terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Relatório da CIA - Como será o mundo em 2020 (III)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Insegurança Total

O estudo do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA– Como será o Mundo em 2020 - faz uma estimativa de que em 2020 haverá um sentimento mais profundo de insegurança, o qual poderá ser baseado tanto em percepções psicológicas como em ameaças físicas. Os aspectos psicológicos incluem preocupação com a segurança dos empregos, bem como temores relacionados à migração, entre populações locais e de imigrantes.

O terrorismo e os conflitos internos poderão interromper o processo de globalização e aumentar significativamente os custos de segurança associados ao comércio internacional, à manutenção do policiamento de fronteiras, e afetar negativamente os padrões de comércio e os mercados financeiros. Embora bem menos prováveis que os conflitos internos, conflitos entre as grandes potências criariam riscos à segurança mundial. O potencial para a proliferação de Armas de Destruição em Massa (ADM) aumentará ainda mais a sensação de insegurança.

Os fatores-chaves que motivam o terrorismo não mostram sinais de regredirem nas projeções para os próximos anos. Os especialistas entendem que a maioria dos grupos terroristas internacionais continuará a se identificar com o Islã radical. O fortalecimento da identidade muçulmana ocorrerá com a criação de uma estrutura para a disseminação da ideologia islâmica radical, tanto dentro como fora do Oriente Médio, incluindo regiões como a Europa Ocidental, o Sudeste Asiático e a Ásia Central.

Recorde-se que esse fortalecimento da identidade muçulmana tem sido acompanhado por um aprofundamento na solidariedade entre os muçulmanos envolvidos em lutas separatistas nacionais ou regionais, como na Palestina, Chechênia, Iraque, Caxemira e Mindanao. Especialistas ponderam que ele surgiu em resposta à repressão e ineficiência dos governos.

Uma insurgência radical em qualquer país muçulmano do Oriente Médio poderia fomentar uma onda de terrorismo na região e cristalizar a idéia de que um Novo Califado não seria apenas um sonho (OBS: essa previsão já está ocorrendo. E ainda não chegamos a 2020...).
Redes informais de fundações de caridade, madrassas, hawalas e outros mecanismos continuarão a proliferar e a ser explorados por elementos radicais. A alienação entre os jovens sem emprego aumentará a possibilidade de serem recrutados pelo terrorismo (OBS: previsão que também já está ocorrendo...).
Há indicações de que os radicais islâmicos desejam criar uma insurgência internacional, isto é, um movimento liderado pelos extremistas muçulmanos para derrubar diversos governos de população muçulmana, com argumentos que atrairão a maioria muçulmana (OBS: também já está ocorrendo...Vejam a criação do chamado Estado Islâmico).

A antiglobalização e a oposição às políticas norte-americanas poderão reunir um grande número de simpatizantes, financiadores e colaboradores dos terroristas. Por volta de 2020, a Al-Qaeda terá dado lugar a grupos extremistas islâmicos de inspiração semelhante, porém mais difusos, o que tenderá a tornar mais difícil e complicada a luta antiterrorista. A pressão dos esforços globais contraterroristas e antiterroristas, bem como o impacto da tecnologia da informação, fará com que a ameaça terrorista se torne cada vez menos centralizada, fazendo-a evoluir em um arranjo eclético de grupos, células e indivíduos. Ao mesmo tempo em que terão a vantagem de utilizar campos de treinamento em diversas partes do mundo, os terroristas precisarão de quartéis para planejar e executar suas operações. Os materiais de treinamento, direcionamento de alvos, instrução sobre operação de armamentos e obtenção de fundos se tornarão cada vez mais virtuais. Isto é, on-line.
Estima-se que o número de membros da Al-Qaeda continuará a diminuir, no entanto outros grupos nela inspirados, grupos regionais e indivíduos autoproclamados jihadistas – unidos pelo ódio aos regimes moderados e ao Ocidente -, deverão assumir os atentados terroristas que venham a ser praticados. Os membros da Al-Qaeda treinados no Afeganistão se dispersarão gradualmente, mas serão gradualmente substituídos, em parte, pelos que sobreviverão ao conflito no Iraque. Por volta de 2020, a Al-Qaeda deverá ter dado lugar a grupos extremistas islâmicos de inspiração semelhante, porém mais difusos, os quais se oporão à disseminação de muitos aspectos da globalização nas sociedades islâmicas tradicionais. É muito provável que o Iraque e outros possíveis conflitos poderão fornecer recrutas, campos de treinamento, conhecimentos técnicos e proficiência lingüística para uma nova classe de terroristas profissionais, para os quais a violência política se tornará um fim por si só (OBS: ainda não chegamos a 2020, mas o narrado neste parágrafo já está à vista de todos).
Os jihadistas estrangeiros – pessoas prontas para combater em qualquer lugar onde as terras muçulmanas estiverem sendo atacadas pelos que eles entendem ser ‘invasores infiéis’ – terão cada vez mais apoio dos muçulmanos que embora não sejam necessariamente simpáticos ao terrorismo.
Mesmo que o número de extremistas diminua, a ameaça terrorista deverá continuar. Através da Internet e de outras tecnologias de comunicação sem fio, indivíduos serão capazes de arregimentar membros para as suas causas mais rapidamente, em uma amplitude maior, global e de forma obscura (OBS: isso também já se observa em várias partes do mundo). A rápida dispersão da Biotecnologia e de outras fontes letais de tecnologia aumentará o potencial de um indivíduo não-afiliado a qualquer grupo terrorista causar um grande número de vítimas.

Treinamento, aquisição de armas, apoio logístico, aquisição de passaportes e outros documentos, além de dinheiro e apoio às suas operações, no passado dependiam de Estados terroristas. Em um mundo globalizado, grupos como o Hezbollah, que integra o governo e possui deputados no Parlamento do Líbano, serão cada vez mais auto-suficientes em relação a essas necessidades, podendo atuar da mesma forma que um governo para preservar uma ‘integridade plausível’, suprindo outros grupos terroristas, trabalhando através de terceiros para atingir seus objetivos, e até mesmo se comprometendo diplomaticamente com alguns governos.
Muitos atentados terroristas continuarão sendo executados, basicamente com armas convencionais e incorporando novos meios de estar à frente dos agentes antiterroristas. Os terroristas provavelmente se tornarão originais em relação aos seus antigos conceitos referentes às tecnologias e armas que empregarão, o planejamento, o apoio e a infra-estrutura aos atentados.

Homens-bomba e veículos carregados de explosivos continuarão sendo utilizados como armas assimétricas, mas os terroristas tenderão a empregar também novas tecnologias de explosivos, como veículos aéreos operados por controle remoto. Nesse sentido, o leque de opções deve crescer.

O zelo religioso dos terroristas muçulmanos extremistas aumenta seu desejo de perpetrar atentados que resultem em um número elevado de óbitos. Historicamente, terroristas inspirados pelo fervor religioso são mais destrutivos, pois os grupos aos quais pertencem os isentam de restrições.

Afora tudo isso, a tendência mais preocupante é o esforço que alguns grupos terroristas têm devotado à obtenção de armas de destruição em massa, capazes de provocar um grande número de mortes. O Bioterrorismo parece particularmente adequado aos pequenos grupos que operam com apoio da Inteligência de Estados terroristas. Na verdade, o laboratório dos bioterroristas poderá ser do tamanho de uma cozinha doméstica e a arma lá fabricada, menor que uma torradeira. Como normalmente há uma demora para o reconhecimento das doenças propagadas, em um ‘cenário de pesadelo’ um atentado poderia ter sucesso antes mesmo que as autoridades percebam que estão sob ataque.
Com os avanços nos projetos de armas nucleares simplificadas, os terroristas continuarão a tentar obter materiais e recursos para a fabricação dessas armas. Pode-se esperar, também, que eles continuem tentando comprar ou até mesmo roubar armas nucleares, particularmente da Rússia ou do Paquistão. Não é possível prever o uso desses recursos pelos terroristas antes de 2020.

Espera-se que os terroristas tentem também desenvolver e executar atentados cibernéticos contra centros mantenedores da infra-estrutura de informação global, inclusive Internet, redes de telecomunicações e sistemas de computação que controlam processos industriais importantes, como usinas elétricas e refinarias. A capacidade de responder a esses ataques tornará necessário o uso de tecnologia avançada para minorar a vantagem dos atacantes sobre os defensores. O principal campo de batalha cibernético do futuro será a informação dos próprios sistemas de computação. Novas tecnologias permitirão o acesso a dados vitais, seja por meio de equipamentos remotos, seja pela invasão de sistemas ligados à Internet, ou ainda por acesso através de espiões. Os EUA e seus interesses no exterior continuarão a ser os principais alvos dos terroristas, todavia mais atentados poderão ser dirigidos a países do Oriente Médio e da Europa Ocidental. 
O texto acima é um resumo das páginas 186 a 206 do livro O Relatório da CIA – Como será o Mundo em 2020, editora Ediouro, 2006


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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