sexta-feira, 19 de março de 2021

"Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor"


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Candice Almeida

Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Tive que retomar os versos de Fernando Pessoa com meus alunos na última aula que tivemos. Desgastados pela pandemia, pelo medo de morrer, pelo desemprego de parentes, pelo ano em casa, pelo descaso do Estado, eis que surge mais uma grande perda: o adiamento do vestibular da UFPR. E, como se não bastasse, a UEPG, outra importante instituição, também adiou o processo seletivo para maio. Independente do apoio à decisão - afinal de contas, o risco sanitário é concreto - os transtornos são, sim, lamentáveis.

O ano de vestibular já, por si só, é um momento difícil para o aluno. Incertezas quanto à carreira, pressão pela conquista da vaga, noites mal dormidas, dias mal acordados; soma-se isso a dúvida da realização de um processo seletivo que define a vida de muitos, para o qual, há exaustivos 14 meses, vários vêm se preparando. Horas e horas de estudo. Além de tudo, a incerteza das datas elimina o foco, destrói a perseverança. Como estabelecer uma rotina quando não se sabe a meta? E quando parecia haver uma, eis a notícia do adiamento. Não há ansiedade que aguente. Não há como glamourizar o momento. É um baque e ponto.

No entanto, frustrações e preocupações fazem parte do cérebro humano. É deveras importante entender que, como diria Caetano, “a vida é real e de viés”. Invalidar sentimentos ou apostar tão somente na positividade é deletério para a formação. O que nos mantêm vivos e alerta é justamente o contraditório. Empatia, inclusive, vem daí. Entender a decisão do outro e lidar com ela.

Desnecessária essa tirania da felicidade, essa ideia imposta pelo capitalismo, pelo tudo-está-bem-ismo. Nem sempre tudo está bem, a vida é feita de desafios. Máscaras? Só a N95, por favor. De que adianta todos usarem o mesmo disfarce? No fim do dia voltamos a ser quem somos de qualquer modo: inseguros, ansiosos e preocupados. Lembremos René Descartes: “Mascarado, eu avanço”. Infelizmente, a máscara à qual ele se refere não são as que eu queria ver quando saio de casa.

Acreditemos que, de fato, não havia alternativa. Por mais traumático que seja, o vestibular pode esperar; a vida, não. Temos uma nova data e, com ela, uma ressignificação, o marco de uma nova meta, de novos desafios e conquistas. Essa fantasia neoliberal da felicidade só se verifica mesmo na ficção, na utopia. A vida real são os momentos, como sempre diz meu pai. Outros tantos ótimos virão. Outros tantos desesperadores darão também o ar da graça.

Não quero minimizar a dor e a raiva daqueles que estão esperando à la Godot, em um 2020 que insiste em não terminar. No entanto, agora é a hora de nós, professores, reafirmarmos nosso compromisso de ensino e de acolhimento com os alunos para que o malogro desse certame seja apenas mais uma pedra no meio do caminho. As mesmas lágrimas salgadas que alimentaram nosso novo ‘Mar Português’ ainda serão de alegria pela conquista da vaga, apesar de tudo. O Bojador há de ser vencido novamente. A boa esperança se encontra logo ali. Queridos alunos, preparem-se, 28/03 os espera. Ressignifiquemos.

Candice Almeida, professora de Redação do Colégio Positivo e assessora pedagógica de Redação no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios do Grupo Positivo.

Um comentário:

Mauro Moreira disse...

Essa gente está totalmente alheia à realidade do povo. Sugerir que se utilize apenas máscaras N95, sem sequer saber quanto custa uma máscara como essa é um desrespeito ao cidadão comum, que não tem o emprego bem remunerado de um professor de universidade federal, emprego esse que, não só é muito bem remunerado, mas estável, de gente que faça chuva ou faça sol, com vírus chinês ou sem vírus chinês, com greves ou sem greves, jamais será demitido. Uma máscara como essa não sai por menos de 5 ou 6 reais.
Sou idoso, eu e minha esposa e tenho um neto de 18 anos, universitário, portador de diabetes tipo 1 e, portanto, somos do grupo de alto risco. Ele mais ainda. Nossa despesa com insulina, fitinhas e e convênio médico é absurda. Como comprar máscara N95 para três pessoas, ao custo de 5 a 6 reais a unidade? Eu e minha esposa aposentados. Nós nos esforçamos para mantê-lo com uma qualidade vida razoável. Pagamos convênio, pagávamos condução e faculdade privada. Agora, ele se esforçou e foi buscar o seu sonho, sendo aprovado no vestibular para Engenharia Bioquímica na USP na cidade de Lorena-SP. É um garoto responsável, estudioso, merece todo o apoio,. Toma insulina todos os dias, pela manhã, nas refeições a antes de dormir. Agora, estamos em uma situação delicada. Como mantê-lo distante? Estaremos trocando uma despesa por outra. Não queira, ninguém, passar pelo que passamos, ao ver uma pessoa sendo acometida de uma crise de hipoglicemia, como tivemos que presenciar, eu e minha esposa, quando ele caiu ao chão, com uma caneca de seu chocolate do café da manhã, que ele mesmo prepara e começou a se contorcer, gemer, babando, e sangrando, pois mordeu os lábios na crise. É fácil sugerir aos outros facilidades, desde que não dificuldades. Talvez pudéssemos comprar máscaras N95, se não tivéssemos toda a despesa que temos. Mas não reclamamos de nossa situação, sabemos que moramos em um país de terceiro mundo e muitos de nossos irmão, milhões deles, em que pese nossa dificuldade, passam por situações muito piores. Penso nos milhões de irmãos brasileiros desempregados, empresários à beira da falência ou cujas empresas já faliram, vendo um sonho de toda uma vida se desmoronar. Penso nesses irmãos que não poderão comprar o medicamento para eles ou seus entes queridos. Penso na tristeza de um irmão que não poderá por o pão de cada dia na mesa de seus lares, que não poderão fazer uma festinha para seus filhos nos aniversários e compra o presente, como sempre fizeram. Máscara N95, quando tudo o as pessoas possuem é um retalho de pano para se protegerem. Fala sério?!