terça-feira, 10 de novembro de 2015

Para ouvir os cientistas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fernando Barros

O Brasil foi convocado para alimentar o mundo. E novas projeções demográficas da ONU apontam para 9,7 bilhões de habitantes, em 2050; a China liberou o segundo filho; a renda cresce na Ásia, América Latina e África.

Ampliar a um só tempo a produção de alimentos e a sustentabilidade é missão desafiadora. E complexa: biotecnologia, internet das coisas, gestão e planejamento terão que traduzir essa chance histórica em bem-estar, sequestro de carbono, renda e emprego.

Há que priorizar a agenda da ciência e tecnologia no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e na sociedade. “Para avançar, temos que conhecer nossos biomas”, diz Alysson Paolinelli, ganhador do World Food Prize, reputado no mundo inteiro por liderar a construção das bases da agricultura tropical sustentável, hoje pilar da segurança alimentar global. E não podemos esperar mais: “A resposta às rupturas é a velocidade”, diz Maurício Lopes, presidente da Embrapa.

Para Roberto Rodrigues, “não basta falar, é preciso agir”. E irrigar o debate público: “Informação de qualidade existe, mas não organizada na direção da sociedade”, diz Paulo Romano, do Fórum do Futuro.

Cleber Soares, da Embrapa Gado de Corte, exemplifica: “Já produzimos carne em ciclo virtuoso de carbono; a Plataforma de Integração Ciência/Natureza é mágica: faz mais com menos — e desmatamento zero”. Mas, “falta decodificar os dados, trazer os jovens para a causa”, diz José Peres, da Embrapa Cerrados.

Antecipar cenários é crucial. Diego Árias, do Banco Mundial, e Pedro Abel, da Embrapa, alertam para a gestão multidimensional dos riscos. “Em dez anos, a impressora 3D tomará o lugar do fogão em nossas casas. Estamos preparando profissionais para isso?”, pergunta Márcio Miranda, do Centro Geral de Estudos Estratégicos. Ele dirigiu o Projeto Alimentos (20 instituições e 120 pesquisadores), um mapa de como produzir mais e de forma mais saudável, funcional, rastreada e customizada. “Há um abismo entre as soluções da ciência e a percepção da sociedade”, lamenta Evaldo Vilela, gestor do Prêmio Novos Talentos para o Alimento Sustentável.

O Fórum do Futuro, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultural e o Grupo de Países do Sul debatem como Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia entregarão 60% da demanda suplementar. O lastro é o método científico, que parte da ignorância para o conhecimento; o risco, a qualidade do debate pautado pela ideologia (que parte do dogma) e por argumentos nutricionais e ambientalistas ad terrorem.

A comunicação virou a quarta dimensão da sustentabilidade. A crise cognitiva instalada, a mãe de todas as crises. A desconexão entre realidade e discurso mina a capacidade de gestão, de planejamento; sabota a visão de futuro.

Do EI ao MST; da invasão do Iraque à crise dos imigrantes — um tenebroso oceano separa o significado real dos fatos da versão midiática captada pela opinião pública. Para onde vamos? O que realmente representam as escolhas de hoje para a sociedade queremos construir? O Brasil nunca precisou tanto da opinião dos seus cientistas.


Fernando Barros é gerente executivo do Fórum do Futuro. Originalmente publicado em O Globo em 7 de novembro de 2015.

Nenhum comentário: