sábado, 6 de fevereiro de 2016

Os erros e as omissões de Stalin

Stalin e Hitler: parceiros no extremismo ideológico

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“As nações pagam pelos erros de seus estadistas” (Nicolai Berdyev)

Um mês antes do ataque alemão à União Soviética na II Guerra Mundial, o grande timoneiro Stálin, falando a um grupo de auxiliares, decretou: “O conflito é inevitável, talvez em maio do ano que vem”.

A natureza dos erros de cálculo de Stálin não residia somente em suas avaliações equivocadas, nas suas previsões erradas, ou mesmo na determinação do agressor, embora, evidentemente, todos esses fatores estivessem presentes. Seus erros imperdoáveis derivavam do mando pessoal.

Em paralelo com o pensamento ortodoxo que então vigorava na Academia Político-Militar Lênin, uma série de questões heréticas foi levantada. Os autores enfrentaram de peito aberto as causas do fracasso da URSS na guerra soviético-finlandesa: o baixo nível cultural dos oficiais, a propaganda falsa sobre a invencibilidade do Exército Vermelho, a apresentação incorreta das missões internacionais do Exército Vermelho, e o preconceito prejudicial e profundamente arraigado, inevitável e praticamente sem exceção, de que as populações em guerra com a URSS supostamente se levantariam para o lado do Exército Vermelho.

Segundo avaliação de membros da Academia, “conversas sobre invencibilidade levam à arrogância, à superficialidade e à negligência da ciência militar: no campo da tecnologia, conduzem ao atraso; e no campo da teoria militar, ao desenvolvimento unilateral de noções de combate em detrimento de outras”.

O maior erro de Stálin pode ser considerado a assinatura do Tratado de Amizade e Fronteiras com Hitler, em 28 de dezembro de 1939, após a assinatura do Pacto Ribentrop/Molotov em 23 de agosto desse mesmo ano. Nas resoluções do Komintern e nas do XVII Congresso do partido, o nazismo havia sido adequadamente definido como um regime terrorista, militarista e ditatorial, e como a falange mais perigosa do imperialismo mundial. Nas mentes soviéticas, ele era a personificação do inimigo de classe em forma concentrada. E agora, não mais que de repente, passou a ser o melhor amigo!

É difícil para os historiadores explicarem o desvio cínico de Stálin para essa política que coonestou o fascismo, negando todas as anteriores premissas antifascistas e ideológicas do partido e do Komintern.

Na sua desesperada busca de formas de evitar a guerra, Stálin foi longe demais em suas concessões. É verdade que foi muito influenciado em sua política alemã por Molotov, Comissário do Exterior, cujas muitas afirmações tontearam tanto o povo soviético quanto os aliados da URSS.

Exemplificando, o discurso que pronunciou – aprovado por Stálin – no Soviet Supremo, em 31 de outubro de 1939, incluía o seguinte trecho:
A Alemanha está na posição de um Estado que se esforça pelo fim rápido da guerra e pela paz, enquanto Inglaterra e França, que ontem clamavam contra a agressão, são agora pela continuação do conflito armado e contra a paz. Círculos governantes na Inglaterra e na França tentaram recentemente se apresentar como lutadores pelos direitos democráticos dos povos contra o hitlerismo, com o governo inglês declarando que seu objetivo na guerra era, nem mais nem menos, ‘a aniquilação do hitlerismo’. Não faz o menor sentido, como é também criminoso travar tal guerra para ‘aniquilar o hitlerismo’ sob o falso estandarte da ‘luta pela democracia’. Nossas relações com a Alemanha melhoraram fundamentalmente. Isto aconteceu pelo fortalecimento das nossas relações de amizade, nossa colaboração prática, e por meio de nosso apoio político à Alemanha no esforço que faz pela paz”.

Afora o fato de tal mudança de linha política e ideológica causar perplexidade e estupor na mente pública, ela também revelava uma total falta de princípios. Stálin, que mandara milhões de pessoas para a morte ou para os campos de trabalho pela mais tênue suspeita de “impureza ideológica”, demonstrou uma excepcional falta de escrúpulos ao confraternizar com o fascismo. Embora muitos membros do Komintern não entendessem as razões da mudança ideológica tão súbita, não havia o que pudessem fazer para alterar a linha oficial da organização.

Até junho de 1941, o Komintern conflitou com os partidos comunistas e trabalhistas europeus quanto à avaliação do caráter da luta antifascista de seus países. Como no final dos anos 20 e início dos anos 30, as setas mais afiadas do Komintern eram reservadas para o ataque aos social-democratas como “cúmplices do militarismo”. A palavra “fascista”, a partir daí, desapareceu do vocabulário da liderança soviética.

A forma como foi preparado o plano para a defesa do país e para o desdobramento das Forças Armadas representa outra séria omissão. Pouco depois da assinatura do Pacto com a Alemanha, o Estado-Maior recebeu instruções pessoais de Stálin para a formulação desse plano. O planejador-chefe foi o futuro marechal, então coronel. A. M. Vasilievsky, cuja idéia básica era a de que o Exército deveria estar preparado para a luta em duas frentes: na Europa contra a Alemanha, e no Extremo Oriente contra o Japão. Esse plano, contudo, foi rejeitado pelo Comissário da Defesa.

O plano de defesa revisado ficou pronto para apreciação por volta de agosto de 1940, tendo de novo Vasilievsky como encarregado do planejamento, o qual, mais uma vez, sustentou que as forças soviéticas deveriam ser concentradas no setor ocidental. Tal plano foi submetido a Stálin em 5 de outubro de 1940. Stálin ouviu com atenção as explicações do Comissário da Defesa e do chefe do Estado-Maior, olhou para o mapa diversas vezes, caminhou pela sala por algum tempo e finalmente disse: “Não compreendo bem a insistência do Estado-Maior em concentrar nossas forças no setor oeste (...) Quero que o Estado-Maior pondere de novo e apresente um novo plano no prazo de dez dias”. Ou seja, ele entraria na guerra como um político confiante e não como um pensador militar.

O novo plano de defesa foi apresentado a Stálin, para outra avaliação, em 14 de outubro de 1940. Suas sugestões, evidentemente, haviam sido incorporadas, significando que a orientação básica das forças foi alterada para sudoeste. Nenhum dos chefes militares teve coragem ou argumentos para persuadir Stálin. A aprovação do plano por Stálin foi acompanhada da nomeação do general Zhukov para a chefia do Estado-Maior. No período de seis meses, três generais haviam ocupado essa função.

Segundo o acadêmico B. N. Ponomarev, antigo integrante do Komintern e secretário do partido, na primavera de 1941, provavelmente em final de maio, dois comunistas austríacos chegaram a Moscou “vindos de lá”. Mostravam-se alarmados com a enorme escala dos preparativos militares que tinham visto na Alemanha e nas fronteiras ocidentais da URSS, e com as infindáveis colunas de carros-de-combate, artilharia e caminhões que se deslocavam dia e noite para o leste. Essa informação foi passada a Giorgy Dimitrov (líder comunista búlgaro do Komintern), que a levou a Stálin.

Segundo Dimitrov posteriormente relatou a Ponomarev, Stálin recebeu calmamente a notícia dos austríacos e disse que não via razão para qualquer inquietação. E que, ainda no dia anterior, o Politburo apreciara o esquema de férias e a maioria dos membros e dos candidatos a membro estavam aproveitando a oportunidade para curtir o descanso de verão. Com essa observação, Stálin considerou o assunto encerrado.

Quando cresceu acentuadamente o fluxo de relatórios sobre a concentração de tropas alemãs na Polônia, Stálin escreveu uma carta pessoal a Hitler para dizer que estava surpreso com aqueles eventos, já que passavam a impressão de que o Führer se preparava para lutar com a URSS. Hitler respondeu também com uma carta na qual disse que a informação era correta, que muitas unidades de tropas estavam, de fato, agrupadas na Polônia.

Afirmou, entretanto, que suas tropas na Polônia não objetivavam ataque à União Soviética e que tencionava observar estritamente o Pacto com a honra devida de um chefe de Estado. Argumentou que os ingleses estavam efetuando pesados bombardeios no centro e no oeste da Alemanha e que, como o inimigo, do ar, podia observar livremente o terreno, ele fora obrigado a deslocar um grande efetivo de tropas para o leste.

Não obstante, os serviços militares de informação continuaram mandando relatórios alarmantes. No final de maio de 1941, o coronel Bondarev, de Kiev, relatou a chegada de novas unidades blindadas, de artilharia e de infantaria à Polônia Oriental. No setor ocidental, o coronel Blokhin, do Serviço de Informações, reportou que “especialmente a partir de 25 de maio as preparações da Alemanha contra a URSS foram intensificadas”e que um espião alemão submetido a interrogatório revelou que as operações militares eram uma possibilidade para breve.

O Comissário da Defesa enviou diversas missões para inspecionar as unidades blindadas nos distritos de fronteira e os resultados foram coligidos num relatório datado de 17 de junho. Alguns itens desse relatório: 1) a instrução é intermitente e não-coordenada; 2) o quadro de trabalho do treinamento da artilharia está defasado de dois a três meses; 3) a coordenação entre as diferentes categorias de tropas dentro das unidades é deficiente; 4) os regimentos mecanizados estão treinando como tropa a pé e não têm conhecimento adequado sobre qual sua missão; 5) as comunicações-rádio carecem de instrução; e assim por diante, totalizando 17 itens.

O chefe da propaganda política do Exército, A. I. Zaporozhets, fez um giro de inspeção pelas fortificações ao longo da fronteira ocidental e seu relatório para Stálin não foi nada animador: “A maioria dos distritos fortificados das nossas fronteiras ocidentais não está preparada para o combate. As posições de artilharia não têm canhões. Os distritos fortificados não contam com a quantidade necessária de instalações permanentes e especialmente construídas”. Stálin recomendou que os engenheiros trabalhassem “com mais afinco”.

Segundo o general Zhukov, Stálin resistiu a todas as tentativas do comando militar para pôr a tropa em prontidão na fronteira ocidental, pois seu temor de “provocar” Hitler tornara-se quase uma obsessão. Nesse meio tempo, Hitler ouviu de seus especialistas militares que o transporte ferroviário para o leste estaria completado em 19 de junho e que, pela noite de 21 de junho os primeiros aviões de ataque voariam em baixa altitude para novos aeródromos próximos à fronteira soviética, a leste do Vístula. Hitler fixou a hora H para as 3 horas de 22 de junho de 1941.

Na véspera de 22 de junho, o coronel-general M. P. Kirponos, comandante do distrito de Kiev reportou diversos casos de desertores alemães que haviam passado a fronteira. Eles revelaram que os germânicos iriam atacar naquela noite. O general Timoshenko telefonou imediatamente para Stálin. Stálin solicitou sua presença, juntamente com Zhukov e Vatutin. Quando chegaram, todo o Politburo estava reunido. Stálin, como de hábito, caminhava para lá e para cá e, tão logo os viu, perguntou: “Bem, e então?” Houve completo silêncio. Finalmente a voz de Timoshenko quebrou a tensão: “Temos que dar ordens imediatas para que todas as tropas dos distritos de fronteira entrem em alerta total para o combate”. Stálin retrucou: “Leia isto”. Zhukov leu a minuta de uma ordem do Estado-Maior que acentuava a necessidade de ação decisiva de acordo com o plano para repelir o inimigo. Stálin interveio: “Seria prematuro expedir agora essa ordem. Talvez seja possível resolver a situação por meios pacíficos. Devemos soltar uma ordem breve dizendo que um ataque pode ocorrer se provocado por ação alemã. As unidades de fronteira não devem se deixar provocar por qualquer coisa que possa causar dificuldades”.

O Politburo dispersou-se às 3 horas da madrugada. Foi a noite mais curta do ano. Stálin olhava para as ruas vazias através das janelas de sua limousine sem saber que as aeronaves alemãs já estavam voando por sobre a URSS. Mal tinha encostado a cabeça no travesseiro quando foi acordado por um telefonema do general Zhukov. Stálin tirou o fone do gancho e ouviu o breve relato de Zhukov sobre os ataques de aviões alemães a Kiev, Minsk, Sebastopol, Vilna e outras regiões. O general completou: “Entendeu o que eu disse, camarada Stálin?”. Stálin não respondeu. Eram 4 horas da manhã de 22 de junho de 1941.

Todas as autoridades civis e militares de proa achavam que a URSS, na melhor das hipóteses, sobreviveria por 3 meses. Mas o povo soviético as desmentiu. Contudo, a inacreditável resistência e a obstinação sem limites seriam creditadas à “sábia liderança de Stálin”, o responsável mais direto pela catástrofe. O triunfo, conseguido à custa de milhões de vidas, transformou Stálin em um verdadeiro deus. Tendo defendido a liberdade contra o nazismo, o povo soviético teria ainda que esperar décadas para ficar livre do stalinismo e, finalmente, do comunismo.

Ficou patente através de relatórios preparados por militares que as perdas soviéticas só poderiam ser estimadas aproximadamente, pois não seria possível estabelecer com exatidão o custo de vidas humanas, que ultrapassavam 15 milhões. No entanto, em uma carta, em 1956, ao Primeiro-Ministro sueco T. Erlander, Nikita Kruschev mencionou pela primeira vez um número “maior que 20 milhões”. O cômputo total só começou a ser trabalhado após o fim da União Soviética, com a abertura dos arquivos.

Notas:

Os dados acima foram extraídos do segundo volume do livro “Stalin – Triunfo e Tragédia” (editado em 2004) escrito pelo general do Exército soviético Dmitri Volkogonov, que teve total acesso aos arquivos e reviu o sigilo de 78 milhões de documentos do Politburo e de outros arquivos do Partido Comunista da União Soviética, na qualidade de assessor de Segurança Nacional de Boris Yeltsin.

O kamarada Stálin não foi esquecido. Em 3 de março de 2005, um grupo de militantes do agora Partido Comunista Russo prestou-lhe homenagens, em Moscou, recordando os 52 anos da sua morte, depositando flores em seu mausoléu.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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