sábado, 24 de julho de 2010

Chavez, Uribe e o Brasil

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Cláudio Gonçalves Couto

Os presidentes venezuelano e colombiano, Hugo Chávez e Álvaro Uribe, são personagens com diversas semelhanças. Ambos são lideranças de tipo carismático, que não ocultam seus pendores autoritários e procuraram modificar as instituições políticas de seus países de modo a se perpetuar na Presidência - ou, ao menos, nela permanecer longamente.

Mas é claro que também há diferenças importantes: Chávez é histriônico, Uribe é discreto; o venezuelano vem conseguindo aniquilar os freios e contrapesos da moribunda democracia venezuelana, garantindo para si mesmo reeleições ilimitadas com mandatos longos (de seis anos), enquanto seu colega colombiano, embora tenha tentado obter um terceiro mandato (de quatro anos), viu-se limitado por esses mesmos mecanismos de controle, os quais lhe impediram de reeleger-se uma segunda vez; Chávez é de esquerda, Uribe é de direita.

Sumarizando-se, pode-se dizer que Chávez é um postulante a ditador bem-sucedido até agora nesta empreitada, enquanto Uribe acabou por aceitar os limites do Estado de Direito e em breve deixará a Presidência, tendo elegido facilmente seu sucessor graças à sua grande popularidade. A estratégia chavista para construir de forma paulatina um regime autoritário e centrado no culto à sua personalidade é a de driblar as estruturas limitadoras do poder com base no plebiscitarismo. Realizando diversas consultas populares e contando com a incompetência da oposição, o presidente venezuelano logrou minar pouco a pouco os espaços de atuação de seus adversários.

Os momentos mais notáveis do processo de construção do poderio chavista foram: a dissolução dos poderes de Estado pela Assembleia Constituinte de esmagadora maioria governista, a qual lhes tomou o lugar; a negativa da oposição em disputar as eleições legislativas, permitindo ao chavismo dominar o novo parlamento, criado pela sua constituição "bolivariana"; a mudança do nome do país para República Bolivariana da Venezuela, conferindo à denominação do Estado o lema de seu movimento político particular; a vitória do presidente sobre um desastrado golpe de Estado que os setores mais conservadores tentaram desferir-lhe, em 2002, voltando por cima e como herói; o seguido fechamento (ou cerceamento) de emissoras de rádio e TV oposicionistas; a vitória num referendo revocatório sobre seu mandato, e a derrota num referendo que expandir-lhe-ia tremendamente os poderes; o drible nesta última derrota pela aprovação, no Parlamento, da expansão dos poderes da Presidência e das reeleições ilimitadas; o enfrentamento com as classes médias e altas e, em particular, com a elite da companhia nacional petroleira, a PDVSA, vergando-lhe a espinha e desmantelando seu poder numa longa greve; finalmente, as seguidas turras com os Estados Unidos e, principalmente, com o vizinho mais alinhado aos EUA, a Colômbia.

Uribe tem como a marca distintiva de seu mandato um encarniçado enfrentamento com as guerrilhas de esquerda associadas ao narcotráfico, as Farc e o ELN, impondo-lhes seguidas e importantes derrotas. Do outro lado, o presidente colombiano conseguiu promover negociadamente o desarmamento dos grupos paramilitares de direita, com os quais possui preocupante proximidade.

O resultado líquido desse processo foi um considerável avanço do processo de pacificação na Colômbia, tanto nas áreas antes controladas pelas guerrilhas como nos grandes centros urbanos. É daí que provém sua altíssima popularidade. Articuladamente a este processo, a Colômbia estreitou seus vínculos militares com os Estados Unidos, permitindo a instalação de bases militares americanas em seu território, ouriçando seus vizinhos, principalmente a Venezuela chavista.

Deflagrou-se ontem mais um episódio do drama político que tem sido a relação entre os dois países durante os governos dos mandatários aqui retratados. Mais uma vez a Colômbia acusou a Venezuela de dar guarida a guerrilheiros que buscam solapar sua soberania, apresentando imagens dos acampamentos supostamente em território venezuelano como prova disto, o que resultou na imediata (e muitas vezes anunciada) ruptura das relações diplomáticas com o país vizinho.

Como se não fosse suficiente, fiel a seu histrionismo e ladeado pela figura igualmente melodramática de Diego Maradona, Hugo Chávez alertou que, se necessário for, verterá seu próprio sangue para defender a soberania nacional, chamou a seu colega colombiano de mafioso e destilou ódio num discurso mesclado por sentimentalismo e fúria. Os colombianos, por sua vez, mantiveram a acusação.

Se o enredo outras vezes seguido se repetir agora, em algum tempo as coisas voltam ao normal. A posse de um novo presidente na Colômbia pode facilitar o arrefecimento dos ânimos conclamado pela OEA, apesar das ameaças antes feitas pelo presidente venezuelano, de que haveria uma guerra entre os dois países no caso da eleição do uribista Juan Manuel Santos. Como, entretanto, o chavismo é dado à ciclotimia, pode-se esperar que em algum momento assuma uma fala mansa, dentro do estilo bipolar.

Curiosamente, essa anunciada crise explode justamente quando, no Brasil, a principal candidatura de oposição acusa o PT - e, consequentemente, sua candidatura presidencial - de vínculo com as Farc, pivôs do episódio. O interessante é que o governo brasileiro de imediato se prontificou a interceder junto às partes, promovendo sua reconciliação, por meio do assessor para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

É claro que, se as conseqüências de eventuais proximidades entre o PT e as Farc forem relevantes para a forma como o governo brasileiro atua, certamente a Colômbia rechaçará esta intermediação - tendo em vista sua parcialidade e suspeição. Tendo em vista, contudo, o histórico recente, não parece ser este o caso, indicando que uma campanha caracterizada por tais acusações corre o risco de descambar para um histrionismo similar ao protagonizado pelo chavismo, mas com sinal ideológico invertido.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP. Artigo originalmente publicado no Valor Econômico de 23, 24 e 25 de julho de 2010.

Um comentário:

Anônimo disse...

É BOM LEMBRAR QUEM SÃO OS CONTATOS DAS FARC NO BRASIL:
MARCO AURÉLIO GARCIA, o escolhido para mediar o conflito atual deflagrado pelo histrião Chávez, encabeça a lista. Está comprovado que além de ocupar áreas da Venezuela e do Perú, as Farc estão na Amazônia brasileira.
Personalidades, políticos e dirigentes do PT de Lula, além de juizes e o então governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra, tiveram contato com os guerrilheiros narcotraficantes das Farc. Dentre estes, destacam-se:
José Dirceu
Roberto Amaral, ex ministro de Ciencia e Tecnolotia.
Erika Kokay, deputada.
Gilberto Carvalho, Chefe de Gabinete do presidente.
Celso Amorín, Ministro de RElações Exteriores.
Marco A. García, Assessor de Lula para assuntos internccionais
Perly Cipriano, Subsecretário dos Direitos Humanos
Paulo Vanucchi, Ministro SEcretário dos Direitos Humanos
Selvino Heck, asessor de Lula.
Um Vereador de Guarulhos e também o "Comandante Beiramar"...
A relação é mais extensa, mas... me poupem.