terça-feira, 20 de abril de 2021

Mudanças que a Pandemia gerou nas cidades vieram para ficar


 

Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Nabil Bonduki

Todos os que previram que a excepcionalidade gerada pelo coronavírus seria breve e que rapidamente voltaríamos à vida que tínhamos antes se frustraram. Depois de 13 meses e 350 mil mortes, a única certeza é que conviveremos com a Covid-19 por muitos anos, mesmo após a vacinação.

Não se sabe por quanto tempo a vacina gera imunização e quanto ela é eficiente para as novas variantes. Para 89 de 100 pesquisadores questionados pela revista Nature, o Sars-CoV-2 continuará a circular em bolsões e sua transmissão persistirá por décadas, requerendo a continuidade da prevenção. Novos vírus deverão surgir.

A longa duração da pandemia tende a consolidar as tendências de mudanças de comportamento urbano, tanto das pessoas como das empresas, identificadas nesse ano. Todos os aspectos da vida urbana —habitação, trabalho, educação, cultura, espaço público, mobilidade, lazer e entretenimento– foram transformados e as mudanças, positivas ou negativas, vieram para ficar.

Entender o novo modo de vida que está surgindo é essencial para formular políticas públicas capazes de repensar as cidades do século 21. Sintetizei em 20 pontos os impactos da pandemia na vida urbana, baseado em nossas pesquisas e em inúmeros estudos que se debruçaram sobre esse tema, no Brasil e no exterior.

1. A moradia torna-se o lugar central da vida familiar, profissional e social. Passa a ser o lugar do trabalho, do estudo, do lazer, dos exercícios físicos, do relacionamento social. Por essa razão, o direito a habitação ganha enorme centralidade.

2. As empresas, ONGs e órgãos públicos se reorganizam para manter o home office, ainda que alternadamente, em sistema híbrido. Com ferramentas digitais sofisticadas, inteligência artificial e câmeras abertas, as empresas controlam a distância os funcionários e realizam reuniões de trabalho online. Os espaços corporativos (e os custos) são reduzidos.

3. Na educação, cresce a combinação de atividades online com o ensino presencial. Aulas online com os melhores professores e conferências com especialistas de todo o mundo se tornam cada vez mais frequentes.

4. Essas mudanças exigem moradias maiores e melhores, conectadas à internet rápida e com espaços específicos e silenciosos para o home office, educação à distância e recreação, proporcionais ao número de membros do domicílio. Esses requisitos passam a ser obrigatórios para os trabalhadores inseridos no sistema econômico formal e para a qualificação profissional, excluindo os que não os atendem. Apartamentos minúsculos e estúdios, tendência no mercado imobiliário, tornam-se inadequados.

5. Sem políticas públicas para garantir o acesso a uma habitação com esses requisitos, incluindo a conectividade, para a população de baixa renda, a desigualdade social e urbana tornar-se-á ainda maior.

6. Para além de ser um direito urbano fundamental, a pandemia evidenciou a necessidade de urbanizar e sanear os assentamentos precários como uma medida essencial para a prevenção sanitária das cidades.

7. A longa permanência na moradia requer repensar o espaço doméstico para compartilhá-lo, de maneira mais harmoniosa, com os outros moradores, com ambientes mais funcionais e acolhedores para as novas funções.

8. Os espaços abertos na habitação (quintais, jardins, varandas e áreas livres nos condomínios ou na vizinhança) tornam-se necessidade e objeto de desejo, sobretudo nas famílias com crianças.

9. Como nem sempre é possível atender a esses requisitos, os conflitos familiares tendem a crescer, gerando separações ou reforçando a tendência dos casais morarem separados, aumentando a demanda por habitação.

10. Com o homeoffice, mesmo híbrido, o deslocamento moradia-trabalho torna-se eventual, permitindo maior flexibilização do local da habitação. Muitas famílias nos estratos médios e altos podem morar longe do local do trabalho, em condomínios fora da cidade, na praia ou no campo. A custos mais baixos, podem ter uma casa maior, com generosas áreas livres. A segregação socioterritorial se aprofunda.

11. Ao reduzir o tempo gasto no deslocamento para o trabalho, as pessoas podem circular mais em seus bairros, fortalecendo o comércio e serviços locais, as relações de vizinhança e as redes de solidariedade local. A economia de bairros pode crescer criando novas centralidades.

12. Em contrapartida, os bairros mais centrais, onde se concentram os empregos no terciário, perdem atratividade. A redução do espaço nos escritórios amplia a disponibilidade de áreas corporativas, imóveis e terrenos. O comércio e serviços no entorno, ligados ao trabalho, perdem grande parte da clientela.

13. Esses bairros podem se tornar decadentes se não forem implementados programas para transformá-los em áreas de uso misto, com mais habitação e serviços de caráter local. Facilitar o retrofit para converter os edifícios comerciais em residenciais é indispensável.

14. A moradia torna-se local de entretenimento. Além da TV, as plataformas digitais pagas (Netflix, Globoplay etc.), os espetáculos teatrais online e lives musicais ampliam o acesso doméstico à cultura, substituindo os cinemas, teatros e casas de show. Com sofisticados equipamentos de projeção e telas grandes, requerem espaços maiores e mais reservados.

15. Com o prolongado isolamento, o entretenimento na moradia e o delivery na gastronomia, espaços culturais, de entretenimento e de gastronomia (teatros, cinemas, casas noturnas, bares, restaurantes, etc.) fecham definitivamente, pois a forte redução na frequência os tornam economicamente inviáveis.

16. Esse setor é ainda impactado pela drástica redução do turismo de negócios e eventos. Reuniões de trabalho, congressos profissionais e simpósios acadêmicos se mantêm virtuais, afetando a infraestrutura que foi criada para sustentá-los. Já o turismo de lazer deve ser menos afetado.

17. Embora o desejo de ir para os espaços e equipamentos públicos continue forte, seu uso para eventos culturais de massa, tendência antes da pandemia, deve ser controlado para evitar aglomerações, perdendo audiência.

18. A procura por locais abertos para recreação, como parques, praças e áreas livres, continuará grande, ampliando a reivindicação por mais espaços públicos de qualidade.

19. Os modais individuais motorizados (carros e motos) e ativos (bicicletas e a pé) aumentam sua participação na mobilidade por garantirem maior isolamento e por estarem mais adequados às transformações na relação moradia-trabalho, em detrimento do transporte coletivo.

20. Em consequência, se aprofunda a crise do sistema de transporte coletivo, insustentável sem uma lotação mínima e demanda regular. Sem equilíbrio financeiro e medidas de prevenção para garantir o isolamento físico, o serviço organizado de transporte público pode se inviabilizar.

Esse novo quadro significa, provavelmente, a maior alteração urbana desde a consolidação da moderna cidade industrial. As mudanças tornam necessário uma reformulação do pensamento urbanístico, ainda fortemente marcado pelo movimento moderno, lançando novos desafios para o planejamento urbano.

O modo de morar e de viver preconizado por esse cenário, embora possa ter alguns aspectos positivos, tende a reforçar o individualismo, o isolamento entre as pessoas e a segregação, além de desestimular a convivência no espaço público. Ele pode gerar uma cidade ainda mais desigual, onde uma grande parte da população é excluída das oportunidades urbanas. Essa perspectiva precisa ser enfrentada com políticas públicas que se contraponham a essas tendências.

Nabil Bonduki é Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secretário de Cultura de São Paulo. Originalmente publicado na Folha de S. Paulo em 19 de abril de 2021.

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