quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Relatório da CIA - Como será o mundo em 2020 (Final)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Implicações Políticas

Como foi possível observar nesta série de quatro artigos sobre o tema Como será o Mundo em 2020, até lá a Ordem Internacional passará por grandes modificações. As maiores desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Percebe-se que as perspectivas para a prosperidade global e a tendência limitada de um conflito entre as grandes potências propiciam um ambiente favorável para enfrentar os futuros desafios.

Conforme os diversos cenários ilustraram, parece não ter sido difícil perceber diversas maneiras através das quais as grandes mudanças globais poderão começar a tomar forma, impulsionadas pelas forças de mudança nos próximos anos. De certa forma, os cenários apresentam diferentes lentes para a observação dos desenvolvimentos futuros, enfatizando a grande gama de fatores, dificuldades e incertezas que formarão a nova ordem global. Uma dessas lentes é a economia globalizada, outra é o papel na segurança mundial exercido pelos EUA, uma terceira é o papel da identidade social e religiosa, e uma quarta lente é a falência da ordem mundial em função da falta de segurança. Todas essas questões enfatizam vários pontos de mutação que podem influenciar o futuro.

Os pontos mais importantes são: o impacto do robusto crescimento econômico e da disseminação de tecnologias; a natureza e o alcance do terrorismo; o crime organizado; a fraqueza política de determinados países, particularmente os do Oriente Médio, Ásia Central e África; e o potencial risco de conflitos, inclusive entre nações.

Um crescimento econômico robusto provavelmente ajudaria a superar divisões e incluiria mais regiões e países na nova ordem mundial. Entretanto, as rápidas mudanças também podem produzir desordens, uma vez que uma das lições aprendidas no documento Como será o Mundo em 2020 é que a globalização deve ser administrada de modo a não sair dos trilhos.

A estrutura política internacional desenvolvida em todos os cenários sugere que outros atores que não sejam países continuarão a assumir um papel mais proeminente, apesar do fato de que eles não ocuparão o lugar das nações. Esses atores vão de terroristas, os quais continuarão a ser uma ameaça à segurança internacional, a Ongs e empresas multinacionais, exemplos de forças positivas a promover a disseminação da tecnologia, o progresso social e econômico e a assistência humanitária.

Os EUA e outros países continuarão a ser vulneráveis ao terrorismo internacional. As campanhas terroristas assumirão proporções nunca antes vistas, particularmente se envolverem o uso de armas de destruição em massa, uma das poucas tendências que poderiam ameaçar a globalização.

O esforço do contraterrorismo nos próximos anos – contra grupos terroristas os mais diversos, ligados mais por ideologia e tecnologia do que pela geografia – será um desafio maior do que o combate a uma organização centralizada, como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico. Quanto menos estreitas forem as relações entre os terroristas e suas células, mais difícil se tornará rastreá-los e combatê-los.

O sucesso da campanha global contra o terrorismo dependerá da capacidade dos países o combaterem em seu próprio território. Os esforços dos EUA no sentido de aumentar as forças de segurança de outras nações e de trabalhar com elas em suas prioridades – como combater o crime organizado – devem aumentar a cooperação.

Segundo ficou claro, a defesa interna dos EUA começará no exterior. Como já está se tornando mais difícil os terroristas entrarem em território norte-americano, eles poderão tentar atacar o país a partir de nações vizinhas.

Uma estratégia de contraterrorismo que aborde o problema em várias frentes oferece uma chance maior de conter, e até reduzir, a ameaça terrorista. O desenvolvimento de sistemas políticos mais abertos, maiores oportunidades econômicas e aumento da influência dos reformadores muçulmanos, seriam vistos de forma positiva pelas comunidades islâmicas que não apóiam os objetivos radicais dos extremistas muçulmanos.

O Oriente Médio não deverá ser o único campo de batalha onde será travada a luta entre extremistas e reformadores. Os muçulmanos europeus e de outras nacionalidades, sem ser do Oriente Médio, têm exercido um papel importante nos conflitos ideológicos internos. E o grau de integração nas sociedades européias percebido pelas minorias muçulmanas tende a influenciar sua decisão sobre o choque de civilizações ser ou não inevitável. Da mesma forma, cada vez mais o Sudeste Asiático será palco de operações terroristas.

Os problemas da proliferação de armas de destruição em massa e da conseqüente motivação por parte de alguns países em adquirir armas nucleares também estão relacionados à ameaça terrorista. Os esforços globais para criar barreiras que contenham a disseminação de armas de destruição em massa e para dissuadir outros países a desistirem da tentativa de obter essas armas e armas nucleares, continuarão a ser um desafio. A revolução nas comunicações permite a proliferação de certas vantagens para a realização de negócios ilícitos e para despistar as autoridades. Além disso, a ‘assistência’que os proliferadores fornecem diminuiria em muitos anos o tempo que alguns países levariam para desenvolver artefatos nucleares.

Do ponto de vista positivo, uma das características dos próximos anos é a maior disponibilidade de alta tecnologia, não apenas para os que a desenvolvem, mas também para os que a consomem. Os líderes tecnológicos não serão os únicos que poderão esperar benefícios. As sociedades que integrarem e aplicarem as novas tecnologias também colherão dividendos. As empresas globais terão um papel fundamental na promoção da prosperidade e na disseminação das inovações tecnológicas.

A paisagem geopolítica – dramaticamente alterada – também apresenta um grande desafio para o sistema internacional e para os EUA, tidos como os mantenedores da ordem mundial depois da Segunda Guerra. As feições que serão assumidas em 2020 – incluindo as conseqüências causadas pelas potências emergentes da Ásia, pelo entrincheiramento da Eurásia, pelas perturbações no Oriente Médio e pelas rupturas de parcerias transatlânticas – são ainda incertas e variáveis.

Com o relaxamento dos laços construídos durante a Guerra Fria, tende-se a estabelecer alianças não-tradicionais. O internacionalismo compartilhado no multilateralismo como pedra fundamental das relações internacionais é, por exemplo, encarado por alguns estudiosos como a base de um estreito relacionamento entre a Europa e a China.

As parcerias transatlânticas seriam um fator-chave para que Washington se mantenha no centro da política internacional, pois a capacidade de a Europa assumir mais responsabilidades econômicas não está clara e depende da capacidade da região em superar seus próprios problemas econômicos e demográficos, bem como de criar uma visão estratégica para seu papel no mundo.

Lidar com uma Ásia emergente poderá ser o maior desafio dos EUA entre todas as suas relações regionais. A Ásia é particularmente importante como impulsionadora das mudanças que ocorrerão nos próximos anos. Uma incerteza básica é se a emersão da China e da Índia ocorrerá tranqüilamente. Se elas se tornarão sócias ou rivais.

Apesar do aumento da interdependência, os crescentes investimentos asiáticos em pesquisas de alta tecnologia, aliados ao rápido crescimento dos mercados da região, aumentarão a competitividade da Ásia em diversas áreas dos campos técnico e econômico. A dependência dos EUA de petróleo estrangeiro e conforme aumenta a concorrência entre os consumidores e crescem os riscos de interrupção do abastecimento, deixará o país mais vulnerável.

No Oriente Médio, as reformas de mercado, o estabelecimento da democracia e os avanços no sentido de assegurar a paz entre os árabes e os israelenses, promoveriam uma maior harmonia nas relações internacionais. Alguns cenários enfatizam a possibilidade de o Oriente Médio continuar no centro do arco da instabilidade que se estende da África à Ásia Central e ao Sudeste Asiático, e é um campo fértil para atividades terroristas e proliferação de armas de destruição em massa. Nesse sentido, a concretização de um cenário semelhante ao Novo Califado seria o maior de todos os desafios. Ele não teria de ser completamente bem-sucedido para apresentar um sério desafio à ordem internacional, mas o debate ideológico transcultural se intensificaria com o crescimento das identidades religiosas. Também a revolução da tecnologia da informação deve aumentar o conflito entre os mundos ocidental e islâmico.

O apelo ao Califado seria diferente de uma região para outra, o que implicaria em abordagens diferenciadas pelos países ocidentais para se opor a ele. Os muçulmanos das regiões beneficiadas pela globalização, como algumas partes da Ásia e da Europa, certamente ficarão divididos entre a idéia de um Califado espiritual e as vantagens materiais de um mundo globalizado. Por outro lado, a proclamação de um Califado não diminuiria a possibilidade do terrorismo e, ao fomentar ainda mais conflitos, poderia criar uma nova geração de terroristas dispostos a atacar aqueles que se opuserem ao Califado, sejam eles muçulmanos ou não.

A Eurásia, especialmente a Ásia Central e o Cáucaso, provavelmente será uma área de crescentes preocupações por conta do grande número de países potencialmente falidos, pelo radicalismo expresso pelo islamismo radical e por sua importância estratégica como região por onde passam oleodutos e gasodutos para abastecer de energia tanto o Ocidente como o Oriente. As trajetórias desses países serão influenciadas por potências como a Rússia, Europa, China, Índia e EUA, que poderão atuar como agentes estabilizadores. A Rússia tende a ser particularmente ativa, buscando evitar que os problemas dos países eurasianos migrem para o seu território, mesmo apesar dos enormes problemas internos enfrentados pelos russos. Na parte ocidental da região, nações relativamente novas, como Ucrânia, Bielo-Rússia e Moldava tenderão a estabelecer um relacionamento mais estreito com a Europa a fim de diminuirem suas vulnerabilidades.

As nações da América Latina tenderão a se tornar mais diversificadas, dividindo-se entre as que puderam explorar as oportunidades advindas da globalização e prosperaram, e as que não tiveram, por um ou outro motivo, a mesma possibilidade e ficaram para trás. A governabilidade e a liderança distinguirão as sociedades que prosperarão das que não têm condições de se adaptar ao futuro. Finalmente, o número de conflitos internos e entre países têm diminuído, mas não se deve desprezar o seu potencial letal.

Em 2020, apesar de nenhum país ter condições de rivalizar sozinho o poderio militar norte-americano, cada vez mais nações estarão em posição de contrariar os EUA em suas regiões. A posse de armas químicas, biológicas e/ou nucleares por um número cada vez maior de países aumentará a dificuldade de qualquer ação militar empreendida pelos EUA e seus aliados. Alguns adversários dos EUA, sejam eles países ou outros atores, buscarão minimizar a força norte-americana e tentar explorar suas fraquezas usando estratégias assimétricas, como o terrorismo e a aquisição ilegal de armas de destruição em massa.

Adaptar a ordem mundial poderá ser muito difícil por conta do crescente número de temas éticos que têm o potencial de dividir a opinião pública internacional. Tais temas incluem: mudança ambiental e climática; clonagem e pesquisas com células-tronco; ameaças à privacidade por conta de recursos biotecnológicos e de tecnologia da informação; direitos humanos; leis internacionais sobre conflitos; e o papel das instituições multilaterais. Diversos desses temas têm potencial para dividir alianças tradicionais estabelecidas por motivos de segurança. Esses interesses divergentes aumentam a dificuldade de a comunidade internacional, inclusive os EUA, lidarem com coalizões múltiplas e competitivas para alcançar soluções para alguns problemas.

Embora alguns aspectos do antiamericanismo (1) expressos pela opinião pública mundial tendam a diminuir na medida em que a globalização for assumindo uma feição menos ocidental, a nova geração de líderes – diferentemente do período pós-Segunda Guerra Mundial – não encara os EUA como seu ‘libertador’ e tende, portanto, a divergir mais que seus predecessores em relação à visão de Washington sobre uma série de temas.

O texto acima é um resumo das páginas 214 a 229 do livro O Relatório da CIA – Como será o Mundo em 2020, editora Ediouro, 2006

(1) A pesquisa de opinião da Pew Research  realizada em todo o mundo revelou um forte aumento do antiamericanismo, especialmente no mundo muçulmano, mas também mostrou que os cidadãos dos países muçulmanos valorizam valores democráticos como liberdade de expressão, liberdade de imprensa, sistemas políticos múltiplos e tratamento igual a todos perante a lei. A grande maioria dos países muçulmanos é a favor de sistemas econômicos de livre mercado e crêem que a democracia ocidental pode funcionar para eles.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Loumari disse...

Fala-se muito contra o analfabetismo e ele é porventura um grande mal; mas não se repara em que há outros analfabetismos ainda mais graves: o de um especialista de determinada matéria que nada conhece do que os outros estudam ou o dos que vão morrer inconscientes do espectáculo em que Deus os jogou.
(Agostinho Silva)