quarta-feira, 23 de junho de 2021

A urna que desmaterializa nosso voto


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Percival Puggina

 

O apito da urna de votação, maquininha considerada pelo STF e pelo TSE tão perfeita quanto o sistema blindado e inexpugnável em que são contados os votos, dá início ao mais importante processo político da democracia brasileira: a expressão eleitoral da soberania popular.

Não há democracia sem isso, ainda que só isso não lhe baste. A vontade popular também se manifesta de outras formas e um de seus piores inimigos é o cesarismo arrogante dos poderes sem voto.

Não são necessárias lupas nem microscópios para identificar os sintomas de que o topo do Poder Judiciário brasileiro, ciente do desapreço social, abraçou-se a um roteiro de autodegradação assumindo como seu, em quase tudo, um papel “contramajoritário”. Ou seja, ao ignorar a vontade expressa nas urnas e ao voltar as costas para manifestações populares, supõem tais autoridades estar salvando a nação de si mesma! É o cesarismo arrogante, de convicções transitórias, que se crê “herdeiro” dos pais da pátria.

Insistem os ministros em que o voto impresso é inconstitucional, enquanto que dar sumiço no voto do eleitor é procedimento muito legal. Em entrevistas permeadas de desprezo a essa pobre infeliz que atente pelo apelido de opinião pública, reiteram que são sem fundamento as suspeitas manifestas no parlamento e nas ruas. Advertem que o voto impresso suscitará pedidos de recontagem como se isso fosse uma anomalia quando, na verdade, é apenas trabalho para a Justiça Eleitoral.

Sobre todos os argumentos em favor do deixa tudo como está, se eleva a afirmação de que nunca foi comprovada qualquer fraude ao sistema. Ora, pergunta-me o mais comum dos sensos comuns: como provar fraude em eleições cujos votos não podem ser auditados porque foram eletronicamente destruídos no apito da pequena maquineta?

Também dá o que pensar o fato de o voto impresso, conferido pelo eleitor e mecanicamente guardado em recipiente próprio, ter sido – também ele! – politizado. A direita é favorável; a esquerda é contrária. Por quê? A esquerda confia na máquina e tem, também nisso, aval do STF (aquele Supremo outorgado ao país por José Dirceu e seus amiguinhos). Qual motivação leva o cidadão comum a se opor ao direito de conferir seu próprio voto e de saber que, em caso de dúvida, ou por amostragem, ele poderá ser auditado?

Dá ou não dá o que pensar? Dá, sim, tanto quanto a irrelevância com que o assunto é tratado nos mais altos escalões do Poder Judiciário, cujos membros deveriam meditar sobre o quanto é essencial à democracia e à legitimidade social dos mandatos a credibilidade do eleitor no processo de votação e apuração. Ou não? Por tais razões, sou pela PEC do voto impresso.

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário e escritor.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Maquineta" significa "máquina pequena". A redundância poderia (mas não deveria) servir como recurso de estilo antes da ação emburrecedora do método Paulo Freire, destruindo o que resta de senso lógico nos alunos e na população em geral, e piorando a situação da Língua Portuguesa por ter origem no Latim vulgar. Basta ver a oração do Pai Nosso que, na tradução para o Português estava melhor construída: "Perdoai as nossas ofensas" em vez de "perdoai-nos as nossas ofensas", como traduzem agora do Latim. Essa falta de senso ensinada nas orações faz até padres e freiras considerados "inspirados em seus carismas", mas sem conhecimentos básicos da Língua, responderem a jaculatória: "Graças e louvores sejam dados a todo momento" com "Ao Santíssimo e DIVINÍSSIMO Sacramento", em vez de "Ao Santíssimo e DIGNÍSSIMO Sacramento". Esses "iluminados" acreditam que estão louvando mais a Deus se usarem o superlativo no que não pode ser relativizado, porque não pode haver gradação na natureza da divindade.
Os juízes do STF não têm emoções desregradas no exercício de suas funções: são todos atores; cumprem um papel militante de destruição do Executivo e da função do próprio Judiciário.