domingo, 17 de janeiro de 2021

O que explica o colapso da saúde no Amazonas



Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net


Por Letícia Alves


Corrupção, má gestão dos recursos públicos e negação do tratamento precoce: entenda o aumento de casos de Covid-19.

Quase um ano após o início da pandemia de coronavírus, quando o país já começa a ensaiar um retorno à vida normal — comércios e escolas reabrindo, reaquecimento do turismo e hospitais de campanha sendo fechados em várias cidades —, o Amazonas, sobretudo sua capital Manaus, registra um aumento exponencial de casos graves, internações e mortes causados pela Covid-19.

Em uma semana, a média móvel de casos da doença aumentou 85,3% no Estado, que tem batido recorde de casos e de internações desde o início do mês. Há registros de pessoas morrendo por falta de oxigênio nos hospitais. Numa operação emergencial, o governo federal enviou 50 toneladas de insumos ao Amazonas e disponibilizou aeronaves e ambulâncias para transportar pacientes a outros Estados.

Apesar de ter pegado todos de surpresa, o colapso no sistema de saúde do Amazonas já era anunciado. O BSM explica, abaixo, os  motivos que levaram ao agravamento da situação no Estado.

 Muito além do governo federal

A oposição gritou e a imprensa amplificou: a culpa das internações e mortes só pode ser do presidente Jair Bolsonaro. Os motivos atribuídos a ele, no entanto, são vagos: vão do "negacionismo" à suposta demora das vacinas, passando pelo "incentivo às aglomerações".

O presidente, no entanto, tem reafirmado que fez tudo o que estava ao alcance do governo federal para ajudar o Estado. “A gente está sempre fazendo o que tem que fazer, né? Problema em Manaus, terrível o problema lá. Agora, nós fizemos a nossa parte, com recursos, meios”, disse nesta sexta-feira (15).

Em publicação nas suas redes sociais, Bolsonaro expôs dados do Portal da Transparência que mostram que R$ 8,91 bilhões foram transferidos para o Amazonas e R$ 2,36 bilhões só para a capital Manaus, ao longo da pandemia. Isso sem contar os insumos transportados com urgência nesta quinta-feira.

Vacinas

O fato é que as vacinas teriam ajudado muito pouco, quase nada, na situação do Amazonas. Isso porque, não bastasse as farmacêuticas só terem entrado com o pedido para uso emergencial na semana passada, há uma demora natural no processo que vai da liberação à compra, distribuição e início da campanha de vacinação.

Mesmo que tudo tivesse iniciado em dezembro, ou mesmo antes, o número de pessoas supostamente imunizadas não seria suficiente para aplacar a crise já anunciada no Estado. Isso sem dizer que não há, até o momento, a certeza de que as vacinas realmente vão ser eficazes.

Autonomia dos Estados e municípios

Em abril do ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que os prefeitos e governadores tinham autonomia para estabelecer medidas para combater a transmissão do vírus.

 Foi com base nisso que lockdowns, fechamentos de escolas e comércios, toques de recolher, obrigação de uso de máscaras e mais uma série de ações foram decretadas em todo o país. 

O governo federal não poderia, portanto, interferir nas medidas adotadas pelos Estados e municípios. As restrições, no entanto, têm se mostrado ineficazes.

Corrupção

A crise na saúde no Amazonas é anterior à pandemia. Isso porque o Estado é historicamente marcado por desvios de dinheiro público, causando o sucateamento dos hospitais e a fuga de médicos para outras localidades do país.

A Operação Maus Caminhos, do Ministério Público Federal (MPF), investiga desde 2016 roubo de mais de R$ 100 milhões de recursos públicos, envolvendo empresários e ex-secretários de Saúde.

Já em 2020, em plena pandemia, A Controladoria-Geral da União (CGU), em parceria com a Polícia Federal (PF) e o MPF, deu início à Operação Sangria, que investiga o desvio, superfaturamento e outras irregularidades no pagamento e no transporte de respiradores no Amazonas.

Wilson Lima (PSC), o governador do Estado, é suspeito de comandar o esquema, segundo a Procuradoria Geral da República (PGR). Ele chegou a ser alvo de busca e apreensão e de um pedido de prisão, que foi negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“Os fatos ilícitos têm sido praticados sob o comando e orientação do governo do Estado do Amazonas, Wilson Miranda Lima, o qual detém domínio completo e final não apenas dos atos relativos à aquisição de respiradores para o enfrentamento da pandemia, mas também de todas as demais ações governamentais relacionadas à questão, no bojo das quais atos ilícitos têm sido praticados”, diz ofício da PGR.

A secretária de Saúde do Amazonas, Simone Papaiz, foi presa no âmbito da mesma operação, mas foi solta após o cumprimento do prazo da prisão temporária e, agora, está em liberdade.

O governo federal repassou, desde o início da pandemia, quase R$ 9 bilhões para o Estado, além de mais de R$ 2 bilhões só para a capital Manaus. A investigação sobre os desvios e má gestão ainda está em curso.

Tratamento precoce

O Estado não adotou o protocolo de tratamento precoce defendido pelo governo federal, que envolve o uso da hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, sob o argumento de que não haveria um “consenso científico” sobre as substâncias no combate ao vírus.

A rejeição ao "kit covid", anunciado pela imprensa como ineficaz, pode ter sido um dos principais causadores da crise no Amazonas.

A equação é simples; e o desastre, anunciado. Sem tratamento precoce, mais casos se agravaram e, em um curto período de tempo, mais pessoas precisaram ser hospitalizadas. O sistema de saúde, então, foi ao colapso: não há leitos, respiradores nem oxigênio suficientes para todos. Como consequência, o número de mortes começou a subir. Pessoas morrendo afogadas no seco.

Má gestão

 Essa não é a primeira vez que o Estado sofre com os casos: em abril, a doença avançou no Amazonas e os hospitais ficaram lotados. Mesmo já tendo passado por isso, o Estado não se preparou para um possível novo pico da doença.

Quando os casos voltaram a crescer, em dezembro, o governador Wilson Lima disse que não havia mais tempo hábil para construir um novo hospital de campanha e trazer profissionais.

Vale lembrar que foi nessa época que o governador revogou um decreto que manteria o comércio fechado durante as festas de fim de ano. O aumento estava acontecendo paralelamente à manifestação popular contra o lockdown e não após sua revogação, como tem divulgado a imprensa.

Soma-se a isso a publicação, na primeira semana de janeiro — em meio à crise —, de uma lei que estabelece multa para quem divulgasse “fake news” sobre a doença. Fica a questão: o que é considerado fake news? A defesa do tratamento precoce? A denúncia de hospitais sucateados?

Nesta quinta-feira (14), Lima falou sobre a situação e disse que já havia feito a lição de casa, mas que foi pego de surpresa. “O que está acontecendo aqui é algo excepcional, extraordinário. E para completar ainda temos casos de reinfecção. (...) Nós estávamos preparados dentro daquela perspectiva que vivemos, mas o que está acontecendo agora é algo fora do comum”, disse à CNN.

Variação do vírus

Pesquisadores identificaram uma variação do coronavírus no Amazonas, que teria sido transmitida por viajantes japoneses que estiveram no Estado no início do mês. A mutação do vírus estaria causando reinfecções e mais transmissões da doença.

Não há até o momento, porém, mais pesquisas e informações que indiquem se essa mutação é mais grave ou transmissível.

Letícia Alves é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com experiência em cobertura política. Foi repórter de política no jornal O POVO e participou do Projeto Comprova nas eleições presidenciais de 2018. Sonha com um jornalismo verdadeiramente livre e democrático e independente do patrocínio e do controle estatal. Publicado originalmente no site BRASIL SEM MEDO em 15 de Janeiro de 2021.


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