domingo, 9 de novembro de 2008

Conversando comigo mesmo

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://www.alertatotal.blogspot.com

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Por Arlindo Montenegro

Depois de tantas andanças, tantas aventuras, alguns amores; após provar a superação de limites, ganhar, perder no tal jogo da vida, este corpo velho convida a mente a envelhecer também. Convida apaixonadamente ao desprezo e alienação diante dos usos e costumes que renegam tudo quanto foi aprendizado e hoje é ignorado, desde o berço.

Aplicar-se para conhecer e entender este Brasil é uma tarefa para jovens e destemidos gigantes mentais. Quando vejo esta cara coroada de cabelos brancos no espelho, abre-se a galeria de riso e choro e começa o travelling que acaba à beira de um abismo: as luzes e pontos musicais que marcaram a vida podem ser divisados naquela paisagem distante e inalcançável.

Como vim parar aqui não sei. Preferia estar lá noutro lugar, integrando um ambiente de vozes e calor humano, podendo escolher caminhos e experiências, refém de paixões e de silêncios alternativos.

Acabaram-se as escolhas. Agora é só esperar a velha senhora que conduz a gente pelo caminho da casa original. E enquanto a espero, mergulhar na memória, para constatar que acreditei na possibilidade e busquei ver a alvorada antes do galo cantar.

Tentei praticar verdades cridas como valores e virtudes, na contra mão do senso comum que tende à fantasia fanática, restrita a aspectos dogmáticos, comportamento mental que se distancia do imaginário livre e restringe as possibilidades humanas.

Por vezes o sentimento é de estar trancado num hospício, em segurança. Os “loucos” estão lá fora reféns da guerrilha urbana que aterroriza até as criancinhas. Os loucos estão lá fora, acreditando nas promessas dos políticos. Os loucos estão lá fora perdendo o tempo com a interpretação histérica dos fatos distorcida para vender uns poucos impressos e manter a grande audiência dos programas de tv. Os loucos estão lá fora acreditando em humanidade fora das grandes obras literárias ou fora do discurso de alguns poucos “humanos” que são vistos como “loucos”.

A podridão referida por Shakespeare, a loucura do Quixote, o inferno de Dante, o crime e castigo de Dostoievsky, a barata de Kafka, a casa de vidro do russo Zamiatin mostrando a onipresença do estado que Orwell consagraria mais tarde, com a novela “1984” como o olho do Grande Irmão, o apocalipse da Bíblia, tudo me foi ensinado. Tapei os ouvidos, os olhos e a boca com as mãos – macaco!– voluntariamente acorrentado ao barco da vida. Alegre como Ulisses, em sua aventura, sem saída, acreditando ser incólume ao canto das sereias.

A insensatez é a marca registrada dos poderosos que obedecem aos reis aplaudidos pela turba. Um bêbado conhecido como Karl Marx convidou os proletários a matar os capitalistas. Em seu manifesto começava dizendo que um fantasma percorria a Europa. O fantasma atemorizou todos os povos.

Por um tempo pareceu ter virado piada inconseqüente diante de uma verdade dantesca. Logo, com redobrada violência transfigurou-se em realidade presente em todas as latitudes. Aterroriza mesmo e envia para a morte crédulos, temerários, afoitos e “bocas inúteis” em todas as latitudes.

Aplicar-se para entender o mundo é tarefa para insanos mentais violentos. Interpretar notícias vem a ser pura perda de tempo! O povo é intuitivo e percebe que dar murro em ponta de faca, fere e inutiliza as mãos para a carícia e mesmo para arrancar da vida o pão de cada dia. Vivemos no país da fartura natural e da selvageria legislativa que hoje privilegia o racismo, provocando as manifestações mais rancorosas.

Em meio à crise financeira global fabricada, os democratas americanos elegeram seu presidente. Neste momento os princípios democráticos parecem enfrentar hostilidade pelo planeta afora. As ameaças insensatas e as profecias dos interpretes da realidade continuam despejando antagonismo, cada bando gritando suas verdades.

O coletivismo parece apoiado no globalismo econômico. O discurso coletivista promove cada vez maior distância entre as pessoas, e forte concentração da economia, limita a expressão e a criatividade, censura o mesmo pensamento.

Aqui no Brasil, como um ignorante a mais, busco perceber pessoas jovens e admiráveis, mostrando um verbo consistente na contra mão da insensatez. Que Deus possa iluminar novas idéias que conduzam a ação superando tanta diferença e pobreza material e mental. Paro por aqui.

Devo a mim mesmo o respeito de calar com tantas manifestações e entendimento de coisas que já estão ditas e entendidas há tanto tempo. Percepções desprezadas, valores ignorados, ferramentas inúteis para a sobrevivência. Quando muito impróprias, como as enxadas diante dos tratores.

Sinto falta de uma instituição como aquela que o Stanley Kubrick mostrou em “A Odisséia no Espaço”, para, dignamente deitar-me depois de escolher música clássica e imagens tranqüilas. Sem despedidas, sem choro, sem constrangimentos, sem mágoas. A vida continua. E é como é.

Algumas mudanças pessoais são possíveis na medida da saúde física e mental herdada. A insensatez predomina. Superá-la vai exigir a paciência e aplicação de muitas gerações.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

6 comentários:

americo ayala jr. disse...

Caro Serrão,

Leitor assíduo e diário do seu excelente blog, pela primeira vez me proponho a deixar um comentário aqui.

O texto de Arlindo Montenegro foi escrito com o intelecto dele, seus dedos foram, juntamente com outros recursos mais, o instrumento para nos legar esta pintura de reflexão.

Sim, é dele o texto, mas é nosso - meu e de muitos outros desapontados - o sentimento, o insight, a desesperança...

São meus os cabelos brancos de que ele fala, são meus os livros que ele cita, é minha tambem uma certa chama final que quase se apaga, de que possa surgir um movimento que resgate os valores que ao longo de tempos quase incontáveis, deu norte ao homens de bem.

Tambem eu olho cinicamente para a vida e, ainda que tenha valido a pena ser vivida, poderia ter sido ainda mais enriquecedora; mesmo tendo dado uma contribuição pequenina, ela teria sido maior, se houvesse mais de nós...

Anônimo disse...

Loucuras energéticas:

O consumo de petróleo aumenta 2% ao ao ano, e portanto, dobra a cada 35anos.

Sabe-se que, numa progressão geométrica, o último termo é igual à soma dos termos anteriores mais 1.

Exemplo: na PG 1 2 4 8 16, o último termo é igual a 1+2+4+8+1.

Isto significa que nos próximos 35 anos o mundo queimará uma quantidade total de petróleo a tudo o que foi consumido nos últimos 2 séculos, ou seja, 2,5 trilhões de barris de petróleo!

A biosfera onde vivemos não suportará essa agressão.

A energia nuclear é pior ainda, porque os resíduos radioativos e a própria usina, após 50 anos de uso, precisam sejam enterrados por milhares de anos!

Os combustíveis alternativos são uma farsa ridícula, porque para produzir 1 litro de álcool por ex. gasta-se o equivalente em petróleo e eletricidade, sendo o balanço
energético praticamente zero.
Além disso, áreas que poderiam ser destinadas aos alimentos são ocupadas com outras culturas.

Certas opções tecnológicas não resolvem o problema, tais como energia solar, eólica, dos mares, etc, porque são caras e ineficientes.

A saída está em obter energia da curvatura escalar do espaço, assunto proibido nas universidades pelos lobbies do petróleo e nuclear
(veja em www.cheniere.org)

Como tudo vai ficar como está, o meio ambiente entrará em colapso em algumas décadas.

"O amor pelo dinheiro é a fonte de todo o mal" (Timóteo)

BRAGA disse...

Isso, caro anônimo, que você coloca, venho me "esgoelando" através do tempo. Os valores éticos, morais e humanos foram para o "espaço. Existe, sim, uma solidão porque todos só pensam em TER. Fraternidade, condescendência são termos "demodée"!
Realmente, o fim está próximo, a menos que ocorra um "milagre". Voltarmos a cultuar o bom senso, o respeito ao próximo, etc.
Quanto a você Arlindo, concordo em gênero, número e grau.
Sou também um velho brasileiro (chamado idoso, atualmento) que ainda não perdeu a esperança.
Como escreveu um pensador, "Tudo nos podem tirar, menos o nosso saber".

Anônimo disse...

Sr. Arlindo Montenegro


Seu texto é uma verdadeira e puríssima obra de arte da vida.

Emocionante!

Ádamo disse...

Há alguns meses sou leitor assíduo do blog, muito embora nunca tenha comentado.

Todavia, hoje o ponto foi tão subjetivo que me senti convidado.

Para velho ainda não sirvo. Com menos de 25 anos e concluindo meu curso de graduação dentro deste ano, ainda assim compreendo ou até mesmo vivo o que nos é exposto aqui (constantemente faço prospecções como forma de planejar melhor meu caminho).

Estou vivendo hoje aquela fase da vida em que o futuro parece ainda mais incerto do que de costume.

E percebo que é justamente nesta angústia de definir o próprio futuro que muita gente acaba por ingressar em um caminho que sabe ser errado, mas que o aceita como um meio de alcançar o seu ideal.

O mundo, como um organismo, está doente. Seja pela constante briga entre anticorpos e agentes transgressores (justiça e crime organizado), seja pelo câncer ambiental que parece entrar em metástase dia após dia, ou seja pela dificuldade de irrigação hemo-econômica para todos os órgãos vitais político-geográficos.

A previsão, de qualquer forma, é de um futuro negro (por favor, não entendam como um trocadilho para o nosso eleito Obama).

Ádamo disse...

Há alguns meses sou leitor assíduo do blog, muito embora nunca tenha comentado.

Todavia, hoje o ponto foi tão subjetivo que me senti convidado.

Para velho ainda não sirvo. Com menos de 25 anos e concluindo meu curso de graduação dentro deste ano, ainda assim compreendo ou até mesmo vivo o que nos é exposto aqui (constantemente faço prospecções como forma de planejar melhor meu caminho).

Estou vivendo hoje aquela fase da vida em que o futuro parece ainda mais incerto do que de costume.

E percebo que é justamente nesta angústia de definir o próprio futuro que muita gente acaba por ingressar em um caminho que sabe ser errado, mas que o aceita como um meio de alcançar o seu ideal.

O mundo, como um organismo, está doente. Seja pela constante briga entre anticorpos e agentes transgressores (justiça e crime organizado), seja pelo câncer ambiental que parece entrar em metástase dia após dia, ou seja pela dificuldade de irrigação hemo-econômica para todos os órgãos vitais político-geográficos.

A previsão, de qualquer forma, é de um futuro negro (por favor, não entendam como um trocadilho para o nosso eleito Obama).