domingo, 14 de outubro de 2012

Sair da “crise”

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Adriano Benayon

O jornal Valor publicou, em setembro, artigos de dez “renomados” economistas sobre a “crise” mundial e seus desdobramentos. Na realidade, trata-se de depressão econômica, caracterizada por queda, desde 2008, de emprego, produção, consumo e investimentos, em quase todos os países “desenvolvidos”.

Pior que esconder a depressão nas estatísticas oficiais é não apontar-lhe a causa essencial: a concentração dos meios de produção e das finanças sob o comando de um grupo de pessoas contáveis nos dedos, coadjuvadas por executivos cujo total não passa de 0,001% da população (mil vezes menos que o falado 1%).

A concentração determina as causas imediatas do colapso e da depressão:

a) desregulamentação (falta de controles públicos e supressão dos que havia) dos mercados financeiros, deixados ao bel prazer dos alavancadores dos títulos podres, como derivativos de 600 trilhões de dólares (nessa moeda e em euros);

b) os bancos e financeiras, manipuladores e aproveitadores da criação de títulos, não arcarem com os ônus dos estragos que produziram, postos nos ombros dos Estados, que viraram devedores de créditos de que não se beneficiaram.

Ainda mais importante que entender as causas é atentar para o fato de a depressão continuar, porque isso interessa à oligarquia financeira, detentora do real governo nas “democracias” ocidentais.

De fato, a depressão serve para tornar ainda maior a concentração do capital, e mais absoluto o poder oligárquico. Serve como? Enfraquecendo ainda mais os Estados nacionais, dos quais a oligarquia se havia apoderado.

Com o Estado subordinado aos oligarcas, quem irá conter os abusos tirânicos e quem propiciará algum espaço à verdadeira economia de mercado, capaz de viabilizar o desenvolvimento tecnológico através da competição e da demanda em economias livres da concentração?

Depois do colapso financeiro originado nos derivativos, em vez de se liquidarem os bancos metidos neles - como de direito, se as sociedades tivessem governos a seu serviço - os colossais prejuízos decorrentes da especulação foram transferidos para os Estados, que passaram a ser os grandes endividados.

A partir das dívidas públicas assim engendradas, as políticas sob o comando dos bancos levam à falsa austeridade e às privatizações favorecedoras dos carteis dos oligarcas. Através delas desaparecem não só estatais, mas também grande massa de empresas médias e pequenas.

No setor “privado” reinam os grandes bancos e os carteis transnacionais, cada vez mais abrangentes. Fecham-se as portas do capitalismo a ingressantes da classe média alta. A oligarquia consolida seu status de tirania.

Diferentemente do que muitos dizem, a crise econômica atual não provém somente do liberalismo, mas, sim, de o mundo estar dirigido e regulado pelos concentradores. Só os oligarcas ficam livres da regulamentação.

A depressão nos EUA, Europa e Japão leva à queda das exportações da China, a qual pretende acelerar a expansão do mercado interno e reduzir o ritmo de crescimento dos investimentos em favor da elevação do consumo.

Assim, a função de locomotiva do dinamismo mundial, desempenhada ultimamente pela China, não deverá prosseguir na mesma intensidade, prevendo-se queda nas importações de minérios e, portanto, das exportações do Brasil e da Austrália.

Em conclusão, nada se vê no horizonte, capaz de interromper o presente círculo vicioso, na maioria dos países, de deterioração das condições sociais e da infra-estrutura econômica.

EUA e Europa prosseguem emitindo moeda para comprar títulos podres, o que reduz quedas no valor dos ativos financeiros e das commodities. Mas isso só adia nova recaída, enquanto avilta, ainda mais, o dólar e o euro, moedas que não mais deveriam ser aceitas como divisas internacionais.

Muitos recordam que a grande depressão mundial dos anos 30 somente acabou devido ao choque de procura da Segunda Guerra Mundial, a partir de 1942/43.

Mas então, só nos EUA, foram mobilizadas 14 milhões de pessoas, e agora, os conflitos armados não mais geram mais tantos empregos, nem mesmo nas indústrias de armamentos e nas básicas. Só matam aos milhões, com armas intensivas de tecnologia.

As agressões a diversos países desde 2001, as quais contribuíram para elevadíssimos déficits orçamentários, visam elevar os lucros da indústria bélica, um dos grandes feudos da oligarquia, ademais dos objetivos imperiais.

A guerra em grande escala seria muito mais dispendiosa e tornou-se menos provável, porque surge uma superpotência, a China, além de ocorrer alguma recuperação do poder bélico da Rússia, ex-superpotência que propiciou o equilíbrio desaparecido no final dos anos 80.

Por fim, não há necessidade de novas guerras monstruosas, além de inúteis para sair da “crise”. A saída não é difícil, se se puser cobro à tirania política da oligarquia financeira.

Bastaria os Estados assumirem o controle de seus Tesouros e dos bancos centrais, extinguirem o grosso das dívidas que inviabilizam a sanidade das economias e promoverem investimentos produtivos estatais e privados no âmbito de uma economia descartelizada.

Fora disso, i.e., sem transformação das relações de poder, o cenário é mais depressão, e a dificuldade para essa transformação decorre da deterioração, em todos os aspectos, da vida dos povos subjugados pelo império.

Com efeito, a tirania conta, para afastar a revolução, com os frutos de investimentos, desde há um século, nas indústrias da comunicação social e do entretenimento e nos sistemas de “educação”, para destruir valores e culturas e embotar o discernimento, tudo isso potencializado por mais tecnologia.

A destruição das Torres Gêmeas em Nova York e o ataque ao Pentágono, realizados pelo Estado policial, há onze anos, são exemplos notáveis da produção de terror para justificar agressões imperiais e reforçar leis repressoras totalitárias.

É em cima dessas realidades, desconhecidas da maioria, que se monta nos EUA o mega-espetáculo das eleições presidenciais.

A eleição para presidente da maior superpotência mundial deveria ser evento de capital importância, merecedor da cobertura que tem, se houvesse real opção para os eleitores.

Trata-se, porém, de algo irrelevante, já que, como de hábito, os candidatos dos dois partidos estão igualmente vinculados à oligarquia concentradora, sediada em Wall Street, Londres e outras praças-chave da finança mundial.

Adriano Benayon é doutor em economia e autor de Globalização versus Desenvolvimento.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nem tudo está DOMINADO! Pois temos ao nosso lado Adriano Benayon(ACLARAdor).Somos gratos por cada vírgula de seus escritos, professor.
Abraço fraterno

Martim Berto Fuchs disse...

Prezado Adriano Benayon.
Novamente nos defrontamos com um artigo que trata das vicissitudes do mundo atual e coloca de forma correta o que está acontecendo. Uma análise perfeita dos efeitos e até de algumas de suas causas.
Digo algumas, porque a existência de partidos políticos é a primeira, é a causa mantenedora do status que vigora desde longa data. Você mesmo reconhece que de pouco adianta a existência dos 2 principais partidos políticos norte-americanos, pois só é escolhido candidato quem reza pela cartilha dos que realmente mandam.
Assim sendo, espero que venhas a concordar comigo, que a única solução democrática e viável é a extinção dos ditos partidos. Isto, em primeiro lugar. Depois, vem as outras soluções subseqüentes e que fazem parte do projeto de uma República verdadeiramente Democrática, na acepção correta do termo. Nada há ver com os países comunistas que assim se auto-denominavam.
Mais uma vez, convido-o a ler o projeto Capitalismo Social e quem sabe, comentá-lo e se concordarmos, divulgá-lo. É um novo paradigma. Não são remendos em uma velha colcha toda retalhada.

http://capitalismo-social.blogspot.com.br/2012/08/504-capsoc-novo-sistema-eleitoral.html