domingo, 23 de agosto de 2009

Censurado o vídeo que flagrou o mau humor de integrantes do CQC

Extraído do blog Repórter do Crime, de O Globo.

Por Jorge Antônio Barros

Quando comecei no jornalismo, no início da década de 80, lembro de uma figura inspiradora, o repórter Ernesto Varela, um personagem criado pelo "midiaman" Marcelo Tas, que tinha na irreverência e no bom humor seu principal método de trabalho. Com seu jeito ingênuo e ao mesmo tempo provocador, Varela conseguia irritar políticos sem-vergonha. Funcionava como uma espécie de "grilo falante" da consciência cidadã, em plena vigência do regime militar. Seu encontro com Maluf, no Congresso, ficou célebre pela pergunta feita de chofre ao ex-governador de São Paulo:

"Muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto. É verdade isso, deputado?", indagou Tas, na pele de Ernesto Varela, que lhe deu em 84 o Prêmio Tucano de Ouro do FestRio pelo Melhor Vídeo Experimental "Varela no Congresso". Eu estava lá na plateia.
Este prólogo é para manifestar a minha fé de que Marcelo Tas - hoje o âncora do CQC, o jornalístico-humorístico de sucesso, exibido na Rede Bandeirantes - não tem sequer conhecimento do que alguns de seus colegas de programa fizeram contra o repórter que vos escreve.

Depois de 28 anos de jornalismo, completados mês passado, estou enfrentando o pior adversário da imprensa e da cidadania: a censura imposta pelo poder econômico. A empresa Rafinha Productions entrou com um pedido para remoção no YouTube do vídeo exclusivo que fiz, em tom de irreverência, com o apresentador Rafael Cortez, um dos repórteres do CQC. O vídeo foi removido ontem do site do Google devido "à reivindicação de direitos autorais da Rafinha Productions" (Para ver o vídeo, agora publicado no Yahoo Vídeos, vá até o fim deste texto).

Em primeiro lugar não há qualquer violação de direitos autorais. O vídeo foi idealizado, produzido e feito por mim mesmo, entre o check in no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e o desembarque de um voo da Webjet, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, na tarde de terça-feira passada. Depois foi editado em meu computador pessoal e publicado na madrugada seguinte no canal "reporterdecrime" no YouTube.

No vídeo de cinco minutos, que em apenas algumas horas chegou a mais de 1.500 exibições no YouTube, entrevistei Rafael Cortez sobre amenidades até arrancar dele a declaração absurda de que a mídia é a culpada da violência no Rio. O vídeo tem ainda um dos integrantes da produção falando em tom ameaçador contra o REPÓRTER DE CRIME. Eu estava apenas praticando com eles o mesmo jornalismo que marcou Ernesto Varela, que infelizmente eles não devem ter conhecido por serem mais jovens (Veja o vídeo, no fim deste texto)

É verdade que não me identifiquei imediatamente. Mas que graça teria a brincadeira se não tivesse sido dessa forma? Eu jamais imaginaria que o entrevistado ficasse tão ofendido a ponto de ter afirmado e removido de seu Twitter que quando alguém visse "um gordinho com uma câmera no aeroporto deveria dar uma bica nele".

No vídeo censurado a pedido da Rafinha Productions, Rafael reconhece que não há problema algum em entrevistá-lo pois é uma "figura pública" e foi ouvido em local público. Não há, portanto, o menor sinal de abuso de direito de imagem da minha parte. Foi tudo consentido. Sobretudo a segunda parte da entrevista, que foi feita à pedido do próprio Rafael depois de ter-se arrependido de algumas declarações dadas na primeira parte, que inclusive foram removidas na edição, depois de apelo feito pelo apresentador (Veja o vídeo, no fim deste texto).

Enfim, com apenas uma simples brincadeira de vídeo caseiro, descobri como é tênue o limite entre a fama e o mau humor. Só não imaginava que comportamento assim partisse de profissionais que têm na sua principal atividade aquilo que parecem detestar na intimidade: lidar com gente.

Estou tranquilo para contar essa história porque sou apenas um jornalista especializado em segurança pública. Não tenho a pretensão de ser comediante e muito menos de concorrer com o CQC, um programa de excelente qualidade e muito engraçado. Tem inclusive um quadro, chamada CQTeste, apresentado pelo próprio Rafael Cortez. Ele só não conseguiu passar no JABTeste. Sugeriria que essa equipe do CQC fizesse um bom "mídia training" para aprender melhor a lidar com a imprensa.

Marcelo Tas, em seu blog pessoal, explica que o " 'CQC' está correndo atrás de entender a notícia, e a gente acredita que é possível entendê-la com o humor. O humor é uma maneira de você fazer com que essa inundação de informação que a gente vive faça sentido. Uma coisa em que eu acredito muito: as coisas do 'CQC' gravam na cabeça das pessoas. A combinação de jornalismo com humor é muito poderosa."

Realmente, Tas. É por isso mesmo que vale a pena ver de novo meu vídeo "O dia da Caça", sobre o dia em que uma equipe do CQC foi flagrada no maior mau humor da paróquia.

Veja o vídeo em: Censurado o vídeo que flagrou o mau humor de integrantes do CQC

Jorge Antonio Barros cobre criminalidade e segurança pública desde 1981. É editor-adjunto de Rio do GLOBO. Tem dois prêmios Esso e ganhou, em 2007, o Prêmio de Jornalismo do AfroReggae e a menção especial do Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. É integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

3 comentários:

Cris disse...

Rafinha deixou a fama subir-lhe a cabeça faz tempo. Tornou-se prepotente e insuportável.

Sérgio Rocha disse...

Lamentavel em todos os sentidos a atitude prepotente do estrelinha do CQC...

Anônimo disse...

Caro Serrão,
Obrigado por repercutir esse absurdo praticado por uma equipe do CQC.