quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A Imprensa está virando Religião


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por JR Guzzo

O resultado das eleições na Câmara dos Deputados e no Senado Federal é mais uma prova de que a mídia deste país que chama a si própria de “grande”, ou de “nacional”, ou coisa parecida, está se tornando um novo tipo de fenômeno – uma atividade que, definitivamente, não consegue mais operar de acordo com a sua natureza. É como um navio em que os tripulantes querem navegar terra adentro, e não mar afora.

Meios de comunicação, pelo entendimento geral que se tem a respeito das suas funções, servem para dar ao público informação sobre as realidades que existem à sua volta – é por isso que as pessoas compram os seus serviços, e por nenhuma outra razão. Cada vez mais, porém, a mídia brasileira vem se mostrando incapaz de exercer a sua atividade natural. Em vez de transmitir fatos, passou a transmitir crenças; está se tornando uma religião, em que toda a energia se concentra em divulgar um evangelho no qual os comunicadores comunicam o que acham certo, virtuoso e obrigatório para a sociedade, e não o que está acontecendo. O resultado básico disso é que o público é apresentado, o tempo todo, a um mundo que não existe. Dizem que está acontecendo uma coisa e acontece outra – ou, frequentemente, acontece o contrário.

Não é uma questão de ponto de vista; é algo que pode ser constatado com elementos que os advogados chamariam de “prova material”. O episódio da escolha dos novos presidentes da Câmara e Senado é a última comprovação objetiva dessa anomalia – um clássico, na verdade, em matéria de desinformação em estado puro.

Há uns dois meses, desde que o assunto apareceu no noticiário, o público foi informado, do primeiro ao último minuto, sobre algo que simplesmente não estava acontecendo: uma disputa duríssima, dessas em que tudo pode acontecer, entre candidatos do governo e candidatos da oposição. Só que jamais existiu, no mundo dos fatos, disputa nenhuma, nem candidato nenhum da oposição – os únicos candidatos para valer, desde o começo, eram os do governo, e a única coisa que podia acontecer era a sua eleição.

Não custa lembrar. No início dessa história o público leu, viu e ouviu, como notícia de grande seriedade, que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, poderia ser reeleito para o cargo. Maia, que de uns tempos para cá se “reinventou” como líder da esquerda nacional e marechal de campo da oposição, iria causar uma derrota mortal para o governo com a sua vitória; já podiam chamar o padre e encomendar o caixão para o presidente Jair Bolsonaro. Em nenhum momento, na verdade, Maia teve chance alguma: a lei proíbe que presidentes da Câmara sejam reeleitos, e o Supremo Tribunal Federal decidiu que a lei deveria ser mantida. Se nem o STF aceita uma aberração dessas, qual a chance real da reeleição? Três vezes zero, mas a fantasia foi mantida viva, respirando por aparelhos, até a mídia informar que não, não tinha rolado.

Como não dava com Maia, teria de dar com outro; em cinco minutos apareceu um “candidato da oposição”, apresentado como perfeitamente capaz de ganhar a presidência da Câmara. A ficção foi mantida até o fim. A sessão decisiva já tinha começado, e os candidatos já tinham feito os seus discursos finais, o da oposição em favor “da democracia” – e a imprensa em peso continuava dando a disputa, que nunca existiu, como “aberta”, quando ela já estava fechada antes de começar. Minutos depois, concluída a contagem dos votos, o candidato do governo teve 302 votos contra 145 – não uma diferença de dez ou vinte votos, mas mais do que o dobro. Que disputa era essa? No Senado aconteceu a mesma coisa – mais de 70% dos votos foram para o candidato do governo.

Nada disso é um erro de avaliação. É o resultado inevitável do abandono da atividade de informar em favor de um “jornalismo de resistência”. No entendimento dos que o praticam, e que hoje formam a maioria, a imprensa é uma missão, e não um ofício: dizer que a verdade é aquilo que se decide nas redações, e nada mais, tornou-se uma espécie de dever moral, político e patriótico. O público, para o seu próprio bem e para o bem do país, só pode ler, ver e ouvir o que os comunicadores acham que lhe deve ser dito. Do contrário, a população, na sua ignorância, no seu amadorismo ou na sua indiferença, vai ser enganada pelo governo, pela direita e pelo mal — e a mídia, em nome da sobrevivência da democracia e outros valores, está aí para combater nessa guerra que considera santa.

Jornalistas não gostam de admitir, nem para si próprios, que perderam a importância.

A cara da mídia brasileira tem sido essa, de uma maneira geral, nos últimos cinco anos — possivelmente, desde que foi consumado o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Pode ter começado, para os peritos em ciência política, bem antes disso. Afinal, seja lá pela razão que for, o jornalismo é uma atividade que atrai preferencialmente pessoas de esquerda — e pessoas que se entendem como “de esquerda” não gostam, naturalmente, que presidentes de esquerda sejam depostos, ou que a direita forme qualquer tipo de maioria. Mas essa é uma data tão boa quanto outras, com a vantagem de estar mais próxima e envolver episódios ainda não esquecidos. Assim que Dilma foi posta na rua, por decisão de mais de três quintos do Congresso Nacional e com a aprovação do STF, a imprensa passou a divulgar a tese de que tinha ocorrido um “golpe”. 

De lá para cá, não mudou mais de ideia nem de assunto. Quando alguém se mete nesse caminho e não olha para mais nada, é inevitável, a uma hora qualquer, que acabe dizendo que 2 + 2 são 22. Mais: se, em nome da fé, perde a capacidade de admitir que errou, vai continuar errando. É a vida diária da imprensa brasileira desde que se transformou em culto político e ideológico: faz militância ativa em favor de uma visão de mundo e de vida, e quando não tem apoio nos fatos, pior para os fatos. Obviamente, essa conduta gera consequências práticas. É uma espécie de engrenagem.

Um veículo que coloca os desejos de seus colaboradores acima das realidades acaba informando mal. Se informa mal, perde a credibilidade. Se perde a credibilidade, perde a importância. É onde estamos no momento: uma mídia cada vez mais excitada e cada vez menos relevante.

JR Guzzo é Jornalista.

Um comentário:

ARS disse...

Ao invés de "imprensa brasileira", o jornalista deveria ter se referido à imprensa marrom e seus penas de aluguel. Afinal de contas, por suposto, o autor não se inclui entre aqueles que participam dessas organizações criminosas.