sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Esperando Milagres


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Odemiro Fonseca

Numa charge, um professor de economia escreve no quadro dezenas de equações. Angustiados alunos tentam entender, quando o professor aponta: “E aqui acontece um milagre”. Este é o ensino de ciência econômica no Brasil, que se reflete em nossas políticas.

Governos e seus apaniguados usam ciência econômica como bêbados usam postes. Não em busca de luz, mas para, quando grogues, apoiarem-se. Ainda temos escolas ensinando “teoria da exploração” marxista; temos o domínio do “desenvolvimentismo” que acredita numa teoria de exploração entre países e justifica pesado protecionismo. Acham que o governo deve ser o empresário principal, a locomotiva do país. Falam em “dinheiro público” como se isso existisse.

Defendem ser o subsolo, solo, mercado interno e algumas estatais “patrimônios nacionais”, argumentos deliciosos para piratas, quadrilhas e a economia de compadrio. São ideologicamente orientados e a realidade deles debocha; depois temos os keynesianos ortodoxos, também ferozes nacionalistas; e finalmente keynesianos sintetizadores, vindos das universidades americanas. Acham que o mercado funciona a longo prazo, mas a curto prazo precisa de uma mãozinha. O longo prazo nunca chega. Justificam o intervencionismo argumentando que o mercado neoclássico não é perfeito, tende a crises e ao monopólio. Combatem soldados de palha.

Ninguém defende serem os mercados perfeitos. Os “novos institucionalistas” (Ronald Coase, Douglass North, Harold Demsetz) mostram que custos de transação existem porque mercados são imperfeitos e por isso precisamos de regras do jogo estáveis e iguais para todos. Explicam por que mesmas pessoas vivendo sob regras diferentes produzem resultados diferentes; a hipótese das “expectativas racionais” (Thomas Sargent, Robert Lucas) estuda como agentes econômicos antenados neutralizam e se aproveitam de governos hiperativos; George Stigler ganhou um Prêmio Nobel por explicar as distorções e mamatas criadas por reguladores; a “escolha pública”, de Kenneth Arrow, Gordon Tullock, James Buchanan, Mansur Olson há 60 anos pesquisa o papel dos governos e de conceitos como “grupos de interesse” (benefícios concentrados versus custos difusos) e “ignorantes racionais” ; os “austríacos” (apelido pejorativo dado pela escola histórica alemã) há 120 anos insistem que a liberdade para tomar decisões econômicas é vital para inovar e prosperar e como o mercado é um processo de troca de informações para melhorar o resultado de milhões de diárias decisões econômicas de pessoas e empresas (Ludwig Mises, Frederick Hayek, Leonard Liggio, Israel Kirzner). Explicam o papel da divisão do conhecimento. Alertam que se abrirmos mão de partes das liberdades econômicas, arriscamos perder liberdades pessoais. Não precisamos ir longe para ver (Argentina, Venezuela, Nicarágua e Cuba).

Nossa academia escandalosamente ignora as hipóteses dos que apontam para as gigantescas imperfeições dos governos. Além disso, desconfia de empresários, pois crê que não corram riscos e busquem sempre monopólios e boquinhas. Se empresas não corressem riscos, ser empresário seria um enorme privilégio. E competição não é algo linear nem contínuo como os neoclássicos achavam e empresários inovam para ter temporários monopólios, que só podem se tornar longos ou permanentes com a proteção do governo. Demsetz explica este fenômeno da competição.

A pretensão de políticos e economistas em achar que podem organizar o complexo mundo econômico exige crença em milagres ou enorme cara de pau. Talvez seja porque a ciência econômica desmoraliza aqueles no poder. Em 1975 (“O cidadão e o Estado"), Stigler observou que “o processo de mercado possui defeitos que devem ser melhorados, geralmente com mais liberdade e mais competição. As outras opções são mais governo e mais orações”. Orações pedindo milagres.


Odemiro Fonseca é Empresário. Originalmente publicado em O Globo em 25 de dezembro de 2014.

Um comentário:

Loumari disse...

No Curso de Medicina, o professor dirige-se ao aluno e pergunta:

- Quantos rins nós temos?

- Quatro! - responde o aluno.

- Quatro? - replica o professor, arrogante, daqueles que sentem prazer em gozar com os erros dos alunos.

- Tragam um fardo de palha, pois temos um burro na sala! - ordena o professor ao seu auxiliar.

- E para mim um cafezinho! - pediu o aluno.

O professor ficou furioso e expulsou-o da sala.

(O aluno era Aparício Torelly Aporelly (1895-1971), o 'Barão de Itararé')

Ao sair, o aluno ainda teve a audácia de corrigir o irritado mestre:

- O senhor perguntou-me quantos rins 'NÓS TEMOS'. Ora 'NÓS' temos quatro, dois meus e dois seus. 'NÓS' é uma expressão usada para o plural. Tenha um bom apetite e delicie-se com a palha.


Moral da História: A VIDA EXIGE MUITO MAIS COMPREENSÃO DO QUE CONHECIMENTO

(Às vezes as pessoas, por terem um pouco a mais de conhecimento ou acreditarem que o tem, acham-se no direito de subestimar os outros)