sábado, 5 de setembro de 2015

O Fel de Todos os Ódios


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

O brasileiro é um povo tão generoso que se comove mais com o drama alheio do que com o seu próprio.

A largueza do território, o clima ameno e a precariedade em quase tudo, levam-no a contornar as diversidades em vez de enfrentá-las.

Reage só quando é ferido nos seus brios.

Um desgoverno de merda, com trinta e nove aspones, que aluga caras limousines e mente sem parar, não tem moral para aumentar imposto nenhum.

A Anta é moribunda. Não sei o dia em que tomará um pé na rima; quem viver verá.

“Delend'Anta” diria o tribuno romano de vivo fosse.

Os espoliados de seus bens, de seus sonhos, vítimas dos precatórios não pagos e do antijudiciário, destilam todos os ódios justos e farão beber o fel aos culpados, arrogantes, debochados e malpensantes.


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

4 comentários:

Anônimo disse...

O Brasil não merece continuar sendo governado por uma presidente que se recusa a ler jornais e ouvir críticas ao seu governo. Se não lê os jornais , que são os que fazem as críticas mais suaves, imagine se lesse as verdades que são ditas nas redes sociais e blogs - acho que teria um choque de realidade e entenderia porque a sua popularidade se estacionou em apenas 7% da população. Se tivesse um pouco mais de discernimento iria decidir renunciar agora, antes de ser deposta. Sairia com um pouco mais de dignidade. Deixar o Brasil ser esfacelado por um orgulho inútil e por um projeto de poder que já não existe mais é loucura . Guardadas as devidas proporções, isso me lembra Sadan Hussein, no final de seu governo ditatorial. Dizia que estava ganhando a guerra, que iria acabar com os americanos, quando a derrota já estava à sua porta. Teve de se esconder num buraco e depois foi preso e executado. De tivesse tido menos orgulho no início da queda e pedido asilo político ou fugido, teria caído com mais dignidade. Tudo tem o seu início, meio e fim. Adiar o inevitável é prova de burrice ou da perda completa de sanidade mental.

Loumari disse...

Não Sabemos Ler o Mundo

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?

Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'
Moçambique n. 5 Jul 1955
Escritor/Biólogo

Loumari disse...

São Demasiado Pobres os Nossos Ricos

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos «ricos». Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-rícos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito concavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos!

São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

"Mia Couto, in 'Pensatempos'
Moçambique n. 5 Jul 1955
Escritor/Biólogo

Loumari disse...


A nossa verdadeira riqueza não está no que conseguimos obter seja em que campo for. Mas no amor que, através de nós, se pode espalhar pelo mundo e torná-lo melhor.
( Maria José Costa Félix)



O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.
(José Saramango)



O Mundo de hoje balança entre o desastre ambiental, a violência bruta das catástrofes naturais e políticas desastrosas. Vivemos no tempo da consagração plena das duplas morais, duplas contabilidades, duplas verdades.
(Eduardo Dâmaso)



Perante o mundo não lançamos o nosso olhar, mas apenas a nossa boca. Não nos melhoramos, mas apenas consumimos. O grito de Nietzsche já foi interpretado de mil formas. Deus morreu! Verificação de facto, mera glosa evangélica, anúncio de um programa, ou alerta, provavelmente cada uma destas versões tem a sua parte de verdade. Mas tenhamos a coragem de o afirmar. O problema da nossa época é as pessoas terem apagado Deus para ficarem em frente de si. O resultado é que ficam em geral à frente de bem pouca coisa.
(Alexandre Brandão da Veiga)



Matam-se pessoas ou faz-se-lhes mal; ou ajuda-se quem é possível ajudar se sobra vontade e desejo de o fazer neste nosso universo tão feito de alcatruzes da nora. Há um letreiro invisível: escolha o seu lugar. Escolha bem ou escolha mal porque terá sempre a sua apropriada claque.
(Denis Machado)



Deus é a lei e o legislador do Universo.
(Albert Einstein)


Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos.
(Albert Einstein)