sábado, 31 de outubro de 2015

Pátria Enlutada


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Henrique Abrão

Às vésperas do Finados, a Pátria brasileira está literalmente enlutada pelo modo como a cidadania e sociedade civil foram destratadas. E bastaram duas reeleições para levar o Brasil ao caos total, cuja população de baixa renda é infelizmente a maior vítima. Faltam serviços públicos, não há hospitais, remédios, e cirurgias não se realizam por falta de aparelhos e próteses, além de repercutir na saúde financeira das empresas.

Enquanto isso, não se entendem executivo e legislativo, na tentativa de inocentar culpados e deixar rolar a impunidade, com o repatriamento do dinheiro posto lá fora - fruto de crimes organizados ou remetidos ilicitamente via cabo por meio de doleiros. Esse quadro surrealista enfrenta o desafio da soberania, e embora seja um dos maiores engodos da carta cidadã nela escrever que todo o poder emana do povo e para seu bem estar será exercido, poderíamos substituir por nenhum poder vem do povo e contra ele é estabelecido.

A nossa situação é de extrema gravidade, afetando à justiça. Para alguns um estado de guerra, de penúria, pois a máquina da corrupção está sendo desmontada aos poucos e os ralos da impunidade substituídos pela força da lei.

A circunstância da bolsa de valores é incomum, com baixas seguidas e nenhuma propulsão de melhora. A governança corporativa foi definitivamente banida da ordem dos negócios e o que prevalece é o lucro fácil e rápido.

Quando indivíduos não preparados exercem o poder ou são colocados adredes em postos de fiscalização e regulamentação tudo é infinitamente difícil. Eis que gerações são colocadas de lado e décadas perdidas. Não há
muito o que se fazer. O dinheiro graúdo do BNDES jorrando para empresas de grande porte, e a equação maluca de dar financiamento para compra de carros, ao invés de se priorizar o transporte público, e a Caixa Econômica Federal patrocinando clubes de futebol.

Quanto mais o estado intervém pior a coisa fica. Ele não pode ser gerador de miséria como atualmente observamos mas de riqueza. Assim a
nossa miserabilidade é proveniente, quase exclusivamente, de governantes corruptos e incapazes que não enxergam um palmo a frente do nariz ou do próprio bolso.

Saudades de grandes estadistas que lá fora são regra e aqui exceção. Sem oposição vamos nos perdendo e um ano já se foi sem qualquer avanço no ajuste ou medidas de combate ao gasto supérfluo dos entes públicos. Cortes radicais que atingem a população de baixa renda, transporte público e tantas outras coisas que vão de encontro com o discurso populista e demagogo da reeleição.

A reeleição é prato típico de país rico e que prega e faz permear a democracia. E não de nações emergentes que não sabem aproveitar a oportunidade, exceto para perpetuação no poder e fisiologismo com privilégios incomuns aos que estão mais próximos, mas não aqueles em destaque por sabedoria e cultura.

A politização do judiciário é outra questão de suprema injustiça. A forma de nomeação, a escolha e nomeação, um procedimento de conveniência e sem oportunidade de se demonstrar discernimento, apenas troca de coleguismo e companheirismo, assim essa questão deve ser radicalmente alterada e mudada na constituição federal.

O Brasil chamado País do futuro agora se coloca entre os mais atrasados, perdendo quase dez posições e com o segundo déficit público do planeta, e se permite a gastos desnecessários, incompatíveis com nações emergentes.

Bilhões na fracassada copa do mundo o que se repetirá em 2016 nos jogos olímpicos. A massa de empregados despedidos é alarmante. Enquanto na crise européia impostos foram reduzidos e empregos criados, vivemos o sentido oposto mais tributos e menos empregos.

A ciranda financeira não se contenta quer juros maiores para o pagamento da impagável divida pública, a qual já supera 2 trilhões e logo-logo baterá o produto interno bruto brasileiro, diante do crescimento vegetativo negativo.

A última década nada temos para comemorar e precisaremos, no mínimo, de mais cinco anos, para sairmos do profundo buraco da paralisação e asfixia por falta de recursos locais e investimentos externos.Eis o retrato um tanto quanto sombrio, mas realista.

Temos otimismo na reconstrução de uma Pátria educadora e jamais enganadora como se viu na atual conjuntura. A Pátria de chuteiras hoje é a pátria enlutada pelo triste momento e a sina que nos persegue desde o descobrimento de nada pelo social e tudo para o pessoal, a descambar de vista o sentimento de patriotismo e consciência para com o dever de governar e ser honesto.


Carlos Henrique Abrão, Doutor em Direito pela USP com Especialização em Paris, é Desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo.

7 comentários:

Anônimo disse...

A cidadania seria melhor se o povo pudesse contar com um judiciário que não fosse tão incompetente... Esperamos uma reforma no judiciário e a modificação na lei da magistratura, pois se não criarem uma policia especializada o judiciário continuara sendo uma loja maçônica...

Loumari disse...

Que Todos os Dias Sejam Dias de Amor

João Brandão pergunta, propõe e decreta:
Se há o Dia dos Namorados, por que não haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta última palavra, que circula entre o carnal e o sublime?
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Platônicos, que também são exemplares à sua maneira, e dizem até que mais?
Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor?
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor.
E mais o Dia do Amor Tranqüilo, tão raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor Que Não Ousava Dizer o Seu Nome Mas Agora Ousa, na arrebentação geral do século?
Amor Complicado pede o seu Dia, não para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complicação cheia de vôos fora do horário e da visibilidade. Amor à Primeira Vista, o fulminante, bem que gostava de ter o seu, cortado de relâmpagos. E há motivos de sobra para se estabelecer o Dia do Amor ao Próximo, e o Próximo somos nós, quando nos esquecemos de nós mesmos, abjurando o enfezadíssimo Amor-Próprio.
Depressa, amigos criadores de Dias, criai o do Amor Livre, entendido como tal o que desata as correntes do interesse imediato, da discriminação racial e económica, ri das divisões políticas, das crenças separatórias, e planta o seu estandarte no cimo da cordilheira mais alta. Livre até no impulso egoístico da correspondência geométrica. Amor que nem a si mesmo se escraviza, na total doação que é converter-se no alvo, pois lá diz o que sabe: «Transforma-se o amador na coisa amada.»
Haja também um Dia para o Amor Não Correspondido, em que ele se console e crie alento para perseverar, se esta é a sua condição fatal, melhor direi, a sua graça. Pois todo Amor tem o seu ponto de luz, que às vezes se confunde com a sombra.

O Amor Impossível, exatamente por sua impossibilidade, merece a compensação de um Dia. Concederemos outro ao Amor Perfeito, que não precisa de mais, mergulhado que está na eternidade, a mover os sóis, independentemente da astrofísica. Ao Amor Imperfeito, síntese muito humana de tantos, retrato mal copiado do modelo divino, igualmente, se consagre um Dia generoso.
Amor à Glória não carece ter Dia, nem Amor ao Dinheiro e seu primo (ou irmão) Amor ao Poder. Eles se satisfazem, o primeiro com uma bolha de sabão, os outros dois com a mesa posta. Mas ao Amor faminto e sem talher, e ao que nenhuma iguaria lhe satisfaz, porque sua fome vai além dos alimentos e é a fome em si, a ansiosa procura do que não existe nem pode existir: um Dia para cada um.

E se mais Dias sobrarem, que sejam reservados para os Amores de que não me lembro no momento mas certamente existem, pois sendo o Amor infinito em sua finitude, isto é, fugindo ao tempo no tempo, e multiplicando-se em invenções, sutilezas, desvarios, enigmas e tudo mais, sempre haverá um Amor novo no sujeito amante, dentro do Amor que nele pousou e que cada manhã nasce outra vez, de sorte que o mesmo Amor é cada dia Outro sem deixar de ser o Antigo, e são muitos outros concentrados e não compendiados na potencialidade de amar. Assim sendo, recomendo e requeiro e decreto que todos os dias do ano sejam Dias do Amor, e não mais disso ou daquilo, como erradamente se convencionou e precisa ser corrigido. Tenho dito. Cumpra-se.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Poder Ultrajovem'
Brasil 31 Out 1902 // 17 Ago 1987
Escritor/Poeta/Cronista

Loumari disse...

Lutar com Palavras é a Luta Mais Vã

Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça.

"Carlos Drummind de Andrade, in 'Poesia Completa'
Brasil 31 Out 1902 // 17 Ago 1987
Escritor/Poeta/Cronista

Loumari disse...

O Inseguro

A eterna canção: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveitá-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para não fazer absolutamente nada — quer dizer, para sentir que não estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. Aí, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse...
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escavação tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substituí a noção de profundidade pela de altura. Não quis saber de minerações. Cravei os olhos no espaço, para acompanhar a primeira fase de ascensão dos foguetes, ver passar os satélites. Olhei muito em redor e para cima, nada para dentro ou para baixo. Adquiri uma ciência de ver, ou perdi outras, que não eram ciências, eram artes de vi-ver?

Bom, é verdade que as circunstâncias não foram lá muito propícias. Houve de tudo, menos sossego. Quem pôde dedicar-se a certos trabalhos de geologia moral, como dizia o velho Assis? Mas as circunstâncias nunca foram favoráveis a nada, nenhum progresso jamais se fez à sombra de copada mangueira. Havia guerra, e daí? Injustiça, e daí? Explosão de ressentimentos, recalques, revoltas, e daí? Era precisamente o instante para você afirmar-se, meu velho: ou revelando a sua palavra ou pesquisando a sua verdade. Mas você se deixou ir empurrado, machucado, embolado, bola caindo fora do gramado, ou, na melhor, resvalando na trave.

Eu sei que você cultivou — mas vamos capar essa alienação da terceira pessoa — que cultivei ótimos sentimentos, isso não há dúvida. Por mim, era tudo compota de alegria, licor de anjos, flores de ternura na face da Terra. Exagerei tanto nesse bem-querer universal que, se fosse obedecido, isto aqui se tornaria insuportável, de tão doce e melenguento. Corrigi mentalmente a aridez do mundo sem me dar ao trabalho de mover o dedo mindinho para corrigi-la de fato. O que me dói mais são meus bons sentimentos; envelhecendo, assemelham-se a calos. Ou pedras. Tão aéreos, como pesam! Devia ser proibido cultivá-los em estufa.

Ora, estou empretecendo demais as faltas do homem qualquer que presumo ser (não tão qualquer, afinal: tenho meus privilégios de pequeno-burguês, e quem disse que abro mão deles?). Devo alegar atenuantes em minha defesa. Não nasci descompromissado com o mundo tal qual é, em seu aspecto rebarbativo. Deram-me genes tais e quais, prefixaram-me condições de raça e meio social, prepararam-me setorialmente para ocupar certa posição na prateleira da vida. Meus ímpetos de inconformismo são traições a esse ser anterior e modelado, em que me invisto. Donde concluo que preciso reformar-me, antes de reformar os outros.

continua

Loumari disse...

Como? Procurei fazê-lo este ano? Que significa um ano para reforma de tal envergadura? Queria eu chegar a 1970 de estrutura nova, que nem edifício construído no lugar de casa velha? Às vezes me assalta uma espécie de simpatia criminosa pelas minhas velhas paredes, meus podres alicerces: é tão bom a gente ser a mula velha que pasta o capim do hábito, ir trotando em silêncio pela estrada sabida... A burrada moça que se aventure a outras pastagens, entre abismos. Pensando bem, não perdi meu ano, pastei sem risco. Mas este "pensando bem" dura um segundo. Quem pode terminar o ano satisfeito consigo mesmo? Quem não faltou, não se esqueceu de alguma coisa, não perdeu um gesto de ouro, não renunciou a um ato de grandeza? Agora estou generalizando uma omissão pessoal, procuro arrimar-me em possíveis faltas alheias. Olha aí esse malandro diante do espelho, procurando ver outras caras no lugar da sua! Mas é tempo de parar com a eterna canção — e celebrar: os que não morremos estamos — ó milagre — vivos. Depressa, o copo, a dose dupla!

"Carlos Drummond de Andrade, in 'O Poder Ultrajovem'
Brasil 31 Out 1902 // 17 Ago 1987
Escritor/Poeta/Cronista

Loumari disse...

Vivência Limitada

A. impossibilidade de participar de todas as combinações em desenvolvimento a qualquer instante numa grande cidade tem sido uma das dores de minha vida. Sofro como se sentisse em mim, como se houvesse em mim uma capacidade desmesurada de agir. Entretanto, na parte de ação que a vida me reserva, muitas vezes me abstenho e outras me confundo. [...] A ideia de que diariamente, a cada hora, a cada minuto e em cada lugar se realizam milhares de ações que me teriam profundamente interessado, de que eu certamente deveria tomar conhecimento e que entretanto jamais me serão comunicadas — basta para tirar o sabor a todas as perspectivas de ação que encontro à minha frente. O pouco que eu pudesse obter não compensaria jamais esse infinito perdido. Nem me consola o pensamento de que, entrando na confrontação simultânea de tantos acontecimentos, eu não pudesse sequer registrá-los, quanto mais dirigi-los à minha maneira ou mesmo tomar de cada um o aspecto singular, o tom e o desenho próprios, uma porção, mínima que fosse, de sua peculiar substância.

"Carlos Drummind de Andrade, in 'Confissões de Minas'
Brasil 31 Out 1902 // 17 Ago 1987
Escritor/Poeta/Cronista

samuel disse...

Em Paris? No folie bergère? ou talvez em curso vago na Sorbonne? Harvard, Boston, isso é coisa confiável. Paris? kkkk