AGRA pressiona os governos em nome de corporações agrícolas para aprovar uma legislação que beneficiará os produtores de fertilizantes e empresas de sementes em vez de fortalecer os alimentos em pequena escala. (...) Essa Revolução Verde da década de 1960, iniciada pela Fundação Rockfeller, introduziu a mecanização da agricultura industrial em grande escala e a introdução de fertilizantes químicos e sementes de multinacionais que beneficiaram grandes agricultores e destruíram grande parte da economia dos pequenos produtores. (...) O resultado foi que, enquanto produtores ricos selecionados prosperavam, milhões de agricultores mais pobres foram forçados a fugir para as cidades onde se estabeleceram em favelas urbanas. (...) A AGRA na África é um pouco diferente. Em 14 anos, ela influenciou os governos membros a promover a compra de sementes comerciais de empresas multinacionais todos os anos e fertilizantes químicos caros, prometendo grandes ganhos que não se concretizam. (...) A AGRA fez pouco ou nada para proteger os pequenos agricultores da falência por importações subsidiadas da UE ou dos EUA. Em vez disso, suas safras de alimentos tradicionais estão sendo substituídas pela produção de monocultura de milho para exportação internacional, deixando os países africanos mais do que nunca dependentes de mais alimentos importados. (...) O agricultor está proibido de reutilizar suas próprias sementes indígenas. Se na época da colheita, os fazendeiros não conseguem vender seu milho sob mandato da AGRA para pagar sua dívida por sementes e fertilizantes, eles geralmente são forçados a vender seu precioso gado ou a incorrer em dívidas ainda maiores, um modelo clássico de escravidão por dívida colonial.]

https://dinamicaglobal.wordpress.com/2020/09/21/fundacao-rockfeller-e-fundacao-gates-tambem-estao-destruindo-a-economia-alimentar-da-africa/