quarta-feira, 24 de junho de 2015

A KGB e o DGI na América Latina


“Quando Cristóvão Colombo descobriu Cuba, em um domingo, 28 de outubro de 1492, surpreendeu-se com seu encanto a tal ponto que a chamou de a mais bela terra que os olhos humanos contemplaram. Mas Colombo jamais poderia imaginar que, sob o regime da foi ce e do martelo, Cuba seria o mais fenomenal desastre na história do Continente” 
(George Schpatoff, “KGB-História Secreta”, 1999, Editora Juruá). 

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

O fato que talvez mais tenha contribuído para a penetração da KGB (Comitê de Segurança do Estado) na América Latina foi o ajustamento ideal ocorrido com um outro movimento revolucionário: o nacionalismo, cuja característica foi a de sempre se manifestar contra o atraso econômico e social da região.

Desde 1922, a União Soviética tudo fez para estabelecer uma cabeça-de-ponte na América Latina, somente conseguindo esse objetivo em 1959, em Cuba. A partir de então, a Doutrina Monroe – América para os americanos – simplesmente deixou de existir.

Em 1933, Fulgêncio Batista deflagrou em Cuba, com o apoio dos comunistas, a famosa “revolta dos sargentos” e, após ter-se tornado ditador, ajudou-os a assumir o controle dos 52 sindicatos então existentes. Vinte anos mais tarde, novamente como ditador, Batista julgou vantajoso tornar-se anticomunista e rompeu relações diplomáticas com a URSS. O Secretário-Geral do Partido Comunista Cubano – então PSP-Partido Socialista Popular -, Lázaro Cardenas, fugiu do país e exilou-se em Moscou.

Posteriormente, em 1959, chegaria a vez de Fulgêncio Batista fugir do país, quando Fidel Castro tomou o Poder.

O primeiro agente da KGB que estabeleceu contato com Fidel foi o kamarada Nikolai Leonov – isso, anos antes da revolução contra Batista -. Esse fato foi revelado pelo chefe da KGB no Brasil, entre 1983 e 1990, Vladimir Novikov (revista “Veja”, 12 de julho de 1995). No entanto, a primeira grande leva de kamaradas da União Soviética a visitar Cuba ocorreu em 1960, conduzida pelo chefe da Seção Latino-Americana do Ministério das Relações Exteriores, Alexander Alekseyev, chefiando um grande grupo de “conselheiros” para orientar Fidel a respeito da política externa. O grupo era formado por 78 kamaradas.

O regime de Fidel logo tornou-se repleto de estranhos acidentes: Camilo Cienfuegos, comandante do Exército Rebelde, morreu num misterioso acidente aéreo. Outro comandante, Hubert Matos, foi condenado a 20 anos de prisão. Vários destacados guerrilheiros acabaram presos, exilados ou morreram de forma enigmática. O líder comunista Aníbal Escalante caiu em desgraça e mergulhou no ostracismo. O ministro da Reforma Agrária, comandante Sorí-Marin, foi preso e fuzilado.

Foi nessa época que a prisão de La Cabaña ganhou projeção internacional. Em seus porões, o ex-comandante do Exército Rebelde, Abel Palomino, passou 30 anos de sua vida. E o companheiro Frank Pais desapareceu. Uma esquizofrenia ideológica, descrita por Marguerite Yourcenar em “A Obra em Negro”. 

A partir dos anos 60, a KGB instalou seu Estado-Maior para a América Latina em Havana e, a partir dali, passou a penetrar nos demais países do Continente, recorrendo a um operoso organismo de espionagem denominado DGI-Dirección General de Inteligência.

Durante a Guerra Fria 5.800 soviéticos estavam instalados em Cuba, entre oficiais, soldados e os imprescindíveis “técnicos” da KGB. Então, Cuba recebia do bloco soviético 8 de cada 10 dólares de seu orçamento, ao troco de sempre fazer, em matéria de política externa, o que Moscou determinava. Ao final dos anos 70, o regime cubano já estava financiando, sob a supervisão dos “técnicos” da KGB, 42 organizações armadas em 26 países.

A obsessão cubana pela espionagem remonta à década de 40, quando Fidel Castro, ainda estudante, era um freqüentador assíduo da rua Miramar nº 6, residência de Bachirov, embaixador soviético em Havana. Seu irmão, Raúl, recebeu treinamento no Instituto Internacional de Jijkov, na Checoslováquia. E Manuel Piñero Losada, chefe do DGI, após ser adestrado em uma escola da KGB, encarregou-se da supervisão direta dos primeiros 392 espiões cubanos no Hemisfério Sul.

Em 1969, um acordo secreto foi assinado entre Cuba e a União Soviética. O acordo estipulava que, independentemente da penetração cubana através do DGI, no Hemisfério, Moscou levaria avante sua própria política no chamado campo da Inteligência, livre de qualquer interferência de Havana. Como parte do acordo, a URSS proveria o auxílio econômico indispensável ao regime, em petróleo e outros produtos, estimado em cerca de 500 milhões de dólares por ano. Outra cláusula do acordo dizia respeito ao envio de cerca de 5 mil técnicos para dirigir os setores de “frente rural”, pesca, mineração e, sobretudo, a Inteligência. Ou seja, os serviços de espionagem e contra-espionagem cubanos. Uma exigência sine qua non referia-se à nomeação de consultores da KGB para o DGI, a fim de atribuir-lhe “a necessária estrutura de organismo com dimensão continental”. Tudo isso feneceu quando o kamarada Gorbachev pôs fim ao artificialismo parasitário da economia cubana.

O DGI mantinha seus escritórios na rua Línea, em Vedado. Outra seção do DGI passou a funcionar em Marianao, onde também existe uma escola para treinamento de espiões. Essa seção era dirigida por Alberto Boza-Hidalgo Gato, mais tarde integrante da delegação cubana nas Nações Unidas, expulso dos EUA por atividades de espionagem.

Os agentes do DGI são chamados de “oficiales”. São observados, todavia, por outros “oficiales”. O DGI divide o Hemisfério Ocidental em seis zonas, para fins de recrutamento e espionagem: Colômbia, Venezuela e Equador; Brasil e Uruguai; Argentina, Chile e Peru; República Dominicana, Haiti e Jamaica; Guatemala e América Central; Bolívia. Mantém escritórios de espionagem em sete capitais da Europa Ocidental, acobertados pela imunidade diplomática: Paris/Bruxelas, Roma, Lisboa, Madri, Genebra, Londres e Viena. Além disso, o DGI mantém escritórios no Canadá, com o objetivo principal de apoiar os “oficiales” que entram e saem dos EUA.

Com a instalação de fato e de direito da KGB em Cuba, a ilha foi transformada em um verdadeiro trampolim de agressões. Em Matanzas, nas cercanias de Havana, foi montado um campo de treinamento para terroristas estrangeiros supervisionado pelo coronel da KGB Viktor Simeonov. Um venezuelano, Manuel Celestino Marcano Carrasquel relata o que aprendeu durante tal curso: “participei de cursos de tática de guerrilha e espionagem, com aulas teóricas e práticas; aprendi a montar e desmontar armas curtas e longas... desde bombas caseiras de clorato, até granadas, bombas-relógio e coquetéis Molotov de todos os tipos. Também recebi instruções quanto ao campo da Inteligência: investigações e contra-investigações; guarás de explosivos, armas e dinheiro; caixas de correio para correspondência indireta na base da criptografia; além de fotografia, infiltração, falsificação de documentos, maquiagem, roupas, simulação de dialeto, fonética, etc... para falsa identidade” (“KGB-História Secreta”, de George Schpatoff, Juruá Editora, 1999).

Fidel Castro, a exemplo de Stalin, já recebeu, entre outros títulos, o de “primeiro cientista do país”. É citado como o primeiro em todos os campos da atividade humana. “El Comandante” é reverenciado e apresentado como um ser que paira acima dos demais mortais.

A espionagem interna em Cuba anda a passos largos. Os Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), criados em 1960, têm o objetivo de elevar a arte da delação a níveis nunca vistos. Trata-se de fazer com que os filhos delatem seus pais e os alunos a seus mestres. Os CDRs abastecem, através de quotas pré-estabelecidas, as 196 prisões existentes no país. No fim dos anos 90, havia nessa verdadeira ilha da fantasia 10.500 presos políticos, conforme dados de entidades de defesa dos direitos humanos. Além da intimidação, cárcere e fuzilamento, existem ainda as Brigadas de Resposta Rápida, um outro órgão auxiliar da repressão interna. Trata-se de grupos paramilitares que possuem incrível similitude com as SS nazistas dos anos 30. Apedrejam casas de suspeitos, espancam e disseminam o medo por toda a parte. Em 1978, os membros dos CDRs eram estimados em 500.000, enquanto os membros das Brigadas de Resposta Rápida eram cerca de 100.000. Essas duas formações são um verdadeiro exército de alcagüetes profissionais que, pouco a pouco, estão dividindo os cubanos em três categorias: prisioneiros, ex-prisioneiros e futuros prisioneiros.

Alem disso, Cuba também é a ilha dos mistérios. Até hoje permanecem sem explicação os suicídios do presidente Osvaldo Dorticós Torrado, o que permitiu a chegada de Fidel ao poder total, e de uma das filhas de Salvador Allende, exilada em Cuba e casada com um cubano, Luiz Fernandez Oña, que chefiou a guarda-pessoal de Allende. O próprio governo cubano reconheceu, em 1999, que o índice de suicídios em Cuba era o maior da América Latina.

Em Cuba, a palavra liberdade é sinônimo de heresia. A repressão, além de prender também mata. A Guarda-Costeira do regime abre fogo contra qualquer infeliz – homem, mulher, velho e criança – que, agarrado a pneus tenta escapar da ilha da fantasia. Os felizardos que conseguiram cruzar a cortina de tubarões superam o total de um milhão e duzentas mil pessoas. Todos fogem de Cuba, entre eles o brigadeiro Rafael del Pino, a própria irmã de Fidel, Juanita, e também Alina Revuelta, sua filha legítima. Se os pais do El Comandante fossem vivos, certamente fariam a mesma coisa. No entanto, somente até 1983, mais de 25 mil cubanos haviam perdido a vida no mar do Caribe no desespero de fugir do paraíso tropical.

Autoproclamada “primeiro território livre da América Latina”, a ilha da fantasia não foi mais foi mais do que uma sovietskaya guberniya, sob o controle ideológico, econômico e político da KGB.

Aliás, a filha de Fidel, Alina Revuelta, deixou um recado para todos aqueles que ainda vivem no belo lago da utopia: “O grande problema deste país é que várias gerações embarcaram na conquista de um sonho, mas só alcançaram um pesadelo, e não querem reconhecê-lo”. 

Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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