terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Temer balança, porém não deve sambar...


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Acidentes históricos acontecem... No monumental desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, desastres são raros. Só neste 2017 ocorreram quatro – dois deles com muita gravidade. Foram falhas na direção da Paraíso do Tuiuti, na estrutura do carro alegórico da Unidos da Tijuca (que desabou), outro carro desgovernado da União da Ilha bateu na grade e, ao final do desfile, atingiu levemente o estúdio da Rede Globo, além da queda de uma passista da Mocidade. Foi um ano azarento no Sambódromo da Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, tudo visto mundialmente em tempo real.

Nenhuma notícia relevante sobre a passagem de Michel Temer, Michelzinho e da bela Marcela pelo carnaval secreto e reservadíssimo na Base Naval de Aratu, na Bahia de todos os santos e trios elétricos. O samba só deve ter desafinado para Temer com a notícia de que a reprovação popular dele atinge 66,6%. A Petelândia e demais opositores já pregam que é o número da “Besta Presidencial”. Apesar da alta reprovação, Temer sabe que balança, mas não cai. Banqueiros e rentistas não deixarão Temer sambar... Ele só dança na real – se a Marcela o convidar, no privado, sem filmagens hackeáveis...

Melhor sorte carnavalesca quem teve foi Eliseu Padilha. O quase ex-ministro da Casa Civil se recupera da operação para desobstrução da próstata, e só deve deixar o Hospital, em Porto Alegre, na quarta-feira de cinzas. A dúvida pós-carnavalesca é quando Padilha será mandado para a própria casa – exonerado depois de uma trairagem do super-amigo de Temer que dedurou o pagamento de propina feito pelo doleiro Lúcio Funaro especialmente para o PMDB, em nome do Padilha...

Virou meme carnavalesco a apresentadora Fátima Bernardes, que ficou impávida, corajosamente sem se mexer, apenas avisando o que ocorreria com um carro alegórico tão mal dirigido quanto o Brasil, aproximando-se do estúdio de vidro da Rede Globo. Fátima advertiu, sem entrar em pânico: “Vai bater”... O consolo dos foliões é que tem muito político, dentro e fora do desgoverno federal, dizendo a mesma coisa sobre a Lava Jato, só que em tom mais histérico que a corajosa Fátima: “Vai bater”...

Michel está pronto para apanhar, embora tenha fé de que não vai sambar facilmente... Procuradores da Lava Jato passam o carnaval trabalhando nas delações da Odebrecht, preparando denúncias judiciais. A previsão é que muito bandido da politicagem vire cinza a partir da quarta-feira. Não deve ter sido à toa, simbólica e meteorologicamente, que Brasília amanheceu nesta terça momesca com um céu cinzento, absolutamente tomado por neblina e chuva forte...

Contabilizou direitinho


Surubando


Festa das minhocas


Debate necessário


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O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 

A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 28 de Fevereiro de 2017.

LASCIA CH'IO PIANGA MI CRUDA SORTE...


“País Canalha é o que não paga precatórios”.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

De ser testemunha da destruição deliberada de nosso grande país, por traidores e canalhas.

De ver os patriotas imobilizados como por encanto, sem reagir.
Por que? Por quê?

Foram engedrados pelo gramscistas?

Ou, pior, estão numa zona de conforto esperando que tudo seja resolvido pela Divina Providência?

Ouvi uma tese interessante: A entropia da entropia.

A podridão é tal, com ramificações internacionais, que não há mais condições de abafar o mau cheiro (como relatado no sonho de Dom Bosco).

Nossas Sodomas e Gomorras morais devem ser aniquiladas. Quem tentar a elas regressar, virará estátua de sal.

A maior das depravações estão no judas ciário.

Rasgar a Constituição; julgar contra a expressa letra da lei em nome de um “ativismo” canceroso, ou ainda, NÃO julgar, deixando em prisões indignas um terço de desgraçados sem condenação definitiva.

A vingança virá.

Pelo mãos do desesperado, que perdeu tudo, menos sua dignidade.

Os presunçosos, que se pensam invulneráveis, serão atacados sem saber quando, onde ou por quem.

Aqui se faz, aqui se paga.




Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

Papel do STF


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Henrique Abrão e Laércio Laurelli

A Corte Constitucional Brasileira necessita passar, rapidamente, por uma grande transformação, para inspirar confiança, credibilidade e admiração da população. Essa gigante mudança necessita de três pilastras,o papel essencial do STF, a forma de nomeação dos Ministros e por último e não menos importante as questões a serem julgadas sob a ótica da última palavra em termos de jurisdição.

Ao tempo em que interveio para conter dessintonia e dissabores entre legislativo e executivo o STF perdeu um pouco seu papel proeminente de guardião-mor da constituição federal. E a nossa carta política constitucionalizou tudo, desde a saúde, transporte, educação, e integração entre os poderes, infelizmente, pois que o STF não consegue dar conta mais ainda quando se lhe afigura normal o julgamento sob a égide do foro privilegiado.

Em primeiro lugar o STF deve retornar para exercer seu papel de mero garantidor da lei maior, sem descer a detalhes ou apreciar matérias sem relevância ou repercussão geral. Dessa maneira, não mais do que mil julgamentos por ano deveriam passar pelo crivo da nossa corte, em razão do tamanho do País e do excesso de litigiosidade. Noutro giro a nomeação deve ter mandato por prazo determinado no máximo dez anos, ampliando a composição de onze para quinze ministros e o funcionamento do recesso seria de apenas trinta dias.

As nomeações ficariam em mãos do judiciário: 7 cargos, 3 cargos pela OAB, 3 cargos Ministério Público, um pelo executivo e outro pelo legislativo, totalizando as 15 vagas. As sabatinas seriam feitas dentro do próprio órgão ou alternativamente pelo Conselho Nacional de Justiça.

O fim do foro privilegiado é inadiável, apenas o presidente, o vice, o presidente do senado e o presidente da câmara  e os ministros do Tribunal de Contas da União, do STJ, e do TST, no mais todos estariam sujeitos ao julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça.

Com isso teríamos um desafogamento muito grande da corte superior, notadamente com a saída de senadores e deputados federais que manteriam foro junto ao STJ. Nessa percepção o ritmo de julgamento dos processos criminais sucederia por juizes auxiliares que teriam a função de proceder a toda instrução e manter o ministro apenas na atividade de proferir seu voto. Além disso as decisões proferidas a partir do chamado Mensalão e transmissões pela TV Justiça despertaram interesse da população e acesa discussão da sociedade a respeito da impunidade e da chamada imunidade parlamentar.

Decisões e mais decisões monocráticas ou não advindas do STF mostram um descasamento com a vontade da sociedade civil e isso revela que temos muito a repaginar a corte suprema não para dar respaldo ao clamor popular, mas de modo a evitar decisões monocráticas de repercussão.

Eis que a suprema corte foi concebida para julgar e absolver muito mais do que para condenar. Explica-se o raciocínio, na medida em que sendo a instância última o que a maioria faz ao se dirigir até o STF é a reapreciação do caso concreto e a soltura de presos, pelo excesso do prazo ou famigerado regime de progressão de pena.

Bem nessa visão o descomprometimento do STF em relação à sociedade tem sido invulgar, e a sociedade está indefesa e os crimes hediondos, do colarinho branco, e que envolvem principalmente corrupção se eternizam na corte suprema sem uma resposta que possa combater o ímpeto da classe política e empresarial nos malfeitos com o dinheiro público.

E como fazer para acelerar o julgamento se os prazos são dilatados, pedidos de vista comuns,e a conotação política supera qualquer expectativa. Não temos e raramente conseguiremos uma corte suprema à altura daquela norte americana ou alemã. Daí porque o funcionamento do STF em Brasília se nos afigura improdutivo, infestado pelas pressões e movimentos dos detentores do foro privilegiado.

Na Alemanha a corte constitucional está fora e distante de Berlim para justamente ter a neutralidade e imparcialidade. No Brasil é fundamental transferir a Suprema Corte para longe de Brasília, ou se proporia um rodízio a cada 3 anos, ou se manteria em São Paulo, com facilidade de acesso e malha rodoviária e aérea compatíveis com os interesses dos jurisdicionados.

Bem se denota que o nosso STF desde o seu papel, passando pela composição e até a forma de julgamento não se coaduna com a tessitura de seu arcabouço constitucional e as decisões monocráticas de repercussão geral e que afetam à sociedade deveriam ser ratificadas no prazo máximo de trinta dias pelo órgão colegiado sob pena de perda da sua eficácia e validade e retorno ao statu quo ante.

A demonização da corrupção e o trabalho fabuloso da seara federal, pós mensalão, identificam que as instâncias inferiores se conversam, dialogam e têm simetria, ao passo que o STF, sem controle ou sistema de aferição de posição, sinaliza uma assimetria preocupante e que não presta contas de sua tarefa à cidadania.

E para tanto vislumbra ponderar que até hoje depois de mais de 20 anos não temos marcados os julgamentos dos expurgos inflacionários e demais matérias que causam desconforto e desconfiança da sociedade. E a propósito a própria Ministra Presidente da Corte Suprema, dias atrás, comentou que a população não tem mais respeito ou confiança em suas instituições, incluindo o judiciário.

O caminho exclusivo para mudar essa situação periclitante e de efeitos devastadores seria encontrar o verdadeiro papel da justiça, refrear ações inócuas,mudar a sua composição e o seu local de funcionamento. Eis em resumo algumas diretrizes as quais se forem aplicadas nos darão o norte a a consciência que a Corte Suprema somente terá seus dias de vanguardismo acaso perca seu estilo político e desconexo com a realidade do País e acerte os ponteiros de julgar com a ansiedade que ambiciona uma sociedade em permanente estado de crise mormente trazida pelo fator impunidade e a demora desrespeitosa de apreciar matérias relevantes, além das pontuações monocráticas salgadas e que espetacularizam desconsertos monumentais na jornada de equilibrio e no caminhar de uma sociedade civil desenvolvida.


Carlos Henrique Abrão (ativa) e Laércio Laurelli (aposentado) são Desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Memórias de Kruschev: as fitas da Glasnost

Nikita Sergeievitch Kruschev

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é a Introdução ao livro “As Fitas da Glasnost – Memórias de Kruschev”, editado pelas Edições Siciliano, cuja Introdução foi escrita por Strobe Talbott. Nelson Strobridge "Strobe" Talbott III (nascido em 25 de abril de 1946) é um analista de política externa norte-americana associado à Universidade de Yale, à Instituição Brookings  e à revista Hora, Serviu como Vice-Secretário de Estado, de 1994 a 2001.
  
“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi, na ânsia de acertar”   (Clarice Lispector, escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira)

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A palavra mais importante que Mikhail Gorbachev introduziu em inglês foi glasnost. Traduzida, em geral, como openness (abertura), a expressão, de fato, significou a disposição da União Soviética de ouvir a verdade a respeito dela mesma. A glasnost tornou possível a publicação de material novo de um dos mais extraordinários arquivos do século XX: as memórias de Nikita Sergeievitch Kruschev. Com os dois volumes, já publicados, as memórias se tornaram o relato mais abrangente, franco e autorizado, do funcionamento da liderança do Kremlin – e um relato recebido de primeira mão, diretamente da fonte. Agora, há mais material da mesma espécie, e muito dele é relevante para as manchetes de hoje sobre a reviravolta no mundo comunista.
    
Foi a 22 anos que Jerrold Schecter, então chefe dos escritórios da revista Time em Moscou ficou sabendo que a mais famosa non person da União Soviética, o antigo Primeiro-Secretário do Comitê Central do PCUS e presidente do Conselho de Ministros. em virtual prisão domiciliar fora de Moscou, vinha ditando recordações de sua carreira. Farto do muro de silêncio que seus sucessores tinham erigido em torno dele, e sentindo que se aproximava o fim de sua vida, Kruschev decidiu permitir que as gravações em fita dessas memórias fossem escamoteadas para o exterior, a fim de serem traduzidas e publicadas no Ocidente.
    
Nos meses e anos que se seguiram, nós, que trabalhamos com o senhor Schecter no projeto, sentimo-nos como personagens de uma grande aventura. Tínhamos a oportunidade de recolher um filão principal de uma das mais ricas e raras matérias-primas da história. Pois ali estava a vida, contada em suas próprias palavras, de um homem que governara uma das duas superpotências por mais de uma década. Como membro do estreito círculo de íntimos de Stalin, ele subira na hierarquia do sistema comunista durante o Grande Terror. Mas, uma vez no topo, declarara guerra ao fantasma de Stalin. Em política externa também, Kruschev representou o pior e o melhor. Conseguiu estabelecer um começo dedétente com Eisenhower, e depois foi à beira da guerra com John F. Kennedy.
    
Nada como essas memórias jamais haviam emergido da União Soviética. Todavia, mesmo quando demos a lume um segundo tomo, Kruschev Remembers: The Last Testamebnt, em 1974, baseado em material adicional, recebido depois da morte de Kruschev, ficamos com a sensação de uma obra inacabada. Em primeiro lugar, indo de casa para o jardim e do jardim para a casa da sua datcha, na aldeia de Petrovo-Dalneye, Kruschev disse repetidamente que estava interessado em dirigir seu monumental exercício de auto-reabilitação aos seus camaradas do Partido Comunista e aos seus concidadãos em geral. A imprensa oficial mencionou seu nome uma vez, seis anos depois de sua derrubada, no contexto de um repúdio fabricado no primeiro volume das memórias; e, de novo, em setembro de 1971, num breve comunicado de sua morte, no qual ele era identificado como “um pensionista especial”.  
    
Durante duas décadas, ou quase, as Memórias de Kruschev permaneceram na espúria categoria desamizdat  - material supostamente subversivo, publicado “lá fora”, no Ocidente, pela imprensa burguesa e capitalista. Nós nos considerávamos, nesse período, depositários de um tesouro que um dia deveria ficar acessível aos compatriotas de Kruschev. Entretanto, desejávamos que ele fosse preservado cuidadosamente e, ao mesmo tempo, pudesse ser objeto de estudo. O Arquivo de Kruschev consiste em 80 rolos e 16 cassetes de fita, bem como de mais de 3 mil páginas de traslados, e tem sido estudado e citado com freqüência por especialistas.
    
Como adquirimos as memórias? Da família e dos amigos de Kruschev. Sabemos que essa resposta não satisfaz ninguém, exceto àqueles que nos comprometemos a proteger. Os jornalistas são, muitas vezes - e os editores algumas vezes –, obrigados a guardar segredo sobre suas fontes, principalmente no que tange material relativo à União Soviética.
    
Quando o primeiro volume foi publicado, em1970, nossas fontes estavam debaixo de grande pressão das autoridades. Por isso nos mantivemos calados, não apenas quanto à procedência das fitas, mas quanto as medidas que tomamos para comprovar sua autenticidade. Uma reputada firma independente de peritos, a Voice Identification Services, de Somerville, Nova Jersey, realizou uma exaustiva análise espectográfica do material. Fizeram-se espectogramas cada vez que havia um corte ou interrupção das fitas – num total de quase 6 mil diferentes espectogramas. Esses foram cuidadosamente comparados com um exemplo de voz de Kruschev – um discurso proferido e gravado em New York durante uma sessão da Assembléia Geral da ONU. Provou-se que se tratava da mesma voz. Todavia, concordamos em não revelar a realização dessas pesquisas e nem as conclusões dos analistas enquanto Kruschev fosse vivo.
    
Em parte por esse motivo, tivemos que ouvir calados as acusações feitas por alguns peritos do Ocidente de termos comprado gato por lebre e publicado um maciço volume de desinformação, oriundo da KGB. Para não falar nas acusações soviéticas de que as memórias haviam sido fabricadas na “cozinha” da CIA.
    
A controvérsia sobre as Memórias de Kruschev cessou em 1974, quando publicamos o segundo volume, póstumo,The Last Testament, e convidamos um grupo de especialistas, inclusive cépticos, a uma conferência na Universidade de Colúmbia, onde tiveram oportunidade de ouvir as fitas originais, examinar as transcrições e estudar o relatório da firma de identificação de vozes.
    
Assim, como nos vimos freqüentemente na posição de saber mais do que nos era permitido dizer, muitas vezes também acreditamos saber mais do que poderíamos dar como certo. Por exemplo, tínhamos motivos para crer que o filho de Kruschev, Sergei, foi uma figura chave na preparação das Memórias, mas nunca tratamos diretamente com ele. Durante o período, hoje conhecido como “era da estagnação”, quando os homens que haviam derrubado seu pai governavam a URSS, Sergei recusou-se a qualquer comentário público e foi compreensivelmente lacônico, mesmo em contatos privados com visitantes estrangeiros.
    
Só o encontrei em junho de 1984, em Moscou. Foi gentil e circunspecto. Disse, porém, que não estava longe o dia em que teria, finalmente, alguma coisa a dizer sobre essa história toda.
    
Esse dia surgiu, com a publicação por Little Brown do livro do próprio Sergei, Kruschev por Kruschev. Ele conta aí muita coisa – embora não conte tudo – sobre como as Memórias foram compostas e como elas chegaram a ser publicadas no Ocidente. Recorda como seu pai ficou furibundo por ter sido relegado ao esquecimento e como gravou sua versão da história como um registro para quem, um dia, quisesse, ou pudesse, ouvir o que ele tinha a dizer.
    
“Na medida em que ditava, rolo após rolo, ele começou a afligir-se sobre o destino que teriam essas memórias. “É tudo em vão”, dizia durante nossas caminhadas dos domingos. “Nossos esforços são baldados. Tudo se perderá. Logo que eu morrer, eles levarão tudo embora e enterrarão o material tão fundo que não haverá traço dele”.
    
Eu procurava tranqüilizar meu pai tão bem quanto podia, mas no fundo estava inclinado a concordar com ele. O fato de que tudo estivesse tranqüilo naquele momento não era garantia de que continuasse tranqüilo para sempre.
    
Eu sonhava com volumes publicados, com bela apresentação...
    
Encontrei o que, a meu juízo, era uma boa maneira de escamotear uma cópia das memórias para o exterior. Acabou sendo muito mais simples do que havia imaginado. Mesmo assim, além do problema físico de tirar as memórias do país, havia uma consideração moral. Já não estávamos em 1958, mas ainda não era 1988.
    
Apenas dez curtos anos antes, Boris Pasternak atraíra sobre sua cabeça raios e trovões, ao dar seu manuscrito – Dr Jivago – a um editor italiano.
    
O Pai foi mais audaz do que eu. Suas memórias, disse, eram, afinal de contas, as do Primeiro-Secretário do Comitê Central, as confissões de alguém que devotara sua vida inteira ao engrandecimento da União Soviética, e por uma sociedade comunista. As Confissões continham verdades, palavras de advertência, fatos – deviam ser lidas pelo povo, quer saíssem primeiro no exterior, e mais tarde em casa. O ideal seria o contrário, mas viveríamos o bastante para vê-las impressas?
    
Ao tomar essa decisão, cruzamos a fronteira entre uma atividade legal e uma outra, ilegal. Eu fiquei preocupado. Como terminaria aquilo? Prisão? Exílio interno? Não havia tempo de pesar as conseqüências. Cumpria agir.
    
Muitos dos que participaram desse esforço estão ainda vivos, e eu não posso revelar pormenores do que foi feito e nem os nomes das pessoas que nos ajudaram. Muitos me pediram que não o fizesse, e não posso, em sã consciência, violar as memórias do Pai”.
     
Em abril de 1988, vi uma entrevista que Sergei dera a um jornal iugoslavo, o Vjesnik, na qual disse: “Acredito que as memórias do meu pai serão publicadas um dia – na URSS – e estou empenhado nisso”. Entrei em contato com ele na minha primeira visita a Moscou e, depois disso, em junho do mesmo ano, e lhe disse que Time Inc. e oHarriman Institute fariam tudo o que estivesse a seu alcance para ajudá-lo. Oferecemos dar-lhe todas as transcrições em nosso poder para suplementar qualquer material que se tivesse reservado. Eles aceitaram e agradeceram.
    
Em 1989 e 1990, longos extratos das Memórias apareceram em diversas revistas acadêmicas e jornais populares na União Soviética. Uma edição especial veio a lume, vertida de volta para o russo do texto em inglês, mas só um pequeno número de membros do governo e funcionários tiveram acesso a ela. A família Kruschev ainda tem esperanças de que vários volumes das memórias, baseados nas fitas originais, sejam dados a público dentro de pouco tempo.
    
Mesmo à espera da edição soviética, tínhamos consciência de que nosso trabalho estava inconcluso. Era evidente, quando se ouviam as fitas cuidadosamente no começo da década de 70, que tinha havido cortes, antes que chegassem às nossas mãos. Kruschev estava contando suas histórias, revivendo o passado com característico entusiasmo e, de chofre, para desespero nosso, havia um silêncio na fita, por vezes de poucos segundos, mas também de vários minutos. Era comum que essas falhas ocorressem em pontos cruciais da narrativa. Em 1973-1974, quando trabalhávamos no segundo volume, Kruschev Remember: The Last Testament, o escândalo Watergate dominava o noticiário internacional. Brincamos, entre nós, que o nosso projeto fora vítima, provavelmente, das mesmas “forças sinistras”a que Alexander Haig atribuíra o famoso hiato de 18 minutos nas fitas da Casa Branca.
    
Em alguns casos era possível deduzir o que Kruschev poderia ter revelado nas porções que faltavam. Por exemplo, ao recordar as crises dos mísseis em Cuba, Kruschev diz: “Quando Castro e eu debatemos o problema, discutimos até não poder mais”. Nesse ponto há uma interrupção e depois a afirmação: “Nossa discussão foi muito acalorada. Mas no fim, Fidel concordou comigo”.Podíamos apenas conjecturar que discutiram sobre quem controlaria os mísseis.
      
Podíamos também compreender o motivo do corte. Castro estava ainda muito firme na sela, e os colaboradores de Kruschev não queriam acrescentar aos riscos já consideráveis que corriam, a revelação do que poderia ser considerado um segredo de Estado sobre as relações da União Soviética com líderes estrangeiros ainda no Poder. Segundo a lei soviética, é crime a divulgação dos debates em reuniões do Politburo. Em diversos lugares, quando Kruschev parecia prestes a criticar seus sucessores, principalmente Leonid Brejnev, a fita se calava. De maneira geral, os comentários sobre lideres comunistas ainda no Poder haviam sido apagados.
    
No seu livro, Sergei confirmou o que tínhamos pensado: “Foram removidas do texto passagens que poderiam segredos militares e referências incidentais a pessoas ainda no Poder na URSS. O Pai concordou com isso”.
    
Também notamos o quão pouco se dia sobre Aleksandr Solzjenitsyn nas fitas que nos tinham sido facilitadas. Afinal de contas, Kruschev tinha sido o responsável pela publicação, na União Soviética, de Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch. Certamente ele teria falado nisso. Todavia, seu pupilo transformado em usurpador, Brejnev, fora responsável pela supressão dos outros livros de Solzjenitsyn e pelo banimento do autor. Era lícito imaginar que algum comentário interessante sobre Solzjenitsyn fora cortado.
    
Quantas passagens dessas haveria? O que, exatamente, fora censurado?  E seria esse material publicado algum dia? Não soubemos as respostas para essas perguntas até 1989, quando adquirimos as fitas com os trechos omitidos intactos. Elas constituíam um conjunto mais volumoso do que esperávamos: mais de 300 horas. Alguns segmentos eram curtos, mas curiosos. Por exemplo: a declaração de Kruschev de que ouvira da boca de Stalin a confirmação de que Julius e Ethel Rosenberg haviam feito contribuição ‘muito significativa” ao projeto da bomba atômica soviética. De maneira geral, porém, o conteúdo revelou-se mais do que simples fragmentos de indiscrição por parte de Kruschev. Eram, em muitos casos, notavelmente coerentes na forma, bem como novos e interessantes na substância. Ali estavam, por exemplo, não apenas a passagem suprimida do relato sobre a crise dos mísseis em Cuba, mas um grande número de histórias ainda inéditas, inclusive a alarmante afirmação de que, em meio à crise, Castro instou com Kruschev para que ordenasse um ataque aos EUA. Ali se encontrava também uma narrativa minuciosa do caso Solzenitsyn. Kruschev se mostra indignado cm a campanha de Brejnev contra o romancista.
    
Outra seção contém muitos detalhes sobre o pacto Molotov-Ribbentrop, de 1959, e seu protocolo “concedendo” os países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia – aos soviéticos. Outro rolo trata das relações da URSS com o Japão no pós-guerra, inclusive a revelação de que alguns líderes do Kremlin  - inclusive o próprio Kruschev – tinham estado dispostos a fazer concessões aos japoneses das quatro ilhas de que a URSS se apossou nos últimos dias da II guerra Mundial.
    
Como sabemos, e como Sergei conta em seu livro, seu pai era um compulsivo narrador de histórias. Aparentemente, muitas das que contou nas fitas pareceram tão delicadas que não foram apenas censuradas, mas retiradas inteiramente do corpo da obra. Era fácil ver por quê. No começo da década de 70, o governo soviético ainda mentia sobre a história de suas relações com países estrangeiros, notadamente o Japão, bem como os países integrantes da URSS, sobretudo os bálticos.
    
Em 1989, muito havia mudado na política soviética – interna e externa. O governo reformista de Mikhail Gorbachev se distanciava do governo ortodoxo de Fidel Castro. O Kremlin estava preparado para denunciar o pacto Molotov-Ribbentrop e a conceder, pelo menos em princípio, o direito de secessão aos três países bálticos. Gorbachev também estava ansioso em melhorar as relações com o Japão, e já se especulava sobre possíveis concessões soviéticas nas ilhas mais setentrionais do arquipélago das Kurilas. Já não era também perigoso para os descendentes de Kruschev que a imprensa estampasse o que ele havia dito: “Se foi um erro mandar tropas para a Checoslováquia, então a coisa lógica e acertada é retirá-las de lá”.
    
O material novo tem muito a ver com os acontecimentos correntes. Além de passagens contra umbackdrop de manchetes sobre a reivindicação de independência pela Lituânia, há aquelas tiradas da deficiência e desequilíbrio da economia soviética que soam como os discursos do próprio Gorbachev no Congresso dos Deputados do Povo e no Soviete Supremo. Está mais claro que nunca que as tentativas feitas por Kruschev de reformar a agricultura e a indústria constituíram um precedente para a perestroika. Seu degelo cultural prenunciava a glasnost, seus cortes, drásticos e polêmicos, nas FF AA, um precedente para as tentativas de Gorbachev de desmilitarizar a sociedade soviética. Quando Kruschev diz que os interesses da União Soviética deveriam ser “defendidos dentro de certos limites, de modo a não prejudicar outros países”, ele antecipa a política de Gorbachev de defesa não-ofensiva e segurança mútua. Não é de admirar que Gorbachev tenha, em diversas ocasiões, prestado homenagens a Kruschev como um inovador e um precursor.
    
Por todos esses motivos ficou logo evidente que tínhamos nas mãos a semente de um novo livro. Quem quer que tenha lido os primeiros dois volumes de Kruschev Remembers, verá em Glasnost Tapes – As Fitas da Glasnost – uma continuação digna deles. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Como fugir do carnaval de juízos finais?


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Carnaval também serve para lembrar que o Brasil tem muita coisa séria para debater. A Lava Jato provoca alguns temas que merecem profunda discussão, dos prós e contras, sem paixões oportunistas para que se atinja um ponto de equilíbrio desejável. O foro privilegiado, a delação premiada, o acordo de leniência (para empresas), a velocidade dos processos e a quantidade de recursos judiciais são questões que geram tanta polêmica quanto a demonização de políticos e de empresários.

A torcida majoritária da galera é por punição. Só vale ponderar que nem todo processo judicial é obrigado a terminar em condenação severa. Mas também não precisa encerrar com uma impunidade descarada. O rigor seletivo (que pune uns e poupa outros, em situações muito parecidas) não deveria e nem poderia ser uma constante judicial. A falta de transparência, na maioria dos casos, facilita as injustiças. Os “sigilos processuais” são outro tema que exige atenção seríssima.

No Brasil, quem é apontado pela mídia como investigado, suspeito, acusado e processado, praticamente, costuma ser imediatamente condenado na implacável “primeira instância” de julgamento, geralmente parcial, das opiniões pública e “publicada”. O sistema judiciário precisa ser passado a limpo e urgentemente aprimorado para garantir a desejada “segurança do Direito” (Democracia que não temos no Brasil”). O ser humano tem esse defeito: julga e condena ou outro facilmente, enquanto é mais leniente consigo mesmo.

Nosso defeito de fábrica não deveria nem poderia afetar o sistema judiciário. No entanto, é exatamente isto que acontece. Investigadores, promotores e magistrados tendem a pegar pesado com seus “alvos”. Por outro lado, não agem da mesma forma implacável quanto são forçados a investigar, denunciar, julgar e condenar seus pares. Corporativismos são rotina dos grupamentos humanos... O equilíbrio só é obtido por sábios... Mas eles, infelizmente, são minoria...

Felizmente, os embates contra o Crime Institucionalizado começam a produzir um sério debate no Brasil das impunidades e injustiças. A máquina do Judiciário, mesmo que ainda lentamente, já ouve mais a sociedade e inicia um processo irreversível de revisão crítica. Este trabalho fundamental é tocado pelos Corregedores dos Tribunais de Justiça que estão compreendendo a natureza do processo geral de mudanças no Brasil. Os “sem-noção” vão continuar do jeito como sempre estiveram, até a hora que forem submetidos a um “juízo final” pela pressão (que pode até ser violenta) da sociedade.

Bons exemplos alimentam a esperança de dias melhores. Em pleno sábado de Carnaval, a “Operação Corrumpere” da Polícia Federal cortou a própria carne. Prendeu em flagrante o delegado federal Sandro Viana no momento em que dividia de R$ 35 mil com um intermediador que o auxiliou a extorquir o dinheiro um empresário da área de segurança privada na cidadã paranaense de Londrina. O policial ficaria com R$ 20 mil e o intermediador com R$ 15 mil. A casa caiu...

Outro excelente exemplo é o desejo do novo Corregedor-Geral do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O Desembargador Cláudio de Mello Tavares promete muito diálogo com a sociedade e com os servidores do judiciário para cumprir a meta de imprimir mais rapidez aos processos. Em entrevista a O Globo, Cláudio Tavares resumiu que legado deseja deixar ao final de 2018:

“Meu sonho é que as pessoas tenham seu direito reconhecido e que passem a confiar mais no Poder Judiciário. Também quero que servidores e magistrados trabalhem em ritmo de união, prestando um serviço público mais eficiente”.    

Resumindo o anseio do Desembargador: Precisamos de um Judiciário que promova Justiça de verdade, e não um mero carnaval de juízos finais, em velocidade paquidérmica.

Governo vulgarizado

Releia o artigo de domingo: Quando vamos parar de atravessar o samba?


Me dá um dinheiro aí


Moacyr Franco canta um samba que Lula deveria usar nos processos que vem movendo contra todo mundo que lhe desagrada...

Surubar é o negócio


Fica em casa, Padilha


Pode pedir para sair


Nem todo marketing salva


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A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 27 de Fevereiro de 2017.

“Ó Dolce Napoli”


“País Canalha é o que não paga precatórios”.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

Quando conheci Nápoles, fiquei fascinado. A proximidade do Vesúvio é uma advertência permanente sobre a efemeridade da vida e da grandeza de Deus.

Assim, quero deixar constância de minhas pequenas esperanças para o futuro.

Gostaria de ver o tenor Juan Diego Florez cantar “Santa Lucia”.

Espero que surja em São Paulo um lugar civilizado. Os que havia se acabaram. Restam poucos vestígios da cidade que já foi chamada de a Atenas brasileira.

Que tal se a concha acústica fosse reconstruída no estádio do Pacaembu?

E, demolido o Minhocão, que arrasou o centro da paulicéia?

Por que não reconstruir o monumento a Olavo Bilac?

Ainda temos bons restaurantes, mas a grande maioria com instalações inferiores a de equivalentes internacionais.

E os chefs e pseudo-chefs, em nome da inovação, criam pratos intragáveis e espantam a freguesia fiel.

Muito embora a juventude tenha perdido a educação de seus pais e avós, é brilhante mas necessita quem lhe ensine “o caminho das pedras”.

Daqui a pouco tempo ninguém mais saberá quem foi Pelé.

A República avacalhou nossa História para sabotar a imagem de um Império que deu certo.

Não se estuda história, nem geografia, nem “a última flor do Lácio”.

Quase todos, bestificados pelos smartphones.

Passamos cada vez mais o nosso tempo cuidando de futilidades.

Pobres crianças, órfãos de pais vivos que lhes dão tudo, menos sua atenção e carinho.


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

Como Gado para o Abatedouro?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Percival Puggina

Quem se alinha com teses sempre desastrosas, como os defensores do desarmamento, por exemplo, senta-se sobre o lado esquerdo do traseiro. Por que será? As exceções são tão raras que não ocupam lugar na arquibancada dos fatos sociais. Não contentes com fincarem pé nos fracassos, nem com andarem por aí arredondando pilar quadrado até que a casa caia, esse pessoal se esmera em espancar o bom conselho e em desqualificar a divergência. Você é contra o desarmamento? Então você é raivoso, da turma da bala; está a serviço da indústria da guerra. Potencialmente, um assassino de aluguel.

No entanto, a entrega compulsória de todas as armas das pessoas de bem tem lugar de merecido destaque na lista das iniciativas absurdas e maléficas já adotadas em nosso país. Responde, diretamente, pelo aumento da criminalidade, tanto em razão do quantitativo quanto da desfaçatez com que os bandidos passaram a agir nos mais variados ambientes e circunstâncias. Percebem-se – e de fato são – “donos do pedaço”, tocadores de gado para o abatedouro ou para o brete da marcação. Rapidamente vamos adquirindo destreza em preencher boletins de ocorrência, aos quais já tratamos na intimidade como "os meus BOs".

Nós, os conservadores, e boa parte dos liberais, cremos que a pessoa humana é titular de direitos aos quais denominamos naturais. Entre eles, o direito à vida, à liberdade e à propriedade dos bens legitimamente havidos. Para os estatistas, socialistas, comunistas e outros totalitários em geral, as coisas não são assim. Entendem que os direitos nos são dados pelo Estado, motivo por que, fonte de todos os direitos, ele se torna, simultaneamente, objeto de reverência e de assédio. Estados vão à falência por conta do assédio. Sociedades são escravizadas por conta da reverência.

O leitor destas linhas pode estar pensando: “Mas se o Estado diz que eu não posso isto ou aquilo, na prática eu não posso mesmo; na prática eu não tenho tais direitos". Ora, se um direito é natural, inerente à condição humana, o Estado pode não o reconhecer, mas ele não deixa de existir. Os criminosos sentenciados têm a liberdade justificadamente tolhida; os presos políticos em regimes não democráticos, tem a liberdade injustificadamente contida. Mas o direito? Ah, o direito permanece na pessoa!

Isso é tão significativo quanto objeto de abuso. Se olharmos a pauta das postulações daqueles corpos políticos a que me referi no início, veremos que atuam invocando o reconhecimento de supostos direitos que seriam naturais aos grupos que manipulam. Normalmente, não são.

Pois bem, a turma das teses desastrosas acabou, simultaneamente, com o sistema penitenciário e com a possibilidade de dar devida vigência repressiva ao Código Penal. A realidade social evidencia que já há mais criminosos soltos do que presos. As baixas contabilizadas pelas estatísticas são indicativas de estado de guerra, e de guerra sangrenta. Em tais condições, nosso direito à vida não pode ser preservado, defendido ou exercido na ausência de legítimo e proporcional direito de defesa. No Brasil de 2017, a posse e o porte de armas deveria ser objeto de clamor nacional ante o Estado omisso no cumprimento das obrigações. Esse não cumprimento se torna ainda mais grave quando, simultaneamente, nos recusa o direito à posse e ao porte de armas de defesa pessoal. Como gado para o abatedouro, não!


Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+. Artigo publicado em 23.02.2017

O Código Genético do Comunismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “Comunismo”, de Richard Pippes, professor da Universidade de Harvard, autor de vários livros sobre a Rússia e o Comunismo. Editora Objetiva, 2002.
 “Enquanto Você sonha, Você está fazendo o rascunho do seu futuro“
(Charles Chaplin)
                  ____________________________

​“Cada país ou Partido Comunista tem a sua história específica e apresenta variações regionais ou locais particulares, mas é possível traçar uma conexão com o padrão elaborado em Moscou em novembro de 1917. Essa conexão forma uma espécie de código genético do comunismo” (Livro Negro do Comunismo)

A conexão aludida na citação acima deriva do fato de que o comunismo, em todos os lugares, apareceu de duas maneiras: ou foi imposto pelo Exército Soviético - na Europa Oriental – ou emergiu, geralmente com a ajuda soviética, em países cuja cultura política – ausência de tradições estabelecidas da propriedade privada e de leis reguladoras, herança da autocracia, etc. -, assim como a estrutura social – preponderância da classe camponesa, uma classe média pouco desenvolvida – parecia-se com as da Rússia antes de 1917. Embora projetado para sociedades industriais avançadas, o comunismo, na prática, deixou raízes somente em sociedades agrárias subdesenvolvidas. Daí o padrão recorrente.
    
Em 1985 o Politburo designou um membro, relativamente jovem, Mikhail Gorbachev, como seu Primeiro-Secretário. A sua tarefa era reanimar o sistema sem abalar seus alicerces. Essa tarefa revelou-se impossível de ser realizada, pois os esforços de reforma esbarraram na resistência da Nomenklatura entrincheirada, que os sabotou. Por volta de 1988, Gorbachev e seus conselheiros tinham concluído que o comunismo era “irreformável” e passaram a dar passos para transformar a URSS em um Estado Socialista Democrático.  
    
Primeiro foi a glasnost, que significava um fim ao sigilo do governo e um relaxamento considerável da censura. O regime enfrentou um dilema: ou continuava reprimindo toda opinião e sufocava, lentamente, o país, ou o liberava e corria o risco de uma explosão definitiva. Gorbachev optou pelo que acreditava ser uma explosão controlada. Isso se revelou um passo extremamente perigoso. Yuri Andropov, o chefe da KGB e sucessor imediato de Brejnev, havia alertado que o relaxamento dos controles do discurso poderia derrubar o regime:
    
“Grupos demais sofreram sob a repressão em nosso país (...). Se abrirmos todas as válvulas de uma só vez, e as pessoas começarem a expressar suas queixas, haverá uma avalanche e não teremos como detê-la”.
    
Os ressentimentos acumulados, agora com escapes, realmente romperam publicamente, destruindo os mitos oficiais e a surrealidade assentada sobre eles.
    
Gorbachev não parou na glasnost: acabou com o monopólio político do PCUS, autorizando a convocação de um Congresso dos Deputados do Povo, com parte de seus representantes sendo eleitos diretamente pelos cidadãos. Pela primeira vez, desde 1917, foi dada voz à Nação na eleição de seus funcionários… Foram escolhidos muitos não-comunistas e, até mesmo, anticomunistas, entre os quais Boris Yeltsin, o chefe não-ortodoxo da organização do Partido, em Moscou, que conquistara muita popularidade atacando os privilégios da Nomenklatura. Daí em diante, a situação moveu-se em um ritmo alucinante.

Em 1989, o Muro de Berlim, símbolo da separação intransponível entre o Leste e o Oeste, ruiu, porque Moscou recusou-se a enviar forças militares para ajudar o governo da Alemanha Oriental a reafirmar sua autoridade. Um país-satélite, atrás do outro, declarou sua independência de Moscou. Esforços ineficazes foram feitos para impedir que as repúblicas soviéticas seguissem o exemplo.

Em dezembro de 1991, depois de um putsch frustrado de comunistas intransigentes dispostos a deter a desintegração do país, Yeltsin, que no começo do ano havia sido eleito presidente da república russa, declarou a Rússia um Estado soberano, dissolvendo, assim, a União Soviética. Um de seus primeiros atos foi proscrever o Partido Comunista,

O novo governo proclamou a democracia e o mercado livre. A Nomenklatura, que tinha o poder de inverter o progresso dos eventos, foi subornada, sendo permitido que se apropriasse de um grande número de propriedades do Estado.
    
A velocidade com que esses eventos se desenrolaram revelou a extrema fragilidade de um império que parecia indestrutível. Sua dissolução assemelhou-se à do império czarista três quartos de século antes. Nos dois casos, a rigidez do regime e a sua falta de contato íntimo com a população, deixaram-no, na hora em que mais precisava, sem amigos, abandonado.
    
O comunismo na Rússia simplesmente extinguiu-se, pois havia exigido demais e oferecido muito pouco, criando uma atmosfera de apatia, na qual os únicos prazeres eram poucos e o futuro sem perspectivas. Por volta da década de 1980, até mesmo a elite soviética tinha perdido a fé no comunismo, ao observar o mundo alcançando o país em todos os campos, exceto em gastos militares e consumo de álcool. Sem confiança em si mesmo, após uma fraca resistência e, confiscando em benefício próprio grande parte da propriedade do Estado, aceitou a extinção do regime com equanimidade. 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Quando vamos parar de atravessar o samba?


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Nosso Brasil está “atravessando o samba” na História. Estamos desfilando na contramão do resto do mundo desenvolvido. Em muitos aspectos, deixamos a desejar até para os subdesenvolvidos. Na passarela do globalitarismo, sem rumos democraticamente definidos, com base na segurança jurídica, somos uma Nação sob hegemonia do Crime Institucionalizado e rumando para explosões de violência e desintegração. É altíssimo o risco futuro de separatismo.

Somos um “carnaval” de coisas, conceitos e pessoas erradas. Excetuando o agronegócio que é “pop e produtivo”, nos demais setores o Brasil é uma enganação. A infraestrutura deixa muito a desejar. Nosso modelo industrial é completamente ultrapassado. Tudo se agrava com o Capimunismo Rentista (modelo de ganhar dinheiro fácil cafetizando a máquina estatal). Pagamos quase uma centena de impostos, taxas e contribuições para esta finalidade.

O problema é conceitual: cultuamos e praticamos idéias e conceitos irreais, canalhas ou criminosos. Na verdade, arcamos com o alto preço da falta de Educação (base filosófica familiar + ensino de qualidade para formar bons cidadãos, trabalhadores e pensadores). Tamanha carência multiplica o número de analfabetos funcionais que engrossam, naturalmente, o caldo da corrupção, da politicagem e da violência. Este defeito original se estende para todas áreas da vida nacional. Somos uma suruba institucional. O tal do “Caju” tem razão em seu cinismo...

O único jeito de mudar essa realidade é partir para uma Intervenção Institucional. É imprescindível uma Repactuação Constitucional. Temos de implantar o Federalismo de fato e de direito. É preciso investir pesadamente em ensino de qualidade, para fecharmos as “fábricas de bandidos”. Temos de resgatar a base familiar e o respeito à Individualidade. Todas as outras profundas reformulações vão ocorrer a partir da base legal e institucional redefinida democraticamente: a Segurança do Direito. A tal da “dura lex” vale para todos. O processo demanda amplo, livre e exaustivo debate. O jogo não é fácil – e pode até ficar bruto – porque nosso fundamento é ruim. No entanto, é preciso jogá-lo.

Não basta reclamar, protestar nas ruas ou nas redes sociais e demonizar os políticos – mesmo que a maioria deles seja formada por ladrões profissionais. O fundamental é restaurar a capacidade de fazer Política para melhorar o País. As elites (melhores entre os melhores) precisam se unir para fazer o bem prevalecer sobre o mal. Os segmentos esclarecidos da sociedade brasileira precisam definir qual rumo estratégico desejam e que o País efetivamente necessita.

Quem tem capacidade de organizar um megaevento como o Carnaval também deveria ter plenas condições de reorganizar o Brasil. A maioria esmagadora das pessoas só precisa de orientação básica. A vontade de mudar para melhor precisa ser mais forte que a mediocridade e o medo do crime. Temos de quebrar a hegemonia dos corruptos, sem se deixar corromper. Não é fácil...

Pulemos o Carnaval moderadamente, mas tenhamos foco que é preciso rasgar a fantasia de idiota inútil imediatamente, de preferência a partir da quarta-feira de cinzas. Devemos aproveitar o “Efeito Lava Jato”, que começa a abalar a corrupção sistêmica, para neutralizarmos, vencermos e substituirmos os canalhas de plantão na direção das instituições públicas e privadas.

Basta de atravessar o samba. Que cada um melhore a si mesmo, de forma consciente, e que reúna plena capacidade de mudar cada coisa que não presta no Brasil. O método não é fácil, porém merece ser tentado.

Pura Gozação


Gozada geral do sarcástico livre gozador Milton Pires, apresentando aquela que seria a frase definidora do carnaval 2017:

"Goza na minha boca, as maletas do Renan não estão gravando! Goza logo antes que o Goleiro Bruno chegue, mate a gente e o Ministro Marco Aurélio Mello deixe ele solto! Vai amor, goza logo antes que alguém faça delação premiada e delate a gente!".

Atrás do Milhão


Pulhagem


Dura Lex, Dura Careca


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© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 26 de Fevereiro de 2017.