Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com
Por Márcio Accioly
Boa Vista - Uma das coisas mais interessantes de se observar é o horário eleitoral gratuito. Afora os apelidos de muitos candidatos, sobrepondo-se na maioria das vezes à identificação de batismo, existem ainda a manipulação da realidade e o desconhecimento de boa parte com referência a atribuições de cargos pretendidos.
Candidatos a deputado federal e a deputado estadual se acumulam, apresentando planos e propostas, cuja execução somente seria possível se alcançassem o Executivo. Mas há também aqueles que desejam deliberadamente confundir.
As teclas mais batidas no horário político de Roraima, pelo lado da coligação liderada pelo senador Romero Jucá Filho (PMDB), abordam a questão da Saúde e a situação das rodovias. O senador, depois do desgaste de inúmeras acusações, resolveu se apresentar ao distinto público apenas como “Romero”. Escondeu “Jucá” e o “Filho”.
Ele tem insistido em denunciar o que considera “descaso do governo estadual com a saúde pública”. Mas jamais explicou o porquê da Prefeitura de Boa Vista (que esteve por 10 anos sob o comando de sua mulher, Teresa Jucá, PPS, candidata ao Senado), não ter construído um pronto-socorro municipal.
Boa Vista é a única capital brasileira a não possuir pronto-socorro municipal. Nos bairros da periferia, onde a população vive à própria sorte, quando alguém necessita de atendimento médico emergencial na madrugada é transportado de bicicleta ou morre à míngua.
Sem contar que muitas ruas se encontram intransitáveis, castigadas por fortes chuvas recentes, com atoleiros e crateras onde ainda se colocou alguma camada asfáltica. A população, sabiamente, qualifica o asfalto colocado na época da administração de Teresa como “sonrisal”: qualquer copo d’água o dissolve.
Mas, o que mais preocupa é verificar o abandono de milhares de crianças em idade escolar e que não têm o que comer. Isso é caso gravíssimo a requerer a atenção de todos que disputam mandatos eletivos.
A periferia de Boa Vista (como de resto a periferia de todas as capitais brasileiras), é verdadeira usina de violência. A miséria e as endemias vão moldando e embrutecendo pessoas que nascem, crescem e se desenvolvem sem qualquer assistência.
Que país se pretende moldar para o futuro, com uma população de jovens carentes e castigados por endemias que se imaginavam erradicadas no século passado? Que esperar de uma população a quem não se oferece qualquer possibilidade de educação formal e qualificação profissional?
Há quem afirme, com segurança, que a carência absoluta, a miséria, não é por si só a causa principal da violência que se alastra no cotidiano. A questão maior, no entanto, é o nada fazer no sentido de resgatar a juventude nacional da absoluta falta de amparo em que fenece. Difícil não enveredar pelos largos caminhos do crime.
O Brasil não deveria se perpetuar como cemitério de talentos e algoz das oportunidades. É preciso que se dê um basta a tudo isso e que se comece a cuidar com carinho e responsabilidade desse seu maior patrimônio, os jovens, os quais vêm sendo criminosamente esquecidos.
Nas cidades interioranas desse imenso país, nas capitais, em todas as suas áreas urbanas e rurais observa-se o desdém e o desprezo com que é tratada nossa gente, como se o poder público não tivesse qualquer responsabilidade, nenhum dever a assumir.
O Brasil precisa se encontrar com seu povo, dirigentes e dirigidos. Antes que sejamos todos varridos no turbilhão da insatisfação e de descrédito invencível.
Márcio Accioly é Jornalista.
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