sexta-feira, 15 de abril de 2016

Minha Vida no KGB


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Minha Vida no KGB” é o título de um livro escrito por Sranislav Alexandrovitch Levechenko, membro do KGB que desertou para o outro lado – para os EUA - em 1979. Por esse motivo é um homem marcado para morrer, um arquivo que precisa ser destruído, pois sabe demais sobre o KGB. A seguir, uma pequena parte do que ele sabe e do que ele escreveu sobre o KGB.

Desde o seu início o sistema socialista soviético tem-se baseado em duas pilastras – o KGB e o Exército. Ele precisa dessas duas pilastras para sobreviver. As forças militares soviéticas são essenciais para protegerem a Nação contra o que ela considera ameaças externas. Mas o sistema soviético tem que ser protegido também contra o seu próprio povo, e o KGB é responsável por essa tarefa. Ele protege o sistema e suas elites contra qualquer dissidência e contra quaisquer organizações oposicionistas que possam transformar o totalitarismo em uma forma de democracia.

O KGB tem centenas de milhares de informantes e funcionários infiltrados entre os militares para evitar que haja desvios nas fileiras do Exército. E, naturalmente, através da chefia da Primeira Diretoria, ele mantém funcionários e agentes em todas as nações do mundo.

As pessoas que trabalham para o KGB têm uma dimensão humana e experimentam problemas e fraquezas profundamente humanas. Trabalham em excesso, sucumbem ao álcool, ficam desiludidas e deprimidas, e é alta a taxa de divórcios nos diversos setores da instituição. À primeira vista esses problemas podem ser encontrados na CIA ou nos serviços de contra-espionagem britânicos. Mas os profissionais do KGB são exatamente o que dizem ser: pessoas dedicadas a alcançar as metas da União Soviética do modo mais profissional possível, com fanática perseverança. Sua humanidade é inegável, mas ela é compensada pela enormidade dos recursos e pelo estreito controle do KGB.

O KGB tira seu nome das palavras russas Komitet Gosurarstvennoy Bezopasnosty, que se traduz por Comitê para a Segurança do Estado. É uma organização incrivelmente grande que lida com todos os aspectos da vida soviética. A espionagem é apenas uma parte de suas atividades. Anda assim, a chefia da Primeira Diretoria do KGB é o maior serviço de Inteligência do mundo. O KGB opera em todo o mundo e tem a seu serviço mais de 250 mil pessoas, incluindo Tropas da Guarda de Fronteiras. Cinco de suas Divisões estão sempre prontas para esmagar qualquer tentativa de distúrbios e revoltas na URSS. Não há organização no mundo que rivalize com ele em tamanho, alcance de suas operações e liberdade para agir sem restrições. É a maior força opressiva e punitiva na história da civilização.

O KGB responde apenas perante o Politburo do Partido Comunista da União Soviética. O Politburo é semelhante a uma ditadura coletiva que decide os destinos da União Soviética e dos seus cidadãos. É o órgão que formula as políticas do PCUS e se compõe dos mais graduados membros do Partido. Como formulador de políticas, o Politburo não deve ser confundido com o Presidium do Soviete Supremo da URSS – um parlamento que apenas carimba decisões e quase não tem influência sobre a vida econômica e política da Nação.

As atividades diárias do KGB são supervisionadas pelo Departamento de Órgãos Administrativos do Comitê Central do PCUS, que responde diretamente perante o Politburo. Ao contrário da comunidade de informações nos EUA ou outros países do mundo livre, sujeita a supervisão legislativa, não há órgão legislativo democrático na URSS para regulamentar ou controlar as atividades do KGB. As operações, o orçamento e os problemas de pessoal do KGB são altamente confidenciais, e ninguém, exceto o Politburo e o Departamento de Órgãos Administrativos, tem acesso a qualquer de suas informações.

Ao mesmo tempo, é importante notar que o KGB não é uma organização totalmente independente. Ela cumpre os objetivos da liderança do PCUS, e cada uma de suas atividades é aprovada pelo Politburo e pessoalmente pelo Secretário-Geral do Comitê Central do PCUS.

Os líderes da União Soviética estão implacavelmente empenhados em enfraquecer a posição do mundo livre através da superioridade militar, da subversão, das atividades tradicionais de espionagem, de medidas ativas e da diplomacia convencional. As suas atividades procuram desestabilizar as políticas, a economia, e o tecido social das nações do mundo livre, tendo em vista o domínio da política mundial. A democracia e o sistema de mercado livre são definidos como hostis ao socialismo, segundo a teoria marxista-leninista. Desde a década de 50 os líderes soviéticos consideram os EUA o seu inimigo número 1, e o impacto maior da atividade do KGB em base mundial é dirigido contra os EUA. Sei disso, porque foi a essa meta que eu me comprometi a servir, especialmente durante os turbulentos 4 anos e 8 meses em que trabalhei no Japão como Oficial de Inteligência Política e de medidas ativas.

Ouço muitas vezes que Mr Gorbachev é um “novo russo”, que sua nova imagem indica um novo enfoque na política soviética. Mr Gorbachev, independentemente das reformas que promete na indústria e na agricultura, não pretende mudar a principal meta do socialismo definida por Marx, Engels, Lenin e Stalin. Segundo sua teoria, que todos os líderes soviéticos, inclusive Mr Gorbachev, implementaram e estão implementando na prática, o sistema socialista deve prevalecer sobre o capitalismo ...em toda parte.
A teoria e a prática socialistas são muito flexíveis no que diz respeito à moralidade a à justiça em política internacional. Qualquer meio de levar vantagem sobre o mundo livre – inclusive subversão, sabotagem, mentiras, violações de acordos bilaterais e internacionais – é considerado moral se faz progredir a causa do socialismo no mundo e, por isso, é prontamente aprovado pelo Politburo.

O exército soviético é a maior força ofensiva em tempo de paz da história da humanidade. As despesas militares da URSS como percentagem do PIB são as maiores do mundo, apesar dos problemas da indústria e da agricultura, do baixo padrão de vida dos cidadãos, da qualidade inferior dos serviços de saúde e outras deficiências.
Para garantir superioridades militar, o complexo industrial-militar soviético necessita muito da tecnologia ocidental.  Sempre que o Kremlin tem dificuldade em comprar produtos e processos de alta tecnologia, o KGB os rouba através de sua rede de espionagem global.

O termo medidas ativas começou a ser usado na União Soviética na década de 50, anos que os americanos chamaram de Guerra Fria. Contudo, a liderança soviética vem implementando esse tipo de atividade desde o inicio do Estado Soviético. É uma frase que descreve as técnicas, tanto abertas como disfarçadas, para influenciar as ações, os eventos e, às vezes, o comportamento de nações estrangeiras. Medidas ativas podem ser usadas para enfraquecer a confiança da população nos seus líderes, destruir a credibilidade de um líder ou de uma nação, ou desorganizar as relações entre as nações. Freqüentemente, as medidas ativasbuscam desviar a percepção pública ou o seu significado.

As medidas ativas podem ser abertas ou disfarçadas. Por exemplo, programas de intercâmbio estudantil e cultural patrocinados oficialmente são dispositivos populares de propaganda (medidas ativas abertas). As medidas ativas disfarçadas podem envolver a disseminação de desinformação, o uso de agentes de influência, a divulgação de notícias forjadas, penetração nas organizações políticas e públicas e na mídia de massa, subversão, infiltração na comunidade de negócios, etc. Durante a maior parte do tempo servi aos interesses do Serviço de Medidas Ativas da Chefia da Primeira Diretoria do KGB, usualmente identificado como “Serviço A”. Ele funciona em estreita cooperação com o Departamento Interncional do Comitê Central do PCUS. Quando trabalhei em medidas ativas, o termo era usado para distinguir operações de influencia da espionagem e contra-inteligência, mas não El imitado somente à Inteligência. Ao contrário, medidas ativas envolvem as atividades de virtualmente todos os elementos do Partido Comunista e da estrutura do Estado. Elas são consideradas também como valioso instrumento suplementar à diplomacia.

Em 1979, o Grupo de Medidas Ativas em Tóquio era composto por cinco oficiais, mas envolvia funcionários e seus agentes que operavam em base regular.

O KGB infiltrou-se na maior parte dos jornais do Japão.Ente os agentes de influência estavam um ex-membro do Gabinete, figura prestigiosa do Partido Liberal Democrata, vários políticos do Partido Socialista Japonês e importantes membros das comunidades acadêmica, jornalística e empresarial.

Éramos instruídos a executar programas de dimensões muito específicas, e embora estivéssemos trabalhando no Japão, os objetivos globais são os mesmos onde quer que o KGB use o “Serviço A”. O que é, praticamente, em todo o mundo. No Japão devíamos:

- impedir um maior aprofundamento da cooperação política e militar entre EUA e Japão;

- provocar desconfiança entre os EUA e o Japão nos campos político, militar e econômico;

- impedir um maior desenvolvimento de boas relações entre o Japão e a República Popular da China, especialmente as relações políticas e econômicas;

- eliminar por qualquer meio a possibilidade de criação de m triângulo anti-soviético (Washington-Pequim-Tóquio);

- criar um novo lobby pró-soviético entre influentes políticos japoneses – primeiro no Partido Liberal Democrático, depois no Partido Socialista – a fim de desenvolver estreitos laços econômicos com a União Soviética;

- convencer os líderes do governo japonês, através de agentes graduados de influência, empresários prestigiosos e os meios de comunicação de massa, quer o aprofundamento das relações econômicas com o Japão era essencial;

- organizar um movimento nos círculos políticos japoneses em favor do Tratado de Amizade e Relações de Boa Vizinhança entre o Japão e a União Soviética;

- infiltrar profundamente os principais partidos de oposição, começando pelo Partido Socialista Japonês, a fim de influenciar suas plataformas políticas e impedir que o Partido Liberal Democrático criasse um monopólio político na Dieta japonesa;

- desencorajar os líderes dos partidos da oposição de criarem um governo de coalizão porque os soviéticos necessitam de um Japão politicamente estável a fim de fazerem o melhor uso da rede de agentes existente, na qual investiram tão pesadamente.

Naturalmente, a União Soviética não alcançou todos esses objetivos, mas tentar alcançá-los era a política oficial, e o pessoal de medidas ativascontinua a persegui-los.

Definindo Agentes de Influência: são cidadãos de nações estrangeiras que usam sua influência, reputação, poder, posição ou credibilidade para promover os objetivos da União Soviética de formas que não podem ser ligadas a Moscou. Em geral, há três tipos de agentes de influência: oscontrolados que foram recrutados pelo KGB para servir aos interesses da União Soviética nos termos de instruções que lhes são transmitidas;contactos de confiança, que colaboram conscientemente para promover os objetivos soviéticos, mas que não foram formalmente recrutados; finalmente, pessoas inadvertidas, ou seja, aquelas que são manipuladas, sem reconhecerem que estão sendo exploradas.

Sobre a estrutura da “máquina”: Estruturalmente, o KGB consiste em diversas diretorias divididas em vários serviços e departamentos. Uma observação superficial da estrutura, tamanho e escopo das funções e missões empreendidas pode dar a falsa impressão de que a “máquina” é pesada.

A razão pela qual essa impressão é falsa é porque cada diretoria tem suas funções claramente definidas, e suas operações são altamente compartimentadas. As diretorias cooperam entre si somente quando estritamente necessário. Seus funcionários têm até educação profissional diferente: há escolas separadas para Inteligência, Contra-Espionagem, Vigilância e Guardas de Fronteira. O KGB deve ser levado a sério pelo mundo livre. Seu pessoal é constituído por profissionais que foram perfeitamente treinados para exercer suas funções, têm fundos praticamente ilimitados para trabalhar e não têm constrangimentos morais ou éticos para a obtenção de seus objetivos. Ao contrário da CIA, que é policiada por diversos grupos, o KGB nada tem que o impeça de fazer o que ele achar que é necessário. Nenhum cidadão soviético escreve artigos ou livros contra a organização e nem se ouve falar de demonstrações contra ele. E, se houver, serão dissolvidas em menos de 10 minutos.

O que os Guardas de Fronteira apresentam de incomum e como eles se enquadram na estrutura militar da União Soviética: eles são uma diretoria do KGB. Constituem uma força militar separada. Muito bem treinada e muito bem equipada. Têm suas próprias unidades de tanques, artilharia, navios de guerra e Força Aérea. Ostensivamente, sua principal missão é guardar as fronteiras soviéticas. A diretoria dos Guardas de Fronteira tem seu próprio departamento, que reúne informações sobre desenvolvimentos militares e políticos em áreas de fronteiras. Por exemplo: oficiais dessa instituição recrutam pescadores japoneses cujos barcos são baseados em Hokkaido. Seu pretexto é deter as tripulações dos barcos quando são apanhados em águas soviéticas. Uma vez esses barcos nas mãos dos Guardas, torna-se relativamente fácil fazer acordos com os tripulantes, e assim conseguem a colaboração de um grande número de japoneses. Valiosos dados sobre a Força de Autodefesa de Hokkaido e suas instalações teriam sido transmitidos aos soviéticos por tripulantes detidos.

Como se sabe, os líderes soviéticos privam seus cidadãos de viajarem livremente ou de emigrarem. Essa é uma das razões pelas quais a Guarda Fronteiras do KGB literalmente sela as áreas fronteiriças do país. Com muitos milhares de milhas de extensão, as fronteiras são cobertas por detetores eletrônicos, campos minados e. em alguns lugares, por cercas de madeira ou arame farpado. Em vista do alcance do seu trabalho, não é de admirar que a Guarda de Fronteiras seja tão bem treinada e equipada, sem surpreende que ela seja uma força militar separada, respondendo somente perante o KGB.

A espionagem está continuamente colhendo informações sobre aqueles que têm acesso a documentos secretos e que se envolvem em dificuldades financeiras. As informações sobre essas pessoas são obtidas através de rede de agentes, de conversas com contatos descobertos – alguns dos quais podem ser chamados de “idiotas obstinados”, por terem a língua solta -, e de livre acesso a registros públicos.

Se eu tivesse que declarar o que penso sobre o fato de alguns americanos se venderem, diria que a motivação dessas pessoas é mostrar que são inteligentes o bastante para entrarem em um jogo perigoso e ganhar. Alguns encontram um certo prazer nesse jogo de capa e espada apenas porque o acham excitante.

Finalmente, é importante perceber que o KGB e o GRU alvejam os americanos em base global. Dezenas de milhares de militares, diplomatas, homens de negócios e estudantes passam vários meses ou anos no exterior.O alvo de prioridade máxima da Inteligência soviética no estrangeiro são os americanos. Pelo recrutamento de um agente americano, o Oficial do KGB recebe automaticamente uma das mais altas distinções da União Soviética.

E, para finalizar, um conselho aos jovens: Eu diria aos jovens que se dêem conta de que têm tremenda responsabilidade pela proteção da liberdade e do sistema de mercado livre contra o expansionismo da União Soviética e seus aliados. Para saber proteger o mundo livre com eficiência, é essencial aprender todo o possível sobre o adversário desse mundo livre. Não sejam ingênuos a respeito da União Soviética. Aprendam a distinguir a propaganda aberta da disfarçada e a desinformação da informação sobre as reais metas das políticas externa e interna de Moscou. Só dessa forma é possível assegurar que nós não acabemos do “lado errado”.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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