quarta-feira, 8 de julho de 2015

Grande parte da população quer pena de morte, arma, ditadura e se lixa para direitos humanos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ruth de Aquino

Chego ao Brasil. Pego táxi de cooperativa no Aeroporto Internacional Tom Jobim, nosso sempre velhusco Galeão, no Rio de Janeiro. Puxo conversa com o taxista. Seu nome não é revelado, por motivos óbvios. Ele não sabe que sou jornalista. O desabafo dura a corrida inteira.

“A economia tá parada, só um ou outro avião vem cheio. Nossa economia vive da corrupção. Sem propina, paralisa. Meu faturamento caiu 40%. Tínhamos na cooperativa um contrato com a Odebrecht. Foi cancelado agora. Tudo aqui neste país você precisa dar 10% a mais. Eu tinha de pagar também para a Odebrecht. Nossas corridas eram todas superfaturadas para o diretor que pegava o táxi levar o dele.”

“E a violência? Tá aqui em cima, olha (indicando o painel do carro, junto à janela), bem à vista, meu celular falso, para eu dar pra vagabundo. Todo dia tem algum arrastão na Linha Vermelha. Na minha casa, no Méier, não posso esperar o portão da garagem abrir para eu entrar. Já tive três carros roubados assim, à mão armada. Três.”

“Recuperei os carros roubados, mas tudo depenado. E não são os bandidos que depenam não. É a polícia. Eles tiram, antes de devolver, o tal kit PM. Rodas, rádio, tudo o que der para tirar. E a gente, para recuperar, precisa pagar à polícia a taxa de resgate. E a mídia não fala nada disso. Só sabe mesmo quem tá na rua, trabalhando.”

“Depois as autoridades vêm me falar das UPPs. Isso aí ninguém quer. Nem os bandidos nem os policiais. Tenho um sobrinho que saiu do Exército e não quer ficar em UPP. O que ele diz é: ‘Tio, nós somos humilhados ali. Jogam água, jogam mijo na gente. Não podemos dar um tiro que a gente vai preso. Ficamos ali só gastando combustível e enxugando gelo’.” 

“Isto aqui, se não ficar igual à China, não vai dar certo. Tem de ter uma ditadura rígida, pena perpétua, morte. Se os caras não ficarem com medo, vão continuar. Tem corrupção em tudo que é lugar. No Detran, nas delegacias, nos batalhões, nos hospitais. E o governo leva também o seu, por trás de toda essa engrenagem. Isso não vai acabar nunca. A não ser que a gente adote a seguinte regra para todo mundo: escreveu, não leu, o pau comeu.”

O taxista está revoltado. Com a Odebrecht, com a PM, com os governos, com os bandidos. É duro ouvir. Nem falo nada. Não adianta.

Lá de fora, acompanhamos a novela atual de maior audiência, o petrolão. Mais ex-diretores da Petrobras no xilindró. Prejuízo da corrupção sobe aos píncaros, R$ 19 bilhões. Surgem golpes simplórios contra quem mais necessita: promessas falsas de emprego, tirando R$ 20 de um, R$ 50 de outro. Os sanguessugas pagam fiança e respondem em liberdade. Assaltos a banco, tiroteios nas favelas, falência de empresas, novos aumentos de combustível e luz.

Lula atordoado, atacando Dilma. Dilma atordoada, atacando delatores. Congresso atordoado, vaivém na redução da maioridade penal. E toma mais provocação do Senado – aprovado o reajuste de 59% a 78% para os servidores do Judiciário, com impacto de R$ 25,7 bilhões nos cofres públicos. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os populistas cavaleiros do apocalipse, se unem por um único credo: hay gobierno, soy contra. Veta, Dilma, veta.

Enquanto isso, a mãe dos pobres resolve economizar R$ 8 bilhões em cima do abono salarial, devido neste semestre a quem ganha até dois salários mínimos. Devo, não nego, pago quando puder. Tudo pelo ajuste, para fechar as contas em 2015. Injusto.

Continua a esquizofrenia do país duplo. De um lado, ferro na iniciativa privada, desestímulo a quem quer abrir um negócio, burocracia enlouquecedora, impostos altíssimos cobrados de quem produz e sem beneficiar o povo. Do outro lado, benesses para servidores públicos, que já dispõem de aposentadoria integral e vitalícia.

O que mais choca, no entanto, é a miséria de nossa Educação. O relatório do Movimento Todos pela Educação é desolador. Mais de 2 milhões de crianças ainda estão fora das escolas. Em regiões carentes, as escolas são precárias, e o ensino de baixa qualidade. Entre 15 e 17 anos, 1,6 milhão abandonam os estudos. Só 9,3% dos que concluem o ensino médio sabem matemática. Só 27,2% dominam o português. Na outra ponta do ensino, a maior universidade federal do país, a UFRJ, com greve e obras paradas por corte de verbas, ameaça fechar em setembro, sem condições de pagar por limpeza, segurança, portaria.

Só confiarei num presidente que mude essa tragédia, de verdade. Uma maciça parcela da população (e não é a elite) quer hoje pena de morte, armas, ditadura e se lixa para direitos humanos. Também é resultado de falta de Educação. Cair na real não precisa ser cair no abismo. Acorda, Brasil. 


Ruth de Aquino é Jornalista. Originalmente publicado na revista Época em 3 de julho de 2015.

6 comentários:

Francisco Thomazini disse...

Cara...Mulher é sempre a mesma coisa. Isso não é machismo meu não! Se deixar com elas a coisa vai apenas deteriorando e regredindo lentamente! Elas pensam que as "coiss" dão em árvores! Tudo é fruto de luta de confronto, de hegemonia de uma coisa sobre a outra e isso significa FORÇA! Significa resistência , criatividade agressiva e inteligente e são essas coisas todas que a esmagadora quase totalidade das mulheres não tem! São massa de manobra do "Sistema", vestem a camisa da "coisa" e por "ela" até morrem! Por isso são as preferidas do sistema hoje! São mais baratas, relativamente eficientes, pouco questionadoras e fanáticas.

Maria Klyw disse...

Que me desculpe a Sra. De Aquino, mas estou bem mais preocupada com os " humanos direitos" meus e De todo mundo que deseja "ir e vir" e trabalhar em paz. Ensinar valores aos filhos, independe de boas escolas, conheço muita gente que vive em situação dificílima e nem por isso seus filhos optaram pelo crime. Pobreza nunca foi caminho direto e inexorável para a marginalidade. A esquerdalha bate nessa tecla, para, com isso, conseguir adeptos de uma seita que despreza tudo o que fez a civilização humana progredir. Querem conseguir dinheiro sem trabalhar, transformar mentiras em verdades e agredir e matar sem ser punido. Lutam pelo extermínio de um mundo que os colocou onde estão, podendo vociferar as maiores aberrações, sem a menor contestação!

Maria Klyw disse...

Sr. Francisco, sou mulher e concordo plenamente com o Sr, sem por isso me sentir menos mulher! Esse mantra de " coitadismo" já está " out"! Tá com pena do "anjo criminoso", que matou pai de família ou um jovem estudante? Leve o " menor em situação de confronto com a lei"(balela) para sua casa, adote-o, dê -lhe estudo, se acha que só isso resolve! Depois, mostre à sociedade que é uma heroína, por ter se transformado em "mãe " de um "EX"bandido. Fará bem à comunidade e ao seu ego, tão em busca de holofotes.

Anônimo disse...

Cleonice I Ferreira disse:
Concordo com Maria Klyw em todo seu comentário, conheço muitas pessoas que nem concluiran o primário e trabalham muito para viver, são honestas e tem muita dignidade.
Sempre escutei que educação vem de berço. O estudo secular complementa a de casa.
" A BUSCA PELOS DIREITOS HUMANOS É O PRIMEIRO REFÚGIO DOS CANALHAS."Samuel Johson
Que Deus ilumine a todos.

Anônimo disse...

Cleonice I Ferreira disse:
Concordo com Maria Klyw em todo seu comentário, conheço muitas pessoas que nem concluiran o primário e trabalham muito para viver, são honestas e tem muita dignidade.
Sempre escutei que educação vem de berço. O estudo secular complementa a de casa.
" A BUSCA PELOS DIREITOS HUMANOS É O PRIMEIRO REFÚGIO DOS CANALHAS."Samuel Johson
Que Deus ilumine a todos.

Anônimo disse...

Como disse o taxista: “Tem de ter uma ditadura rígida, pena perpétua, morte. Se os caras não ficarem com medos, vão continuar."

Não é nem para os caras ficarem "com medo"! É para o cidadão viver e entender que para tudo existem consequências e que dependendo dos seus atos, elas (as consequências) podem ser boas ou ruins. A escolha é dele, única e exclusivamente.

Mas lógico que nesse país, "vão continuar". O DNA desse povo é uma mistura que deu origem a um povo sem raça, literalmente...

... e os políticos são, o povo.