quarta-feira, 14 de abril de 2021

Rolo compressor e drible de corpo na assembleia da Petrobras


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Irany Tereza

O rolo compressor da União na assembleia extraordinária da Petrobras ontem não surpreendeu, apenas comprovou a disposição do governo de bancar a atual prioridade de Bolsonaro na companhia: mudar a política de preços dos combustíveis. A surpresa ficou por conta do drible de corpo de investidores institucionais pesos-pesados, alguns com forte ligação com o governo. A abstenção de Previ, Banco do Brasil, Caixa, Bradesco e Itaú, entre outros, teve um ar de saída honrosa para uma situação difícil.

É certo que mesmo que se mostrassem contrários à destituição de Roberto Castello Branco e sua substituição pelo general Joaquim Silva e Luna, isso não seria suficiente para mudar o placar favorável ao governo. Mas, não foi uma vitória larga. Em números absolutos, o resultado final da destituição de Castello Branco, em bilhões de votos, foi de 3,9 a favor, 1,5 contra e 1,3 abstenções, de acordo com o mapa detalhado enviado à CVM.

Segundo o representante de um dos acionistas, ouvido pela Coluna, a abstenção teve a intenção de deixar clara a insatisfação com a forma como todo o processo de mudança está sendo conduzido. “Passar o rolo compressor é uma prática comum do governo como acionista. Mas, o mercado é pragmático, está mais preocupado com os resultados da empresa. E os investidores institucionais sabem também como devem atuar em questões de governança”, disse.

Foi também incomum o compromisso público feito pelo novo conselheiro Marcelo Gasparino, único indicado pelos acionistas minoritários a conseguir uma vaga no Conselho de Administração, já na segunda rodada de votações da assembleia. Antes, Gasparino usou as redes sociais para ameaçar renunciar ao cargo, caso fosse eleito. Mandou carta, inclusive, para os atuais membros do Conselho. Se cumprir a promessa, ele invalidará todo o resultado e forçará uma nova assembleia. Essa é uma das características do voto múltiplo: a saída de um conselheiro eleito desta forma, provoca a saída de todos os outros na mesma situação.

A justificativa de Gasparino, há dois anos conselheiro fiscal da Petrobras, é que os investidores estrangeiros não foram informados detalhadamente sobre a pauta. No mês passado, em entrevista à repórter Fernanda Guimarães, no Estadão/Broadcast, Gasparino criticou a ingerência política da Petrobras e a tentativa de mudança na política de preços. “Há formas de impedir que a Petrobras assuma prejuízos de interferências. Uma sugestão é que os comitês de investimentos e o de minoritários sejam os ambientes para que essa questão do ajuste dos preços seja tratada, impedindo que a Petrobras assuma prejuízo em relação a qualquer interferência em sua política energética nacional”, disse na ocasião.

Silva e Luna já informou a interlocutores, como informou esta Coluna, que a questão será discutida com a participação de diversos órgãos do governo, inclusive os Ministérios da Economia e de Minas e Energia. Em conversa hoje com a Coluna, um agora ex-conselheiro da Petrobras comentou não acreditar que a renúncia seja, de fato, efetivada. De qualquer maneira, criticou essa característica do voto múltiplo, que obriga a saída conjunta. Para ele, isso cria uma “instabilidade gigante” no mercado e na atuação do conselho.

De qualquer forma, o conselheiro - que como outros quatro integrantes do C.A. preferiu deixar a empresa, abrindo mão da possibilidade de recondução na assembleia - também criticou duramente a estratégia do governo para impor uma nova política de reajuste de combustíveis, especialmente para o preço do diesel, alvo de intensa campanha dos caminhoneiros, a quem Bolsonaro busca contemplar.

Na assembleia, quem tinha controle direto do governo, como a empresa de participações do BNDES, a BNDESPar, seguiu a orientação de voto da União. Os demais, que representam fundos, mesmo com a ligação estatal, se abstiveram numa demonstração inequívoca de desacordo com a demissão de Castello Branco como ocorreu. Nas palavras do ex-integrante do Conselho, “o presidente pode muito, mas não pode tudo”.

Depois de tomar posse do cargo de presidente da companhia, o que pode ocorrer ainda esta semana, Silva e Luna terá de convencer os membros do colegiado. Embora indicados pela União, eles não são governo. São profissionais de mercado, que conhecem muito bem as obrigações de uma empresa de capital aberto. “Eles não vão querer botar a cabeça a prêmio para mudar uma política que faz todo o sentido. Se o governo quiser fazer política pública, é um direito dele. Mas, não pode pedir a uma companhia que tem acionistas que, na realidade, são majoritários não controladores, para pagar por uma política pública. Não tem cabimento. Isso custou US$ 40 bilhões no passado, na época da dona Dilma”, diz o conselheiro.

Os grupos que se abstiveram da votação ontem são signatários do Código Amec, uma cartilha curta de princípios e orientações para que investidores institucionais garantam a boa gestão dos valores detidos por seus clientes. O código deixa claro que as instituições apenas “tomam conta” desses valores e precisam preservar seu dever fiduciário. O código exige que esses investidores participem ativamente das assembleias, exercendo seu direito de voto, acompanhado da devida fundamentação. Uma das cláusulas do código diz:

“Exercer com diligência os direitos políticos - e especialmente o direito de voto dos ativos investidos e o padrão de comportamento a ser exigido dos investidores institucionais para que possam cumprir adequadamente seus deveres fiduciários. Não exercer tais direitos, portanto, deve ser a exceção, devidamente justificada e documentada. Este entendimento deve integrar a política de investimento dos investidores institucionais.”

Os próximos capítulos da nova gestão da Petrobras ainda podem reservar mais surpresas.

Irany Tereza é colunista do Broadcast, onde o artigo foi publicado originalmente em 13 de abril de 2021.

3 comentários:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Como esses "enroladores" do preço dos combustíveis da Petrobrás na bomba podem explicar que a gasolina nos Estados Unidos,em US$,custa metade do preço no Brasi,considerando que a renda média dos americanos,tambám em dólares,é bem maior que a dos brasileiros.E como podem explicar que é só cruzar a fronteira do Brasil com a Venezuela que os combustíveis do petróleo do "Maduro" passam a custar menos que a água de beber? Que "palhaçada" é essa,afinal,do "preço internacional dos "derivados do petróleo"? Tenho certeza que se o Brasil não produzisse uma só gota de petróleo,os combustíveis importados acabariam custando bem menos na bomba. E a incrível "coincidência" entre os tempos da exacerbada alta dos combustiveis e a exploração no pré-sal,que segundo a mentirosa versão de Lula teria sido "descoberto" durante a sua gestão,quando o foi bem antes, no Governo de Geisel,mas que não investiram na extração do óleo porque seria muito caro e não valeria a pena?

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Como esses "enroladores" do preço dos combustíveis da Petrobrás na bomba podem explicar que a gasolina nos Estados Unidos,em US$,custa metade do preço no Brasi,considerando que a renda média dos americanos,tambám em dólares,é bem maior que a dos brasileiros.E como podem explicar que é só cruzar a fronteira do Brasil com a Venezuela que os combustíveis do petróleo do "Maduro" passam a custar menos que a água de beber? Que "palhaçada" é essa,afinal,do "preço internacional dos "derivados do petróleo"? Tenho certeza que se o Brasil não produzisse uma só gota de petróleo,os combustíveis importados acabariam custando bem menos na bomba. E a incrível "coincidência" entre os tempos da exacerbada alta dos combustiveis e a exploração no pré-sal,que segundo a mentirosa versão de Lula teria sido "descoberto" durante a sua gestão,quando o foi bem antes, no Governo de Geisel,mas que não investiram na extração do óleo porque seria muito caro e não valeria a pena?

Anônimo disse...

Que olho sanpaku!