quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Amazônia, o General e o Boto


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Alfredo Lopes

É curioso lembrar que o projeto Zona Franca, um modelo que a Constituição de 1946 já havia desenhado para reduzir as desigualdades regionais entre Sudeste e Norte/Nordeste - com a adoção de mecanismos de renúncia fiscal - dormia na gaveta do descaso federal há 10 anos, e só voltou à tona em 1967, pela necessidade de "deter a cobiça internacional."

A refinaria instalada em Manaus pela dupla Moysés Israel e Isaac Sabba mostrou a importância do setor privado na mobilização das ações públicas complementares. De quebra, o continente estava fervendo com os conflitos esfarrapados da guerra fria entre Moscou e Washington, convivendo com as pretensões explícitas de corporações estrangeiras de acesso e posse da biodiversidade e recursos minerais. E o Brasil, reativo como sempre, criou a ZFM, sob a ideologia do “integrar para não entregar”, como dizia o slogan do governo militar.

Na semana passada, entre graves alertas para o descaso crônico da União, na reunião com as entidades do setor produtivo, a convite da FIEAM, o general Theóphilo de Oliveira destacou a necessidade de convidar os cientistas estrangeiros para enfrentar a obviedade dos promissores desafios. A paranoia da cobiça deu lugar à partilha de saber e fazer, num mundo sem fronteiras e carente de sólidas parcerias para fazer da pesquisa opções de prosperidade com projetos não predatórios, eficazes na promoção humana e no combate à sinistra economia do tráfico.

E o que é o Pró-Amazônia do general além desta percepção das potencialidades que ultrapassam US$ 4 trilhões? Aqui resiste o aquífero Içá-Solimões, algumas vezes maior que o segundo maior do Brasil, também situado na Amazônia, Alter-do-Chão, dizem estudos avançados da Geologia da USP. E a água se tornou o bem natural mais precioso do terceiro milênio.

Mas não é só de água que a Amazônia afoga a omissa do governo do Brasil. Seus minerais preciosos, estratégicos, vitais para, entre mil e uma utilidades, fertilizar a produção de alimentos; o banco genético para a nutracêutica, dermocosmética, piscicultura, fitoterapia e a medicina holística... sugerem que o Brasil continua marcando passo porque quer ou por inc ompetência gerencial. Sem infraestrutura de transporte rápida e adequada, banda larga civilizada e fontes inteligentes de energia, entretanto, essa riqueza e nada se equivalem.

Gilberto Mestrinho deixou algumas lições com a autoridade de Boto Navegador, identificado com os mistérios da Hileia. Um combatente ferrenho dessa onda perversa de tratar a floresta com o mesmo preservacionismo com que a Índia trata suas vacas, percebeu em vida a insensatez de estigmatizar cientistas como piratas da biodiversidade. E defendeu, como tem feito o CMA - Comando Militar da Amazônia -, de Theóphilo e Villas-Bôas, as promissoras parcerias internacionais com regras claras e propósitos transparentes de pesquisa e intervenção de boas práticas empreendedoras.

Dizia o Boto, há quase três décadas, no epílogo de Amazônia, Terra Verde Sonho da Humanidade, "O mundo civilizado, há 500 anos, reivindica apropriar-se da Amazônia e é compreensível esse anseio quando se tem o mínimo de informação a seu respeito. Como conduzir com inteligência a ocupação desse espaço, senão nas pesquisas, nos investimentos conjuntos, na identificação de talentos, e na mão de obra qualificada, na experiência prazerosa da poesia natural, sem xenofobia muito menos ingenuidade, uma oportunidade única para resgatar definitivamente o convívio saudável e urgente entre o homem e a natureza". E ponto.


Alfredo Lopes, Filósofo e ensaísta, é consultor do CIEAM - Centro da Indústria do Estado do Amazonas.  

Um comentário:

Estéfani JOSÉ Agoston disse...

Senhor Filósofo Alfredo Lopes: Boa parte dos filósofos e da Filosofia dedicam um espaço precioso a estudar o nadismo, a convergência do nada para o nada, a importância de pontes que levam do nada para lugar algum, assim tal ramo de estudos havia perdido sentido para mim, sentido que foi resgatado por meu professor na Metodista, prof. Johannes, sábio de alta cultura que levou-me à Ética e ao respeito por ramos da Filosofia e filósofos que auxiliaram no desenvolvimento do saber humano; tal como meu mestre prof. Johannes o senhor resgata a boa apreciação da questão amazônica com seu artigo simples, mas com bom conteúdo, o qual agradeço pois auxiliou-me a uma melhor compreensão da questão.