sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A verdade sobre Vaccari


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net 
Por Renato Sant'Ana

Ainda que os petistas sejam pós-doutores na matéria, não se trata de expediente exclusivo do PT: talvez venhamos a testemunhar a aplicação do estratagema tanto na absolvição das pedaladas do governo quanto na salvação de Eduardo Cunha.

Para a maioria esmagadora dos brasileiros é escabroso. Mas não basta ficar no adjetivo: é preciso analisar e ver o que há por trás da conduta. Do que se trata?

Conforme divulgação no site do diretório do PT-SP, um punhado de petistas e sindicalistas que se intitulam "Amigos do Vaccari" marcaram para este dia 6 de novembro, em São Paulo, um ato em favor de João Vaccari Netto, ex-tesoureiro do PT, preso na Operação Lava-Jato. Ele já foi julgado e condenado em primeira instância a 15 anos e quatro meses de reclusão pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Os tais petistas e sindicalistas, que chamam o evento de "A verdade sobre Vaccari", torcem os fatos e apresentam o distinto como "preso político" (como assim?!). Há uma porção de falsidades nessa história.

REFRESCANDO A MEMÓRIA

Em fevereiro último, mediante investigações que implicaram coleta de documentos, o Ministério Público Federal (MPF) concluiu que Vaccari "foi responsável por operacionalizar (sic) o repasse de propinas ao Partido dos Trabalhadores, decorrentes de contratos firmados no âmbito da Petrobras".

De acordo com o MPF, Vaccari integrou um grupo de onze "operadores financeiros" que "movimentaram em seu nome e lavaram centenas de milhões de reais em detrimento da Petrobras". São as razões da ordem judicial, do juiz Sergio Moro, para desencadear (em 05/02/2015) a nona fase da Lava-Jato, denominada "My Way".

A investigação do MPF e da Polícia Federal que culminou com a My Way partiu dos depoimentos do ex-gerente da área de engenharia da Petrobras, Pedro José Barusco Filho, do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Os três depoentes afirmaram que Vaccari "era o operador responsável por viabilizar, no interesse do Partido dos Trabalhadores, o repasse de propinas decorrentes de contratos firmados pela Petrobras nos quais havia a participação da Diretoria de Serviços".

AGORA MUITA ATENÇÃO! No despacho que autorizou buscas e apreensões e prisões cautelares, Sergio Moro afirmou: "A palavra de criminosos colaboradores deve ser vista com cuidado. Entretanto, no presente caso, reuniu o Ministério Público Federal um número significativo de documentos que amparam as afirmações acima, a maior parte consistente em documentos e extratos fornecidos pelos criminosos colaboradores".

Da petição que suscitou a Operação My Way, assinada por nove membros do MPF que integram a força-tarefa da Lava-Jato, consta que dez "operadores" representavam interesses de empreiteiras diversas, enquanto Vaccari atuava em favor do PT. Os "operadores", conforme a investigação, ajudaram a financiar Vaccari e o PT, o ex-gerente Pedro Barusco, o ex-diretor de Serviços, o petista Renato Duque, e o ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, dentre outros. Consta, também, que as atividades desse grupo revelam "crimes de cartel, corrupção passiva e ativa, fraude em licitações, contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e/ou documental e organização criminosa". É pouco?

BREVES CONSIDERAÇÕES

1. Saliente-se que, como visto acima, todos os atos processuais que levaram à prisão de Vaccari, à condenação de primeira instância e à decisão de mantê-lo na cadeia basearam-se em DOCUMENTOS e obedeceram os ritos do processo.

2. É, pois, patético, vergonhoso, bizarro, debochado, é um abuso que venham apresentar o ex-tesoureiro do PT como "preso político". Nada mais falso! Naturalmente, haverá juristas respeitáveis que poderão ter, nesse caso, entendimento diverso do juiz, sustentando eles a "desnecessidade" da prisão de Vaccari em vista de o preso ainda poder recorrer da condenação (da primeira instância). Todavia, é preciso dizer com máxima ênfase: ABSOLUTAMENTE NENHUM JURISTA HONESTO, SÉRIO, AINDA QUE COM UMA FORMAÇÃO APENAS RAZOÁVEL, NENHUM SUSTENTARÁ A TESE DE VACCARI SER um PRESO POLÍTICO! Qual é o propósito dessa falsificação? Concordemos ou não com os fundamentos da sentença, a decisão do juiz Sérgio Moro é, sim, jurídica, não política.

3. Surge uma curiosidade: que dirão os "amigos", se Vaccari for condenado no processo da Bancoop? Explico. Ele é réu noutro processo criminal: contra ex-diretores da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop). Ali, Vaccari é acusado por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. O crime houve; muitos TRABALHADORES foram lesados nas economias de uma vida inteira (pagaram por um apartamento, mas não receberam); Vaccari era da diretoria da Bancoop envolvida nos fatos. Não se trata, aqui, de antecipar um julgamento, mas de reconhecer a provável condenação.

4. Emídio de Souza, presidente do PT paulista, fez ainda duas declarações: (a) que o evento não é oficial da sigla e (b) que o "PT não tem vergonha" de defender o ex-tesoureiro - pura encenação. Ora, o evento comemorativo dos 35 anos do PT (06/02/2015) era "oficial da sigla" e lá, poucas horas depois de Vaccari haver comparecido sob coerção para depor na Lava-Jato, houve manifestações de desagravo ao ex-tesoureiro.

5. Emídio de Souza ainda diz "Não temos do que nos envergonhar, pois ele trabalhou rigorosamente dentro das regras". Que "regras"? Vem a pista: o de sempre, ele invoca a fraude dos outros, afirmando que o ex-governador tucano Eduardo Azeredo ainda não foi julgado pelo chamado "mensalão mineiro" e que responde ao processo solto. Assemelha-se ao argumento das pedaladas - que mercenários da base aliada prontificam-se a acolher - segundo o qual o PT pode cometer crimes de responsabilidade em vista de outros governos haverem feito o mesmo.

6. Conforme se lê no convite, "Defender Vaccari é defender o legado da esquerda do PT e da democracia". Surgem dúvidas: se existe a "esquerda do PT", qual será a sua "direita"? E o que entenderá por "democracia" o presidente do PT-SP? Numa coisa ele está correto: estão defendendo, sim, o legado do PT, isto é, o desastre que os brasileiros estão experimentando na carne, fruto de um projeto de poder, não de um projeto de país.

7. Ainda que os petistas sejam pós-doutores na matéria, não se trata de expediente exclusivo do PT: talvez venhamos a testemunhar a aplicação do estratagema tanto na absolvição das pedaladas do governo quanto na salvação de Eduardo Cunha. Qual é a esperteza? A fala de Emídio de Souza, o texto do convite, a farsa do "preso político", o manifesto no todo, além de apostar na desinformação da maioria (com chance mínima de colar), pretende oferecer um argumento para os mais fanáticos manterem suas crenças e seguirem defendendo o projeto petista de poder. Igualmente, pode ser útil para subsidiar as desculpas esfarrapadas daqueles aliados que, por razões impublicáveis, avalizam as falcatruas governamentais.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

5 comentários:

Anônimo disse...

Observações muito pertinentes. É dificil aceitarmos o momento pelo qual passa a política brasileira. O autor do texto foi muito perspicaz em chamar a atenção ao fato que o PT no poder não estabeleceu um projeto de país e sim, um projeto de poder. Vale muito a pena todos os brasileiros refletirem sobre isso.

Loumari disse...

Stratagème est une science à l’intérieur de science politique.
- Ruse de guerre ayant pour objet de tromper l'ennemi.
- Combinaison habile mise en œuvre pour obtenir un avantage : User de stratagèmes pour se faire élire.

Loumari disse...

Estratagema é uma ciência dentro da ciência política.
Fingimento projectado para enganar o inimigo.
Combinações de inteligências aplicadas para ganhar uma vantagem: estratagemas do utilizador para ser eleito.

Arte de combinar a acção de forças militares para atingir um objectivo de guerra determinada pelo poder político.
Arte para coordenar a acção de pessoas militares, políticas, econômicas e jurídicas envolvidas na condução da guerra ou a preparação da defesa de uma nação ou de uma coalizão.
Arte para coordenar as acções, manobrar com habilidade para alcançar um objectivo. "A estratégia eleitoral"
Em teoria dos jogos, todas as decisões tomadas com base em premissas de comportamento de pessoas interessadas em uma situação específica.
Antes de ser usado em um contexto civil (estratégia financeira, estratégia industrial, estratégia de comunicação, etc.), a estratégia de longo prazo (a partir do Stratos grego, exército e agein, rígido) tem um sentido militar. Para Clausewitz, a táctica é a teoria relativa à utilização de forças armadas no engajamento. A estratégia é a teoria sobre a utilização dos compromissos ao serviço da guerra.



Em arte não nos sujeitamos às leis do mundo, mas àquelas da arte, que está vinculada às leis da consciência.
"V. B. Chklovski"
Russia 1893 // 1984
Escritor/Crítico

rolusanro disse...

A loção após barba destes "camaradas" deve ser Jimo Anti-cupim, pois são uns verdadeiros caras-de-pau, com coragem para defender publicamente esta podridão que o PT instalou no país.

castro disse...

Ah! O estratagema é o roubo, que por estar atrelado a um objetivo maior e mais justo, não precisa estar sujeito às leis.