domingo, 11 de novembro de 2012

Missão e Consciência

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arlindo Montenegro

Aqui nos momentos de confortável encontro comigo mesmo, condição amparada pelos cabelos brancos que indicam os dias finais da jornada desta forma orgânica, situei num instante da primeira infância a escolha inconsciente da atitude que buscaria manter como parte da missão de vida: amar aos semelhantes, proteger a vida.

Havia um pé de tamarindo imenso, vetusto, espalhando a sombra secular no meio da praça. Além de ponto de encontro, as crianças buscavam as favas que abrigavam sementes cobertas com a pasta saborosa, enchendo a boca de saliva mesmo antes do contato com o cítrico adocicado das bagas de cor marrom.

Naquele instante estava sozinho, contemplando o espaço empoeirado da praça limitada pela estrada que atravessava o vilarejo. Do outro lado, a uns vinte metros, a fileira de casas, todas parecidas umas com as outras, embora pintadas com cores diferentes. As janelas abertas para o mundo pareciam olhos vigilantes. Foi então que o barulho distante de um motor feriu o silêncio. Um veículo passaria ali em poucos instantes.

Uma criaturinha de pés descalços, vestida em camisola branca, traje comum aos infantes naquele tempo e lugar distante, surgiu na praça para atravessar a estrada em direção às casas. O barulho do motor estava mais próximo. Corri sem pensar, ergui a pessoinha nos braços para conduzi-la em segurança na travessia. Na porta de uma das casas surgiu a mãe que chamava o filhote.

Baixei o guri que me olhou risonho com os olhos negros brilhantes. Logo se voltou e correu para os braços da mulher que o acolheu. Olhava para mim agradecida enquanto um caminhão passava deixando uma nuvem de poeira e fedor de gasolina empesteando os ares. Novo silêncio e um quê de satisfação intensa preencheu cada célula do meu corpo. Um sentimento soberano, que vem aparecendo como regente nos momentos de escolhas significativas.

O sentimento está aqui, neste momento em que as imagens desfilam, expondo com lucidez os significados que um dia foram inconscientes. Mais tarde ouvi de um mestre, que o valor do ato residia na intenção. Logo veio o exemplo de uma lenda envolvendo o padre José de Anchieta, que em suas andanças por Piratininga deparou com um sujeito que se enforcara.

O corpo estrebuchava na ponta da corda amarrada ao galho de uma árvore. Anchieta olhou e pensou: “Este aí não tem mais jeito”. Com a intenção de abreviar o sofrimento do infeliz, foi até a árvore e deu umas puxadas fortes na corda, provocando o desfecho mortal. Foi uma “boa intenção”. Talvez uma intenção que justificava as matanças nas “guerras santas”. Ou as torturas da “santa inquisição”.

É bem diferente da intenção de um pai que aplica rigor autoritário para corrigir um filho que apenas sente o castigo, sem alcançar o objetivo. O pai cumpre uma faceta de sua missão, mas frequentemente falha, esquecendo-se de ensinar as crias como formular suas missões de vida, demonstrando o passo a passo e o mérito decorrente de “ajudar aos outros”, compartilhar as idéias que balizam comportamentos e ações.

A intenção desta página é revelar uma particular convicção, que pode ser semelhante a muitas convicções de outros sobreviventes. Chega um dia em que a gente percebe que as boas ou más intenções humanas estão presentes, resultando em ganhos e perdas. O que pouca gente percebe é como as agências de inteligência, as fundações, a ONU e as decisões de alto nível da economia globalizada, golpeiam com eficácia cada pessoa em cada ponto do planeta.

Governantes e legisladores, à direita, esquerda, centro, mais pra lá ou mais pra cá, atuam como partes integrantes de um mesmo sistema. Até os mais radicais oponentes do capitalismo, do comunismo ou do poder industrial militar anglo americano que está acima de todos, desejariam lidar com realidades menos apavorantes, livres das chantagens e ameaças terroristas dos controladores reais que determinam a marcha dos acontecimentos.

Muita gente gostaria que os ataques violentos que destroem culturas e economias nacionais, impondo políticas e submissão no roteiro da nova ordem mundial, fossem apenas teorias. Mas o real é que as ditas “teorias da conspiração”, são mais que fantasia e aparecem a cada passo como realidades brutais, insanas.

A diferença entre pessoas responsáveis pelo poder reside nas variedades de caráter, na observação de princípios, nas crenças, no amor ao próximo, na retidão para recusar escolhas e compromissos secretos, do tipo comprar votos dos legisladores para manter-se no poder, participar de negociatas com o propósito de enriquecimento pessoal, esconder crimes utilizando os mecanismos do poder, emporcalhando os verdadeiros ideais democráticos e mutilando direitos de justiça igualitária.

Ao invés de orientar os cidadãos e educar as crianças para guiar-se por valores tradicionais, honrar a família e fortalecer o espírito, reconhecendo e respeitando as leis universais, existem legisladores e governantes que insistem em fomentar a ausência de religião, ausência de fé e adoção das ideologias que afastam da essência substancial. O respeito, a fé no transcendental, sem fanatismos, fortalece. Caso contrário, as pessoas são direcionadas para a violência.

O panorama que divisamos retrata milhões de crianças e pessoas violentadas, morrendo de fome ou de carência alimentar, de cânceres, tuberculose, febre amarela, dengue, pólio, AIDS, virose, bala perdida, acidentes de trânsito, homicídios, super doses de drogas, ações terroristas e guerras. As pessoas morrem antes de realizar todo o potencial, num planetinha ínfimo diante da grandeza imensurável do Universo.

Nossa história segue empacada como um jegue diante das fontes de discórdia sobre as culturas, políticas, fronteiras, crenças e ideologias, propiciando a exploração de uns poucos indivíduos sobre todos os povos.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

Um comentário:

Estéfani JOSÉ Agoston disse...

Seu palavreado, inspirado certamente, com verdades cristalinas, será que conduzirá alguém, inspirará? Fiquei tocado pelas imagens que traça, mas será que alguém que poderia ser tocado, terá acesso a elas?

Apreciaria que meus filhotes lessem suas palavras, que certamente em algum momento do futuro deles serão como uma bússola, pois modelos de pensamento são importantes, inspiradores.

A poucos dias conversando com uma pessoa que respeito, mencionou que pais hoje em dia não ligam mais para os filhos; estes ai de 13 anos em diante, saem, ficam dois dias fora de casa e no retorno os pais nem perguntam onde estiveram, o que fizeram e porque se ausentaram.

Sei não, a destruição da família, da Nação vai em estado adiantado.

http://www.grifao.com/2012/11/aqui-e-o-iraque-nao-se-iludam-estamos.html#more