quarta-feira, 14 de julho de 2010

A outra face de Dilma

Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Rodrigo Constantino

“Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápidoà sua própria natureza” (Sêneca)

De olho nos eleitores mais moderados, a candidata Dilma Rousseff temalterado seu discurso, vestindo uma embalagem mais atraente. Não foi apenaso cabelo que passou por uma transformação radical. Agora, Dilma já fala emreduzir a dívida pública para 30% do PIB, em imposto zero parainvestimentos, em combater as invasões ilegais do MST e na defesa daliberdade de imprensa. Entretanto, este discurso soa estranho na boca da petista. A nova personagem não combina nada com a figura histórica.

Para começo de conversa, o governo Lula teve oito anos para fazer asreformas estruturais, reduzir os impostos, atacar as invasões do MST etc. Não só deixou de fazer isso tudo, como muitas vezes agiu à contramão dodesejado. A carga tributária aumentou, ocorreu uma escalada de invasões doMST, que recebe cada vez mais verbas públicas, e a liberdade de imprensa seviu inúmeras vezes ameaçada: Ancinav, Conselho Nacional de Jornalismo,tentativa de expulsão do jornalista estrangeiro que falou dos hábitosetílicos do presidente, PNDH-3 e Confecom. Foram diversas tentativas decontrole dos meios de comunicação. A participação de Dilma em alguns destes projetos foi direta.

O ProgramaNacional de Direitos Humanos, com viés bastante autoritário, saiu de seu gabinete. Além disso, Dilma sempre deixou claro que acredita num Estado centralizador como locomotiva da economia. Foi durante a gestão de Luciano Coutinho que o BNDES se transformou numa espécie de “bolsa empresa”,torrando bilhões dos pagadores de impostos em subsídios para grandesempresas. O Tesouro teve que emitir dezenas de bilhões em dívida para bancar osempréstimos do BNDES. Coutinho é cotado como possível ministro no governoDilma. Como acreditar no discurso de redução da dívida pública? As palavras recentes dizem uma coisa, os atos concretos dizem outra, bem diferente.

O passado de Dilma também levanta suspeita sobre esta nova imagem “paz e amor”. Dilma foi guerrilheira e lutou para implantar no país um regimecomunista. Com este “nobre” fim em mente, ela se alinhou aos piores grupos revolucionários, aderindo à máxima de que os fins justificam quaisquer meios. Colina e VAR-Palmares foram organizações que praticaram os piorestipos de atrocidades, incluindo assaltos, ataques terroristas e sequestro.

Claro, devemos levar o contexto da época em conta: Guerra Fria, muitos jovens idealistas iludidos com a utopia socialista, e dispostos a tudo pela causa. Mas o tempo passou, e vários colegas colocaram as mãos na consciência efizeram um doloroso mea-culpa, reconhecendo os erros do passado. Dilma,entretanto, declarou com todas as letras numa entrevista à revista “Veja”: “Jamais mudei de lado.”

Sabendo-se que este lado nunca foi o da democracia, e sim o lado que aponta para Cuba, resta perguntar: qual Dilma pretende governar o país? Em um típico ato falho freudiano, a campanha de Dilma apresentou ao TSE o programa de governo do PT, ignorando a aliança com o PMDB. Neste programa, que contava com a rubrica de Dilma, estavam presentes os ideais golpistas da ala radical do partido, como o controle da imprensa, os impostos sobre “fortunas” e a relativização do direito de propriedade no campo, beneficiando os criminosos do MST.

Chávez, em 1998, declarou que não tinha nenhuma intenção de nacionalizar empresas, de controlar a imprensa ou de destruir a democracia e permanecer no poder. Ao contrário, ele se mostrou bastante receptivo ao capital estrangeiro. Na época, ele estava prospectando clientes. Depois, era tarde demais. Ele já tinha o domínio da situação, e estava pronto para sacrificar suas vitimas ingênuas. “Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa”, alertou o filósofo Schopenhauer.

Em uma de suas fábulas, Esopo faz um alerta aos que acreditam nas mudançasda essência dos seres humanos. Um lavrador, durante um inverno rigoroso,encontrou uma serpente congelada. Apiedou-se dela e a pôs em seu colo. Aquecida, ela voltou à vida normal, picou seu benfeitor ferindo-o de morte. E ele, morrendo, disse: “É justo que eu sofra, pois me apiedei de uma malvada.”

A História está repleta de casos em que a crença nas lindas promessas de políticos autoritários se mostrou fatal. Dilma apresenta ao público sua nova face, com um discurso bem mais moderado. Mas é a outra face que não sai de minha cabeça, aquela que acompanhou a candidata por toda sua vida.

Rodrigo Constantino é Economista. Artigo originalmente publicado em O Globo de 13 de julho de 2010.

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