quarta-feira, 9 de março de 2016

A saudável desilusão


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Jabor

Na Operação Lava-Jato houve um erro bobo — a condução coercitiva do Lula para depor. Ele deveria ter sido convocado antes e, se não fosse, aí sim a coerção. Foi um presente de Natal para o Lula. Devolveram-lhe seu melhor papel: ser a “vítima”. E Lula caiu matando: quando saiu da polícia, ele deu um show de bola em seu discurso para o povo que ele engana.

Como tem carisma esse cara! Falou com sua costumeira clareza para analfabetos, com propositais erros de português, e repetiu de cara limpa que nenhum governo melhorou tanto a vida do povo como o seu; foi irônico, falou dos pedalinhos e não das pedaladas e, com leve gratidão ou prudência, elogiou as empreiteiras que tanto o amam (ou amavam). Ele deve ter arregimentado muitos militantes novos. Falou que nunca houve roubo algum, que ele é a vivalma mais honesta do país, que as “elite” (todos os que não são do PT) não suportam ver os pobres melhorando de vida.

Foi até cômico, dizendo que acertaram o rabo da jararaca mas erraram a cabeça e que a jararaca vai atacar de novo. E os desempregados por ele, os humilhados e ofendidos pela inflação, acreditam em tudo, coitados. Ele é irresistível para os ignorantes ou fanáticos. Lula tem o selo de garantia de “pureza” por ter sido um operário. No imaginário nacional, isso santifica. Em nossa utopia populista, Lula é o primeiro “excluído” que deu certo. Lula “subiu na vida” e é um exemplo de vitória para milhões de fracassados.

Desde o século XIX, a figura do operário é o símbolo de um futuro de justiça. Foice e martelo, espiga de milho, roda da indústria nas mãos, trabalhadores musculosos e proféticos, heroica alegoria da coragem e da luta — Lula fascinou a todos. Para os pobres, virou um padrinho Cicero, para os ricos, um luxo “curioso” da democracia, para os intelectuais, um símbolo sexual. Intelectuais esses que continuam falando dos “inegáveis avanços sociais” do seu governo. Que avanços? Esse desmoronamento do Brasil? O único avanço social foi para os invasores do Estado aparelhado e dos fundos de pensão.

Agora vai começar a fase guerreira dos militantes convocados, os black blocs do PT, para a luta, para a porrada, todos lutando estupidamente pela própria desgraça: o desmanche do país.

Lula falou com os costumeiros slogans populistas, mas nem piou sobre as acusações cabais sobre seu amor secreto com OAS e Odebrecht. Só idiotas podem acreditar que um sítio em Atibaia seja apenas de sócios do filho de Lula e que eles não sejam laranjas, só bobos acreditam que duas empresas bilionárias iam esquecer suas obras monumentais aqui e no exterior para comprar cozinha de luxo para d. Marisa, só insensatos acreditam que a Oi tenha pensado assim: “ihhh... temos de instalar uma antena de celular lá naquela floresta. Ihh... é perto do sítio do Lula, que coincidência...”; só burros creem que o chefe e a madame não sejam os donos do tríplex, onde tiraram até fotografia, só pascácios, pacóvios, capadócios acreditam no velho discurso de que tudo foi declarado à Receita e ao TSE.

“Nunca antes” um partido tomou o poder no Brasil e montou um esquema de “desapropriação” do Estado, para fundar um “outro Estado”, com cargos públicos aparelhados para mais de 50 mil militantes.
Lula nos legou uma senhora incompetente para dirigir o Brasil. Dilma perdeu o controle da zona geral que Lula sabia “desorganizar” com esmero e competência. Dilma não sabe nem desorganizar — fica paralisada por arrogância.

Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com o crescimento de dois tumores gêmeos de nossa doença: a aliança da direita do atraso com a esquerda do atraso. Como analisar com a Razão essa insânia oficial?
Nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no país não é um “desvio” da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas. Nosso único consolo: estamos aprendendo muito sobre a dura verdade nacional nesse rio sem foz onde as fezes se acumulam.

Como é educativo ver as falsas ostentações de pureza para encobrir a impudicícia, as mãos grandes nas cumbucas e os sombrios desejos das almas de rapina. Que emocionante esse sarapatel entre o público e o privado: os súbitos aumentos de patrimônio, cheques podres, dinheiro vivo, galinhas mortas na encruzilhada, piscinas em forma de vagina, contas expostas na Suíça, os gemidos, as negaças proclamando “honradez” e “patriotismo”. Na calada das noites de Brasília, nos goles de uísque do Piantella, eles sussurram euforicamente: “Grande Lula! Que bem que ele nos fez! Nunca fomos tão sólidos e cínicos nesse país , desde Cabral!”.

Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!

Hoje, sabemos que somos parte da estupidez secular do país. A verdade é simples: é apenas tudo que eles negam. Assumir nossa doença talvez seja o início da sabedoria. Nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha.

A verdade do Brasil é coloquial, feita de pequenos ladrões, sujos arreglos políticos, emperramentos técnicos.

Ao menos, estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno corrupto que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento popular.

Que vai nos acontecer? O suspense é o pão de cada dia, entregue pelos “ferozes padeiros do Mal”. Mesmo que haja um desastre maior, qualquer mutação política é melhor que a continuidade no poder dessa gente.

O único consolo é sabermos que o Brasil evolui pelo que perde e não pelo que ganha. Sempre houve no país foi uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Com a história em marcha à ré, estranhamente, andamos para a frente. Como? Pelo fim da esperança, pela saudável desilusão.

O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero.

Arnaldo Jabor é Cineasta e Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 8 de março de 2016.

2 comentários:

Anônimo disse...

Parece filme de terror psicológico, ou ficção "sçsientífica" da pior qualidade.
Mas, estamos sendo obrigados pelos fatos, a aprender as lições das aulas que matamos...

Loumari disse...

É mesmo muito apreciável ler alguém que quando fala não mastiga as palavras e não tempera a verdade.
A verdade deve ser dita assim mesmo, no seu estado Cru.
A verdade não está para agradar a quem seja, mas para instruir e despertar as consciências.
A verdade EDIFICA. A mentira DESTRÓI.
A verdade SALVA. A mentira MATA.