sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Desindustrialização em marcha acelerada e a grave situação da Engenharia


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por José Manoel Ferreira Gonçalves

Após duas décadas recebendo subsídios fiscais da União, estados e municípios da ordem de R$ 20 bilhões, a Ford decidiu fechar suas fábricas no país. Débitos com o Fisco, contrapartidas e isenções à parte, o anúncio não apenas escancara a falência do modelo de subsídios e benefícios tributários adotado pelo Brasil, mas também demonstra, em um cenário mais amplo, a gravidade de um quadro econômico que se mantém preocupantemente inalterado nos últimos anos: estamos mergulhados em um acelerado processo de desindustrialização, com fuga de investimentos e queda acentuada no nível de emprego qualificado.

Sem representatividade e apartada de qualquer movimento em prol de um projeto nacional de reconstrução da indústria, a Engenharia sofre silenciosa os reflexos desse desmantelamento da cadeia produtiva, da qual as montadoras sempre foram protagonistas. Mais de 20% do PIB industrial brasileiro é representado pelo setor automotivo.

O encerramento das três fábricas remanescentes da Ford no Brasil representa um duro golpe num mercado que já encontrava combalido. Setores diretamente ligados à produção automotiva, como o de autopeças, já estão à míngua e serão os primeiros a sentirem o impacto da decisão tomada pela matriz da companhia norte-americana, que, de imediato, anunciou a demissão de milhares de funcionários, incluindo todos os 830 que trabalhavam na planta de Taubaté. Segundo a Anfavea, em junho de 2018 o setor empregava mais de 112 mil pessoas em todo o Brasil.

Com forte presença na indústria automotiva, os engenheiros mecânicos e metalúrgicos são os mais afetados quando uma indústria como a Ford decide fechar as portas. Estima-se que 10% dos profissionais registrados no sistema do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea) pertençam a essa modalidade. Hoje, eles são o retrato de um país que, ao contrário do que acontece em nações desenvolvidas, conta cada vez menos com engenheiros em sua base de emprego formal. Nos Estados

Unidos, por exemplo, um engenheiro é contratado a cada 30 segundos, conforme pesquisa da Kelly Services, empresa global de recursos humanos. Engenheiros mecânicos e industriais estão entre os mais requisitados, ao lado do engenheiro de softwares.

Estamos com níveis de emprego formal muito abaixo do esperado entre os profissionais engenheiros – e essa não é uma realidade apenas na indústria automotiva. A solução passa pela revisão de critérios para a abertura de novas escolas e seus respectivos currículos. A debandada de investimentos e empregos para o Exterior só agrava essa situação.

Não podemos assistir à derrocada da indústria nacional de camarote.

É preciso reagir!

Ao contrário do que disse recentemente a autoridade máxima do país, não estamos quebrados. O Brasil possui recursos que poderiam ser investidos em infraestrutura, como a poupança interna, hoje desafortunadamente destinada para o pagamento da dívida pública, que se acumula ano após ano e hoje é mantida, inclusive, fora do teto de gastos do governo. Além disso, contamos com balança comercial positiva e reservas cambiais de US$ 359 bilhões.

A crise é de gestão e de ausência de um projeto para o país ser grande novam ente, com a participação efetiva da Engenharia.

José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, jornalista, advogado, professor doutor, pós-graduado em Ciência Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, integrante do Engenheiros pela Democracia e presidente da Ferrofrente.

2 comentários:

aparecido disse...

Aqui quem manda são os advogados....Se uma industria no exterior tiver um problema de qualiddade contratam dez engenheiros para resolvê-lo.. se uma industria brasileira tiver algum problema de qualidade em seus produtos contratam dez advogados....

Rogerounielo disse...

Fala de presidente do Ipea sobre indústria gera forte reação do setor

1. “Carlos Von Doellinger defendeu que o Brasil deixe de apoiar o setor industrial e coloque foco em suas vantagens comparativas, como o agronegócio e a mineração”.

2. Exemplo emblemático. Não vamos mais fabricar carburadores, pois é mais barato importar carburadores prontos. Vamos nos focar no agronegócio, vocação do Brasil. Já viu esse discurso em algum lugar?

3. Então, ao abandonar a fabricação de carburadores o Brasil deixou de fazer investimentos em PESQUISA CIENTÍFICA e desenvolvimento de NOVAS TECNOLOGIAS em carburadores e em vários tipos de peças para fabricação de automóveis e outros bens duráveis, “matando” a INTELIGÊNCIA COMPETITIVA em vários setores econômicos e em várias atividades econômicas voltadas para bens duráveis, de alto valor agregado, responsáveis pela prosperidade das nações mais avançadas do planeta.

3.1 Hoje importamos injeções eletrônicas e todos os outros tipos de peças para automóveis. Sucateamos a indústria como um todo, por termos aceitado, apenas, “importar carburadores”. Não subestime o poder das ideias impostas de fora para dentro, por outros países, pois é a melhor forma de ELIMINAR A CONCORRÊNCIA.

3.1.1 Lembram-se da “REENGENHARIA”????

3.1.2 Trata-se de um sistema que tem como objetivo redefinir e readequar determinados processos empresariais. A reengenharia procura reestruturar a organização por meio de novas ideias e metodologias a fim de reduzir custos, aumentar rendimentos, garantir a satisfação dos clientes e promover a melhoria contínua.

3.1.3 Quem implementou a “REENGENHARIA” cortando conhecimento e inteligência, simplesmente demitindo pessoas com base, apenas, na visão cega do grau de contribuição das pessoas para processos internos, “quebrou a cara”.

4. Sucateando a indústria com o “pensamento torto” embutido na ideia do “Vamos nos focar no agronegócio, vocação do Brasil”, aplicada (ideia) a vários setores industriais, sucateamos a PESQUISA CIENTÍFICA e a capacidade do país de desenvolver NOVAS TECNOLOGIAS, ao longo do tempo, única forma de um país se manter competitivo relativamente a outros países do mundo, o que colocou o Brasil “FORA DE TODAS AS CADEIAS GLOBAIS DE PRODUÇÃO EM TERMOS DE COMPETITIVIDADE”, nos tornando um competidor que tende a criar tecnologias para exportar bananas, com empobrecimento do país e sérios prejuízos na educação para termos PESQUISAS CIENTÍFICAS e NOVAS TECNOLOGIAS de ponta, em todos os setores econômicos e em todas as atividades econômicas, industriais e não industriais.

Fonte – Link https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/01/20/fala-de-presidente-do-ipea-sobre-indstria-gera-forte-reao-do-setor.ghtml

Fim