Edição Extra de Segunda do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com
Por Márcio Accioly
Brasília - O PSDB de São Paulo caiu numa armadilha montada pela arrogância e auto-suficiência (alimentada por seu principal figurão, o candidato José Serra) e agora está buscando o tempo perdido, remendando dificuldades que poderiam ter sido facilmente evitadas.
No último domingo (25), a legenda homologou a candidatura de Serra ao governo paulista. Muito bem. Mas deixou aberta a vaga de vice. Foi para as cucuias a idéia de compor chapa chamada de “puro-sangue”, pois a insatisfação despertada ameaça ruir pilares que sustentam o candidato peessedebista.
Vejam só: José Serra vinha sendo apontado como possível vitorioso, já no primeiro turno, em todas as pesquisas de intenção de voto realizadas. Confiante nos números, que fez o ex-ministro da Saúde da gestão FHC (1995-2003)?
Resolveu esnobar possíveis aliados e cometeu erro crasso, ao colocar como companheiro de chapa um nome do próprio partido e de sua preferência pessoal. Deixou de lado, por exemplo, o ex-governador de São Paulo (1987-91), Orestes Quércia.
Ele queria ser vice de José Serra. Para tanto, desistiu de ser candidato ao governo estadual, depois de ter sido apontado favorito nas pesquisas realizadas no início do ano. O próprio Quércia, ao perceber resistências à sua postulação, admitia compor com o PSDB, desde que fosse indicado como vice um nome de sua preferência.
Mas José Serra, com o rei na barriga, achando-se virtualmente eleito (numa disputa que irá acontecer daqui a mais de três meses), disse “não” e decidiu que a questão seria resolvida dentro do seu próprio partido.
Como conseqüência, o PMDB paulista, controlado por Quércia, resolveu lançá-lo candidato à sucessão. Resultado: a disputa que parecia tranqüila, caso se confirme tal intenção, deverá se encaminhar para indesejável segundo turno, ameaçando Serra numa vitória aparentemente segura e indiscutível. Segundo turno não é refresco!
Percebendo a complicação, o candidato do PSDB deixou em aberto a vaga do vice e agora aceita qualquer acordo para salvar os dedos, pois os anéis já se foram quase todos. E ninguém pode prever o próximo lance do candidato peemedebista, já que este se flagrou, de repente, com a faca e o queijo na mão.
Por suprema ironia, o PSDB, fundado há exatos 18 anos, surgiu em função de dissidência paulista que combatia o “estilo” Quércia, acusado de corrupção em todos os níveis. Quando se imaginava que FHC era verdadeiro Messias (a população brasileira está sempre aguardando um Salvador), Quércia foi combatido e execrado.
Como as coisas mudam e se alternam numa velocidade capaz de surpreender qualquer desavisado, o ex-governador, quem diria (!), tornou-se neste momento a salvação da lavoura peessedebista. O partido de Serra está numa sinuca de bico.
Se for para um segundo turno, enfrentando Orestes Quércia ou Aloizio Mercadante (PT), Serra corre o risco de ver todas as forças políticas unidas no combate à sua pretensão. O episódio reforça lições.
O mineiro Tancredo Neves costumava dizer que não se faz política com arrogância nem fechando portas. Numa manifestação hostil, em certa ocasião, quando teve de sair de determinado local antes que o caldo engrossasse e o clima se tornasse insustentável, recomendou ao motorista que o conduzia a não cometer erro insanável:
“Não vá tão devagar que pensem que estou provocando, nem tão depressa que imaginem que estou fugindo”.
O tamanho do erro cometido por José Serra será avaliado nesses próximos dias.
Márcio Accioly é Jornalista
2 comentários:
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