domingo, 14 de agosto de 2011

Reflexões sobre a China e o futuro do Brasil

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Adriano Benayon

A situação após o término da 2ª guerra mundial é melhor descrita, a meu ver, como de confrontação e guerra fria entre, de um lado, as potências hegemônicas EUA e Reino Unido, e a União Soviética (como diria De Gaulle, mais propriamente a Rússia). Os supostos formadores do “bloco capitalista” nunca passaram de satélites daquelas duas potências. De Gaulle tentou mudar esse quadro, foi importante no cenário mundial, mas sua influência não durou muito tempo.

Foi tirado do poder, através das infiltrações na França de agentes dos anglo-americanos (inclusive os estudantes de 1968/69). Houve também o movimento dos não-alinhados liderado por Nehru, Tito e Nasser. A China, embora comunista, enquanto durou Mao, nunca se alinhou com a Rússia.

O que importa, no caso, é que as oligarquias comandam impérios com centros em suas respectivas bases, como Londres e Nova York. Os satélites, como Alemanha, Japão e outros de menor porte econômico, bem como os semicoloniais da periferia, como os latino-americanos e outros, foram apenas instrumentos na confrontação entre as superpotências de então. Nestes últimos o capitalismo é estrangeiro, ficando o nacional a ele subordinado.

Atualmente, creio que há muitos preconceitos ideológicos em relação à China, um país sempre pragmático, como não deixou de ser nem quando foi comunista. Um deles é a de que o êxito decorre de se ter ela tornado capitalista. Não creio que a China tenha “aderido fervorosamente ao capitalismo”, nem muito menos que ela se tenha tornado uma das primeiras potências econômicas e militares do mundo, na base de “sua mão-de-obra semi-escrava”.

Muito do poder atual da China, além do poder que resta na Rússia, é herança da época comunista, a começar por avanços científicos, educação de alto nível, indústrias de elevado nível tecnológico, como a aeronáutica, submarinos etc., ademais das indispensáveis bombas nucleares e de hidrogênio, e dos mísseis, sem o que quem pretende ser potência está fazendo papel de palhaço. Já disse, alguma vez, que não vem ao caso se o sistema comunista era fechado, repressivo etc.

Voltando ao caso específico da China, há mais duas observações:

1) Mesmo permitindo vários empreendimentos de capital dito privado, tanto nacionais como estrangeiros, a China manteve estatais em diversas áreas produtivas, além de o Estado investir em infra-estrutura econômica e social uma proporção do PIB vinte vezes maior que a do Brasil, por exemplo.

2) Ainda mais importante que isso, a burocracia governante parece não ter perdido o comando da economia, não obstante a presença de numerosas e grandes empresas transnacionais estarem produzindo e exportando de território chinês.

Na definição de capitalismo que me parece correta, esse sistema se caracteriza por não impor barreiras ao capital privado, permitindo que grupos privados concentrem poder econômico em proporção tal, que leve a controlarem politicamente o País (esse controle total do Estado por grupos oligárquicos é o caso dos EUA, Reino Unido e seus satélites).

Não é o caso da China em que os investimentos têm de ser autorizados e onde as transnacionais não desfrutam de subsídios nem da facilidade de transferir lucros disfarçados em outras contas do balanço de transações correntes, superfaturar importações, subfaturar exportações etc.

Como é que não podemos falar de império mundial, se a Inglaterra o exerce desde 1650, e associada aos EUA, a partir da 1ª Guerra Mundial. Se controlam a ONU e a OTAN, entre outras “organizações internacionais”, se atiram bombas com urânio no Afeganistão, na Iugoslávia, no Iraque, se agora as lançam até contra hospitais de crianças na Líbia e ninguém se opõe? Se isso não é império, o que é? Claro que é um só.

É evidente que a China está implantando seus interesses econômicos em vários países asiáticos, africanos, latino-americanos etc., mas não tem poder imperial sobre eles, como tampouco o têm o Japão, a Alemanha, a França, a Noruega, a Suécia. Esses tem muito mais “investimentos” do tipo colonialista na periferia do que tem a China, mas eles são satélites do capitalismo anglo-americano e dependem do poder militar deste.

A oportunidade provável para que algum país, como a Argentina (bem à frente do Brasil em mentalidade independente e política nesse sentido), vir a ganhar maior autonomia só haverá se a China e eventualmente a Rússia vierem a fazer frente ao império anglo-americano quando este, para tirar o foco do caos econômico que instalou, inclusive em nas próprias bases dele, der início a grande conflagração bélica. Além disso, vai depender do surgimento de líderes, os quais terão de ter consciência de que inicialmente terão de jogar com as partes do conflito dos cachorros grandes, para ir crescendo. De fato, estão tão atrasados econômica e tecnologicamente, que precisam de muitos anos de políticas corretas para chegarem a ter alguma significação em âmbito mundial, que não seja a de zonas para a extração de recursos naturais.

Do mesmo modo que serão necessárias ao Brasil, por exemplo, políticas de construção econômica e tecnológica, essas políticas implicam e pressupõem concomitante política de renascimento cultural, com ênfase em resgatar e renovar o que foi destruído, inclusive entendendo o processo de devastação ocorrido e percebendo que o renascimento cultural é indispensável para a independência.

Falta tempo, espaço e paciência dos leitores para resumir o que foi destruído do patrimônio cultural nos últimos 50 anos. Tentando só fazê-lo com conceitos genéricos: a música popular brasileira; a música clássica, em termos de acesso perdido; a própria música popular estrangeira autêntica, que algo muito diferente do impingido através dos disc-jockeys comprados pelo USIS; o estudo da história fora do ponto de vista imperial; a qualidade do ensino e a concepção humanista dele; os valores éticos, individuais e de família, substituídos pela avacalhação dos festivais de rock, drogas, novelas, programas da TV e pela mercantilização de tudo.

Bem, não será difícil que muitos dos que lerem estas linhas, completem a lista.

Adriano Benayon, doutor em economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, é autor de Globalização versus Desenvolvimento.

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