sexta-feira, 26 de março de 2021

A Água e o Futuro


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Maynard Marques de Santa Rosa


  1. A água no mundo

O crescimento vertiginoso da população mundial, após a 2ª Grande Guerra, somado à urbanização acelerada que ocorreu, impactou dramaticamente o consumo de recursos naturais. Energia e alimentos já são comodities tradicionais. Em Dez 2020, a água, também, virou commodity e passou a ser comercializada na bolsa de Wall Street. 

Em 1900, a população mundial era de 1,633 bilhão de habitantes. Em 1950, já éramos 2,5 bilhões; em 2000, chegamos a 6,1 bilhões. Atualmente, somos 7,7 bilhões, e a previsão para 2050 é de 9,3 bilhões.

Contrariando as previsões de Malthus, a produtividade agrícola ensejou o aumento da produção, que tem conseguido atender à demanda de alimentos. E o surgimento de novas fontes alternativas vem fomentando a oferta de energia. Mas, os estoques de água potável são invariáveis e tendem a diminuir por efeito da poluição. O processo industrial de dessalinização da água do mar mostrou-se economicamente inviável. O aumento exponencial do consumo fez da água um insumo vital, e a segurança hídrica tornou-se uma necessidade crítica.

A distribuição da água no mundo é desigual. A Ásia detém 35% dos estoques, para uma população de 4,6 bilhões, enquanto a América do Sul possui 26 % do total, com uma população 11 vezes menor, de apenas 423 milhões.  A Europa detém 8% e a América do Norte, 11%. A África é o continente mais preocupante, com 11 % da água e 1,2 bilhão de pessoas, uma taxa de crescimento populacional explosiva e previsão de 2,5 bi. em 2050.

Atualmente, a água virou insumo de valor estratégico e a causa principal de disputa entre Estados soberanos, como vemos em vários casos concretos recentes.

Os três grandes rios da China, o rio Amarelo, o Yang-tsé e o Mekong nascem nas montanhas do Tibete. Em 1951, a China invadiu o país e o anexou politicamente. No Norte da China, a escassez de água obrigou o governo a fazer um investimento gigantesco de U$ 50 bilhões em um programa de transposição do rio Yang-Tsé, em 20 anos, que, mesmo assim, não consegue atender à demanda. Com a urbanização crescente, a China terá de impor o racionamento permanente.   

A água que abastece a Índia vem do Himalaia estrangeiro. A gestão hídrica do país é feita pelo Min. da Defesa, por ser assunto de segurança nacional. A Índia vai à guerra, na hipótese de desvio de curso das fontes vitais. Mas, a pressão demográfica de 1, 4 bilhão de pessoas, que cresce a 1% ao ano, vai terminar impondo o racionamento permanente em 40% das cidades, a partir de 2030, como afirmou o embaixador indiano no Brasil.   

O rio Indo, que fornece água para 2/3 do Paquistão, nasce no Himalaia, mas atravessa a Caxemira indiana.  A segurança hídrica do país depende do Estado rival, o que explica a disputa ferrenha de ambos pela soberania da Caxemira. 

O Egito depende do rio Nilo, mas a irrigação agrícola praticada a montante vem reduzindo o seu caudal, o que causa atrito com o Sudão, a Etiópia e demais condôminos da bacia. 

A motivação subjacente do conflito árabe-israelense decorre da água do rio Jordão. Somente pela força, Israel reduziria a irrigação de suas culturas no deserto ou devolveria aos árabes as Colinas de Golã com as nascentes do Jordão, duramente conquistadas na guerra de 1973.  

É importante observar que a água é o insumo essencial da produção agrícola, e o preço dos alimentos tende a agregar o custo dessa comodity. Estatísticas de consumo mundial de água mostram que a agricultura consome cerca de 62%, enquanto que a indústria absorve em torno de 22% e o uso urbano é de menos de 10%. 

O professor Alysson Paulinelli, fundador da Embrapa e entusiasta da agricultura tropical, costuma enfatizar que: “Agricultura é água. Sem água, não é possível produzir”. Portanto, o mundo carente de água vai depender dos alimentos produzidos no Brasil e o país precisa bem gerir os recursos hídricos, preservando as suas bacias, para garantir o futuro da produção agropecuária nacional.

  1.  A água no Brasil 

Segundo a ANA, o Brasil detém mais de 12% da água doce do Planeta. Além das águas de superfície, dispomos dos aquíferos Guarani e Alter-do-Chão, que são depósitos subterrâneos gigantescos. Portanto, é mais água do que a de toda a Europa ou do continente africano. As carências que enfrentamos decorrem da distribuição desigual da água pelo território nacional. Enquanto a Amazônia detém quase 70%, o Nordeste dispõe de apenas 3%; o Sul e o Sudeste, cerca de 6% cada; e o Centro-Oeste, em torno de 16%.

O brasileiro, deitado desde sempre em berço esplêndido, não se deu conta do generoso legado da Natureza. O descaso com as fontes e o desperdício são mazelas típicas da cultura nacional. A fartura até então existente sempre contemplou a demanda, mesmo com a explosão demográfica e a urbanização acelerada após a década de 1930. O fenômeno da seca, por ser cíclico e eventual, ficou estigmatizado apenas como uma maldição nordestina. No final do 2º milênio, porém, começamos a enfrentar a escassez de verão nas grandes cidades e o racionamento de energia por declínio da vazão de rios como o São Francisco e os afluentes do Paraná. 

Em 1930, o Brasil tinha 41 milhões de habitantes, sendo 70% da população rural e 30% urbana. Hoje, é de 212 milhões, sendo 80% urbana e 20% rural. E cresce à taxa média de 0,8% ao ano.  As grandes bacias estão secando. Até o rio Paraguai e o Pantanal Mato-grossense foram afetados. E estamos só no início de um processo que assola, há décadas, os continentes mais populosos.

  1. Mudando o paradigma

Não é prudente empurrar o problema até que venha a comprometer a segurança nacional. A tendência implacável à escassez indica que chegou a hora de se adotar uma gestão racional dos recursos hídricos, para consolidar uma cultura de respeito às nascentes, bem como revitalizar as grandes bacias, começando pelo São Francisco e pelo Araguaia; e de preservar o aranhol hídrico da Bacia Amazônica. 

Para responder ao desafio e ser capaz de planejar o futuro, o setor público precisa estruturar-se. A agência reguladora é necessária, mas não suficiente, além de se mostrar ineficiente nos moldes atuais. Ela precisa passar por um reordenamento que a converta em órgão mais técnico do que político. Além disso, carecemos de governança executiva para monitorar e recuperar efetivamente o fluxo, as nascentes e os lençóis freáticos. 

Para se obter um adequado gerenciamento orientado em resultados, é necessário: 1º, a centralização estratégica do monitoramento da situação existente e o acompanhamento das providências governamentais, ambos em tempo real; 2º, a integração dos esforços nos níveis federal, estadual e municipal; 3º, a cooptação do setor privado, em especial dos grandes consumidores, para participação efetiva nos investimentos. O 3º Setor, quando isento de interesse ideológico, também pode oferecer importante contribuição, como mostra o trabalho do Instituto Espinhaço. 

Há exemplos de incentivos no mundo, como o de Nova York, onde os proprietários de terra contendo nascentes são isentos de alguns impostos e ainda recebem subsídios anuais para a manutenção e conservação daquelas nascentes. No Brasil, há o precedente de iniciativas estatais bem-sucedidas, como foram os planos de trabalho do 7º B E Cmb (Natal-RN), Unidade de Engenharia do EB, na revitalização das margens do rio São Francisco.  

Na minha opinião, o esforço de preservação dos recursos hídricos abrange 90% do que se pode fazer pelo meio-ambiente. Só falta nele incluir o saneamento urbano, a reciclagem do lixo e o combate à poluição hídrica e ao desmatamento ilegal. A importância da água justifica reordenar as funções afins em um futuro ministério de Recursos Hídricos e Meio Ambiente.  

Até o momento, a motivação para migrações em massa tem sido por uma vida melhor. Chegará o tempo das migrações por sobrevivência, e o atrativo será a água.

Maynard Marques de Santa Rosa é General de Exército, reformado. Foi Secretário de Assuntos Estratégicos do Governo Jair Bolsonaro.

3 comentários:

Rubi Rodrigues disse...

Perfeito. A hora de agir é agora antecipando-nos aos problemas mais sérios e aos custos maiored

Félix Maier disse...

Parabéns pelo artigo, prezado chefe, General Santa Rosa. Muito abrangente e elucidativo.

O problema da água doce é cada vez maior no mundo todo.

No entanto, no Planeta Água, o que não falta é água. Água salgada, claro, mas água.

Israel já depende mais de 50% de sua água potável vinda da dessalinização da água do mar. Ainda com custo muito alto, será uma realidade corriqueira no futuro para muitos países.

As capitais brasileiras que ficam no litoral já deveriam começar a pensar no futuro, com vistas a dessalinizar a água do mar. Inclusive São Paulo, que não fica muito longe do litoral. Custo alto com centrais de dessalinização, adutoras e bombeamento da água? Claro. Quando a Cantareira e outras represas secarem por anos, onde os paulistas e paulistanos vão buscar a água?

Atenciosamente,

Félix Maier

Rogerounielo disse...

O Brasil da Cúpula do Clima

1. Aos 21min19s do vídeo consta registro importante:

1.1 VALOR: “A Vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, disse antes da Cúpula que se um dia se fizeram guerras pelo óleo no futuro se farão guerras pela ÁGUA. É uma declaração que pode ressuscitar esse discurso já bastante amarelado de que a Amazônia é nossa?

1.2 VP Hamilton Mourão: “No futuro próximo, 10 ou 15 anos, haveria guerra pela água. Kamala Harris colocou muito bem, pois na própria fronteira dos EUA com o México eles tem problema de água. Já temos países com deficiência de água muito grande. Índia. Norte da África. A GUERRA PELA ÁGUA É UMA INEVITABILIDADE. Detemos 20% da água doce do mundo. Não tenho dúvida de quem em algum momento vamos estar vendendo água“.

Fonte - Link https://youtu.be/YaLsKNzz-hA

2. Início da transição da matéria:

A Água e o Futuro

sexta-feira, 26 de março de 2021

A distribuição da água no mundo é desigual. A Ásia detém 35% dos estoques, para uma população de 4,6 bilhões, enquanto a América do Sul possui 26 % do total, com uma população 11 vezes menor, de apenas 423 milhões. A Europa detém 8% e a América do Norte, 11%. A África é o continente mais preocupante, com 11 % da água e 1,2 bilhão de pessoas, uma taxa de crescimento populacional explosiva e previsão de 2,5 bi. em 2050.

Segundo a ANA, o Brasil detém mais de 12% da água doce do Planeta. Além das águas de superfície, dispomos dos aquíferos Guarani e Alter-do-Chão, que são depósitos subterrâneos gigantescos. Portanto, é mais água do que a de toda a Europa ou do continente africano. As carências que enfrentamos decorrem da distribuição desigual da água pelo território nacional. Enquanto a Amazônia detém quase 70%, o Nordeste dispõe de apenas 3%; o Sul e o Sudeste, cerca de 6% cada; e o Centro-Oeste, em torno de 16%.

Fonte - Link https://www.alertatotal.net/2021/03/a-agua-e-o-futuro.html?m=1

Maynard Marques de Santa Rosa é General de Exército, reformado. Foi Secretário de Assuntos Estratégicos do Governo Jair Bolsonaro.

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