sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Mossad - Operação Nêutron


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro MOSSAD – Os Carrascos do Kidon, de autoria de Eric Frattini, conferencista, palestrante, professor, ensaísta e romancista. Foi analista político, correspondente no Oriente Médio e residente, durante vários anos, em Beirute, Nicósia e Jerusalém. Ministra palestras e cursos sobre Segurança e Terrorismo Islâmico para diversas Forças Policiais, de Segurança e de Inteligência da Espanha, de Portugal, da Romênia e dos EUA. É autor de vários livros, publicados em diferentes países.

Eis o texto:

Quando, em agosto de 2002, Meir Dagan, teve o seu primeiro encontro, já na posição de memuneh (diretor) do MOSSAD, com aquele que seria o seu novo chefe, o primeiro-ministro Ariel Sharon, ouviu as claras diretrizes estabelecidas por este: “Os seus principais alvos como novo chefe do MOSSAD, serão o Irã nuclear e o Irã nuclear”, disse. A partir desse momento o novo memuneh soube qual era claramente a função primordial dos seus katsa (acrônimo de Katzin Issuf ou oficial de serviços especiais), o de evitar que o governo de Teerã alcançasse o poder nuclear, o que poderia desestabilizar a região. Se o MOSSAD e o KIDON - subunidade de assassinos da METSADA -, unidade de operações especiais do MOSSAD, o departamento mais secreto da espionagem israelense, seu braço executor, não conseguissem acabar com o programa nuclear iraniano, pelo menos fariam todo o possível para atrasar o seu desenvolvimento.

Com Benjamim Netanyahu ocupando o gabinete de Primeiro-Ministro e Meir Dagan como memuneh do MOSSAD, Israel não mudaria um centímetro da estratégia do MOSSAD a respeito do programa nuclear iraniano. Muito pelo contrário. Os dois alvos seriam Majid Shahriari e Fereydoon Abbasi Davani.
Majid Shahriari, de 40 anos e especialista em física quântica, trabalhava para a Comissão de Energia Atômica do Irã, especializando-se no transporte de nêutrons. Fereydoon Abbasi Davani, de 52 anos, era um especialista em mísseis balísticos elasers, e lecionava na Universidade Shahid  Beheshti de Teerã.

Além disso, Shahriari fazia parte do Conselho Consultivo da Universidade de Defesa Nacional, dependente do Ministério da Defesa iraniano e usada como banco de recrutamento de futuros cientistas especialistas no desenvolvimento de armas de destruição em massa. O dia escolhido para o ataque foi segunda-feira, 29 de novembro.

As execuções de Shahriari e de Abbasi deveriam ocorrer ao mesmo tempo e de forma cronometrada. Às 7 horas da manhã, Majid Shahriari e a esposa saíram de casa e entraram num carro Peugeot verde. Por volta das 7:20, Fereydoon Abbasi Davani, também acompanhado da esposa, saiu de casa e entrou no seu carro Daihatsu branco. Nenhum dos dois cientistas se deu conta que eram seguidos por motocicletas, com dois homens em cada uma delas. Os passageiros das duas motocicletas carregavam um objeto nas mãos, dentro de sacos plásticos.

O Peugeot entrou na avenida Artesh, enquanto o Daihatsu entrou numa rua estreita do bairro de Velenyak, a noroeste da capital. Em certo momento, a motocicleta que seguia o Peugeot acelerou no instante em que o passageiro de trás tirou um artefato magnético e o colocou na porta do motorista. A mesma cena aconteceu na rua Velenyak, mas o acompanhante do motociclista não conseguiu colocar corretamente a mina magnética à altura da porta do motorista devido à proximidade de uma viatura policial.

Com uma diferença de um minuto, os dois artefatos explodiram, provocando sérios danos em ambos os carros. Majid Shahriari morreu no ato, enquanto Fereydoon Abbasi Davani ficou gravemente ferido.

Os artefatos usados para matar os dois cientistas eram equipamentos muito leves e de fácil manuseio, em cujo interior se armazenava um potente explosivo plástico. Os artefatos tinham um imã poderoso, que permitia a adesão da mina a qualquer superfície metálica, plana ou curva, com rugosidades ou sem elas. A localização dos imãs permitia adaptar as minas a qualquer posição e ângulo.

Entre os imãs encontrava-se o cone de descarga, por onde se projetava a maior parte da potência explosiva e incendiária da mina em direção ao objeto sobre o qual estava aderido. Os artefatos estavam providos de uma espoleta que permitia regular a explosão. Convenientemente regulada, a espoleta fazia com que as minas explodissem dois, três ou quatro minutos depois, dando tempo suficiente aos motociclistas para estarem a salvo das ondas de choque.

Meir Javedanfar, analista israelense e especialista em assuntos iranianos, garantiu que milhares de agentes secretos israelenses, norte-americanos e de outros países ocidentais, atuavam, àquela altura, em território iraniano. “Por enquanto, o objetivo é ganhar tempo, enfraquecer o projeto nuclear com operações encobertas, sem entrar em guerra direta com o Irã, e isso é do conhecimento do Primeiro-Ministro Netanyahu e de Dagan”, disse.

A atuação em relação ao Irã não mudaria, nem sequer quando, no final de novembro de 2010, Meir Dagan anunciou a Nertanyahu a intenção de apresentar a sua demissão por motivos pessoais. Durante algumas semanas Dagan manteve a liderança da espionagem israelense até que o Primeiro-Ministro anunciou que o eleito para substituí-lo no cargo de memuneh seria Tamir Pardo,de 57 anos e número dois do MOSSAD.
Pardo continuou com a diretriz definida por Ariel Sharon: “Irã nuclear e Irã nuclear”. Esse continuaria a ser o objetivo.

Enquanto o novo memuneh fazia o juramento do cargo e ocupava o gabinete no quartel-general do MOSSAD, no bairro de Herzliya, a norte de Tel Aviv, a unidade de assuntos tecnológicos da espionagem israelense via os primeiros frutos de um vírus de computador desenvolvido em 2010, com o fim de sabotar o programa nuclear iraniano.

O vírus, conhecido como Stuxnet, foi criado por engenheiros israelenses no complexo de Dimona, no deserto de Neguev, local onde se guardam os segredos nucleares de Israel.

O vírus conseguiu infectar os computadores que controlavam as centrífugas de enriquecimento de urânio nas instalações nucleares de Natanz, através do sistema operante de seus computadores e “injetado” por um colaborador do MOSSAD através de um pen drive. Stuxnet era o resultado do trabalho conjunto da CIA e do MOSSAD, com o fim de atacar o sistema complexo que controlava os sistemas de informática do programa nuclear iraniano.

O afamado jornal The New York Times garantia que no projeto chegara-se a construir centrífugas idênticas às da Siemens e que o Irã as tinha nas suas instalações de Natanz, um dado que explicaria o êxito do vírus na hora de infectar diretamente a sua capacidade nuclear. O vírus desenvolvido por Israel era considerado a melhor arma cibernética jamais criada até o momento, deixando fora de combate quase 30% das centrífugas iranianas.

Pouco a pouco foi possível saber que o Stuxnet tinha sido desenvolvido e testado entre maio e junho de 2010 e que já nessa época provocou o alarme dos especialistas depois de comprovarem o seu alto poder destrutivo. A maior novidade que o vírus apresentava era que não procurava infectar um computador doméstico, mas sim atacar os equipamentos de uma indústria até a sua total destruição.

O vírus propagava-se sem necessidade de Internet. Apenas era necessário colocar um pen drive com o Stuxnet dentro, e introduzi-lo num computador ligado à Internet e com sistema operacional Windows. Quando se ligava o computador, o Stuxnet procurava um determinado programa da empresa Siemens, uma ferramenta-chave no controle de oleodutos, centrais elétricas e instalações industriais, e atacava-o até destruí-lo por completo, paralisando qualquer sistema por mais complexo que fosse.

Alguns meios asseguraram que uma central iraniana teria sido um dos seus alvos. A Siemens negou que o seu programa tivesse sido fornecido à citada central, enquanto as autoridades iranianas negavam que a central tivesse sido vítima do ataque do vírus. Mais tarde, viram-se finalmente obrigados a admitir que o Stuxnet havia infectado diversos equipamentos ligados aos principais sistemas da central.

O Serviço de Inteligência iraniano descobriu que dois ou três colaboradores de Israel tinham injetado o vírus, enquanto o governo de Teerã reconhecia abertamente estar sofrendo um ataque de informática massivo, e que mais de 30 mil endereços de IP de centros industriais importantes do pais, que formavam o desenvolvimento do programa nuclear,tinham sido infectados.

A empresa alemã Siemens viu-se obrigada a informar que quinze dos seus clientes mais importante haviam  sido infectados pelo Stuxnet, mas que em nenhum caso houve conseqüências graves para a produção das empresas infectadas. A Siemens disse também que o vírus aproveitava uma vulnerabilidade do sistema Windows para penetrar nos computadores.

À margem dos danos que pudera ter causado a sua expansão, o que preocupava os especialistas era o salto que implicava na engenharia dos vírus de computadores e na guerra cibernética. “Não é especulação afirmar que se trata da primeira arma da ciberguerra”, garantiu um especialista da empresa Microsoft que afirmou que as únicas dúvidas eram agora contra quem se tinha usado o Stuxnet e quem seria o seu criador.

Na segunda-feira, 10 de janeiro de 2011 o Ministério de Segurança e Inteligência do Irã (VEVAK) anunciou o desmantelamento de uma rede de espiões ligados ao MOSSAD. Todos os detidos eram acusados de terem colaborado no assassinato de vários cientistas nucleares; e cinco deles, aparentemente operários e técnicos em informática em instalações nucleares iranianas, de terem injetado um potente vírus de computador que afetou os sistemas de produção de várias indústrias relacionadas com o programa iraniano.

“A rede de espiões e terroristas ligados ao MOSSAD foi destruída. O grupo usou bases em certos países europeus, assim como Estados vizinhos do Irã, para assassinar o doutor Massud Ali Mohamad”, indicou um comunicado oficial do VEVAK iraniano.

Há cinco anos foi dito que ainda era possível evitar que o Irã fabricasse a sua primeira bomba atômica. Agora, pode ser que já seja muito tarde, porque os iranianos sabem como enriquecer urânio e têm os equipamentos necessários para fazê-lo dentro do próprio Irã”, afirmou Meir Jadevanfar, analista especializado em assuntos iranianos.

Pode ser que seja correta a afirmação do analista, mas também é correto dizer que o MOSSAD, através das suas ferramentas, assim como o próprio KIDON, continuará combatendo nas sombras para atrasar o máximo possível a tentativa da República Islâmica do Irã tornar-se uma nova potência nuclear.
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VEVAK (Vezarat-e Ettela’at va Amniat-e Keshvar)

Mossad (Ha-Mōśād le-Mōdī`īn ū-le-Tafqīdīm Meyūhadīm - O Instituto para Inteligência e Operações Especiais, hebraico: המוסד למודיעין ולתפקידים מיוחדים).

Também referido como O Instituto.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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