terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Entrelinhas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

Mesmo sem querer, os políticos acabam dizendo a que vêm. O problema é interpretar o que eles verbalizam e compreender as entrelinhas. Li uma dessas frases que dizem mais do que falam e só acreditei que era do Eduardo Suplicy porque a encontrei no blog de Ricardo Noblat, fonte confiável. Eis o que disse:

"Por causa das denúncias ligadas a operação Lava Jato, criou-se uma imagem do PT muito negativa, principalmente nos lugares onde os grandes meios de comunicação estão sediados. Esses meios destacaram muito isso junto a opinião pública e tivemos esse efeito que eu chamei de tsunami sobre o PT, mas acho que vamos dar a volta por cima."


Pergunta-se: a causa da "imagem muito negativa do PT" está nas "denúncias ligadas a operação Lava Jato" ou nos crimes investigados naquela operação? Serão as denúncias que causam dano ou será a corrupção que plasma a imagem negativa do PT? Não é jogo de palavras, não! Claro, se não houvesse as denúncias, e a ignorância fosse geral, o PT estaria nadando de braçada na impunidade. Mas as "denúncias" só ocorrem porque existem os FATOS, os quais são a causa primeira. No entanto, Suplicy não critica os FATOS (os desvios do seu partido), nada de autocrítica. Só faltou ele culpar a Polícia Federal, o Ministério Público e o juiz Sergio Moro, que só estão cumprindo o que a lei determina.

Eduardo Suplicy tem mais de 70 anos, apresenta-se como sociólogo e foi senador por mais de duas décadas: ele não tem direito à ingenuidade. É devido, pois, cobrar-lhe o sentido exato de cada palavra pronunciada.

Para ser justo, lembro que estou examinando uma frase fora de seu contexto. Cuido de não avançar o sinal. Mas não haverá exagero em questionar: quererá Eduardo Suplicy que as denúncias sejam omitidas para maior conforto do seu partido? Ele, que sempre ostentou um verniz de moderação, não deveria antes e acima de tudo louvar a sobrevivente liberdade de imprensa? Na percepção do ex-senador, estará o PT sendo  uma vítima da ação dos "grandes meios de comunicação"? A resposta a tais indagações é óbvia, embora sabidamente negada por alguns que se agarram emocionalmente às ideias, isto é, os que não conseguem enxergar a realidade com as lentes da razão.

Outra pergunta: o que terá levado Suplicy a localizar o deterioro da imagem do PT "principalmente nos lugares onde os grandes meios de comunicação estão sediados"? Até onde se sabe, o desencanto com o PT é generalizado. Aliás, algumas pesquisas, em dado momento, mostraram que a perda de popularidade - com aumento da rejeição - foi mais acentuada no Nordeste. Suponho que "os grandes meios de comunicação estão sediados" do Sudeste para baixo. Não sei. Só sei que, para a maioria, caiu a máscara petista. Em definitivo, o seu partido nada tem de vítima.

Suplicy sempre pareceu um sujeito não-agressivo, lento e um pouco excêntrico. Embora não faça outra coisa, é bem provável que não tenha deliberada e conscientemente a intenção de ser mais um a repetir os falsos clichês que a ideologia impõe. Não me lembro de vê-lo falar - como de hábito o fazem Lula e seus periféricos - de "a grande mídia", a "mídia monopolista", a "mídia a serviço das oligarquias", essas baboseiras que pouco a pouco perdem efeito porque a população percebe a malícia do discurso. Entretanto, agora Suplicy está, sim, refletindo a instituição a que está vinculado. Sua fala inverossímil reforça a prédica do partido que sistematicamente diaboliza a imprensa - embora dela receba permanentes favores.

Sem chegar a ser um ideólogo, ele faz bem o seu papel ideológico de forjar uma expressão para o fim de criar uma crença quando diz "efeito que eu chamei de tsunami sobre o PT". Belo. Fixa uma imagem. Apresenta o PT como agente passivo e vítima. Dribla a reflexão crítica de um bom número de pessoas. Há sinais, porém, de que o único efeito possível é o aplauso daqueles que já professam sua fé no partido - pessoas portadoras de atrofia da racionalidade. Discurso que já não convence quem tem autonomia de pensamento. Não funciona como propaganda ideológica - ao menos não como antes.

Resta indagar: o que Suplicy quer dizer com "acho que vamos dar a volta por cima"? Estará pensando numa completa reformulação do PT ou numa propaganda que melhore a sua posição nas pesquisas? Há duas coisas que certamente não vão ocorrer: o PT não vai fazer uma limpa e excluir os trapaceiros; nem essa gente vai se regenerar. Em suma, o PT não poderá
mudar a própria natureza.

Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

4 comentários:

Maria Klyw disse...

Suplicy? Múmia stalinista que já deveria ter sido esquecida, se não fosse parte da imprensa conivente. DESPAUTÉRIO, teu sinônimo é SUPLICY!

castro disse...

Excelente análise do discurso do ex-senador, esmiuçando o significado de cada "pétala" falada. Quando surgiu, Suplici parecia, com seu jeito lento, um intelectual em meio à truculência petista. O tempo serviu para desmascará-los todos.

Carlos Adyl Quaglia disse...

Fica a grande questão - que, a propósito, não faz a mínima diferença na minha vida: "Suplicy é um homem de bem?".

Mello disse...

Bom comentário. Parabéns.