sábado, 7 de maio de 2016

Movimento de Izquierda Revolucionária (MIR)


Salvador Allende - assim como Prestes em 1935 - foi um "funcionário" remunerado do KGB desde os anos 50. Após ter sido eleito presidente do Chile, quem recebia as informações e efetuava os pagamentos era o kamarada Svyatoslav Kuznetsov. Portanto, en castellano: un traidor de su patria!

Os que tiverem dúvidas cliquem em:


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Na história política do Chile, no ano de 1956 foi a primeira vez que se constituiu um bloco político de caráter revolucionário a partir de uma formulação estratégica coerente. Esse bloco, constituído com base na luta de classes e de conformidade com os postulados do marxismo-leninismo, era integrado pelo Partido Democrático Popular (PDP), Partido Socialista Popular (PSP) e pelo Partido Comunista Chileno (PCCh), e passou a atuar politicamente sob a forma de uma Frente de Trabalhadores, denominada Frente de Ação Popular (FRAP).
             
A linha política da FRAP propunha abertamente a tomada do Poder e considerava a classe trabalhadora como a única capaz de desempenhar o papel de forçamotriz do processo, e com capacidade para alterar ostatus-quo nacional.

Apesar disso, o Partido Socialista (PS), doutrinariamente, negava a composição de Frentes com partidos tidos como burgueses, sob a alegação de que esses só serviam aos interesses opostos aos das massas e contribuíam para a sua exploração e isolamento.

Já o Partido Comunista (PC), apesar de integrar a FRAP e de apoiar sua linha política, insistia na necessidade de ampliação de alianças com as chamadas camadas médias da burguesia, como condição para o êxito do processo revolucionário.

Como o PC, nessa época, encontrava-se há cerca de 8 anos na clandestinidade, da qual só emergiria em 1958, por gestão do então presidente da República Carlos Ibanez, seu nome não figurava publicamente entre os partidos que constituíram a FRAP.

Uma vez constituída a unidade política da classe operária através dessa Frente, a unidade sindical foi também estabelecida através da constituição da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

A dicotomia acima mencionada, entre as posições políticas do PS e do PC, a respeito do caráter da revolução chilena, tinha por origem a linha política que prevalecia, então, nos círculos do marxismo-leninismo, que teorizavam a existência de duas fases no desenvolvimento do processo revolucionário nos chamados países dependentes: a etapa democrático-burguesa, à qual se seguiria a etapa socialista. Na primeira etapa caberia à burguesia o papel decisivo. Essa, na época, era também a linha política do Partido Comunista Brasileiro, ditada por Moscou, evidentemente.

O PS, conforme acima descrito, negava à burguesia chilena, como classe, qualquer possibilidade real de condução da luta antiimperialista e antifeudal, face à sua profunda ligação com o imperialismo, do qual dependia, e com as oligarquias nacionais, tornando-se, portanto, impotente para enfrentar as estruturas semifeudais.

Na concepção do PS, unicamente os trabalhadores, os explorados e as camadas médias sociais não comprometidas, estariam em condições de desenvolver o processo no sentido de uma revolução popular e democrática.

O PC, por seu lado, resistia à concepção política do PS e buscava, através de sua linha de Libertação Nacional, a incorporação à FRAP dos radicais do Partido Radical (PR), bem como do Partido Democrata Cristão (PDC).

Em julho de 1957, o XVII Congresso do Partido Socialista definiu com clareza a nova linha política a ser seguida pelo partido, já concretizada quando do lançamento da FRAP. Com esse Congresso, a política do PS adquiriu características definitivas.

Na época, a Convenção Nacional do Povo, inspirada na FRAP, proclamou a candidatura de Salvador Allende às eleições presidenciais de setembro do ano seguinte, 1958.

Em 1958 a crise econômica e social que se apresentava no final do governo do presidente Ibanez, impulsionou a unidade dos grupos socialistas, comunistas e outros setores da FRAP, com vistas à luta pela presidência da República.

A mudança provocada quando do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em fevereiro de 1956, com o famoso discurso de Nikita Kruschev, que denunciou os métodos stalinistas, influenciou, sem dúvida, um melhor entendimento do PC com as forças socialistas.

A FRAP esteve a ponto de triunfar com a candidatura Allende, tendo obtido votação que alcançou estreita diferença em relação ao candidato vencedor, do PDC, Jorge Alessandri.

O ano de 1963 foi, para os socialistas chilenos, um período de enormes possibilidades revolucionárias. Esse estado de ânimo influenciou na criação de uma impaciência entre os militantes que viam o PS adotar uma postura defensivista, deixando de levar à prática a linha político-partidária.

Começaram a surgir, então, as facções divisionistas no seio do partido, levando-o a viver um clima de intranqüilidade e dissenso. A partir de maio de 1963, a Juventude Socialista, alegando motivos doutrinários, passou a uma aberta resistência à direção do partido. Em fevereiro de 1964, quando do XX Congresso do PS, a dissidência interna, surgida no ano anterior, achava-se sob a influência da onda guerrilheirista na América Latina. Inspirada na crise sino-soviética, os dissidentes passaram a ameaçar a direção do PS com a criação de um terceiro partido operário, que disputaria o lugar até então ocupado pelo PS e pelo PC. A dissidência também aprovava a linha política contrária à colaboração com classes sociais antagônicas, opondo-se à constituição de uma Frente Antiimperialista que englobasse a burguesia nacional.

O movimento popular continuou, assim, a caminhar para as eleições presidenciais de setembro, procurando fortalecer a Frente de Trabalhadores, núcleo da FRAP.

Enquanto isso, ganhava impulso a dissidência no PS, passando os dirigentes juvenis do partido a afirmar que a linha aprovada no Congresso representava o “pacifismo” apregoado pelo PC, linha muito diversa da adotada pela Frente de Trabalhadores. Para os dissidentes, o PS havia substituído uma linha política revolucionária autêntica por outra, de caráter oportunista, liquidando, dessa forma, a ala esquerda do partido.

A nova derrota, em setembro de 1964, de Salvador Allende, candidato do movimento popular, criou um refluxo político no movimento de massas desenvolvido pela FRAP, trazendo, como conseqüência, uma perda de terreno do PS na luta política.

Uma ala do partido responsabilizou o apoio da direita, e o terror psicológico contra o candidato Allende, como tendo contribuído decisivamente para a vitória de Eduardo Frei, candidato da Democracia Cristã. Outros teóricos do partido apontavam o tipo de alianças formalizado durante a campanha como responsável pelo abandono da plataforma de lutas do PS, então arrastado pela falsa visão do caminho pacífico e da institucionalidade burguesa, levando o candidato das forças populares, Salvador Allende, à derrota.

Nesse mesmo ano de 1964 as forças anti-partido lançaram um manifesto de rompimento público com o PS, definindo que passariam à luta pela restauração da “pureza revolucionária do marxismo-leninismo diante da traição aberta do PS e do PC”. Esse grupo, contando com a adesão de uma ala dissidente do PC, passou a proclamar o Partido Comunista Chinês como seu guia e deu conhecimento ao povo de sua intenção de criar uma organização de vanguarda proletária, revolucionária, que teria a missão de dirigir o processo revolucionário chileno. Como conseqüência, foi organizado, no ano de 1965, o Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR).

Todos esses acontecimentos refletiram-se na vida partidária do PS, indicando, já no ano de 1966, a necessidade de uma reformulação organizativa do partido.

Em novembro de 1967 foi realizado o XXII Congresso do Partido Socialista, conhecido como “Congresso de Chillan”. Nesse Congresso, que contou com a presença de delegações dos partidos comunistas da URSS e Romênia, o PS definiu-se, formalmente, como um partido marxista-leninista.

O “Congresso de Chillan” formulou e aprovou uma nova estratégia para o PS. Essa nova estratégia preconizava a destruição do aparelho burocrático militar do Estado-Burguês como forma de consolidar a revolução socialista, com base na premissa de que as formas políticas legais de luta, somente por si, não conduziriam ao Poder.

O destaque no Congresso de Chillan foi a posição política de uma fração partidária que se pronunciou em favor da tomada do Poder através da luta armada. Todavia, a aplicação da linha revolucionária aprovada defrontava-se com a proximidade das eleições parlamentares. Nesse contexto, o PS entendeu que uma total fidelidade revolucionária não significaria repelir a via eleitoral de forma definitiva, para não cair no isolamento anarquista, e passou a propor a subordinação da campanha eleitoral à estratégia revolucionária, ao fortalecimento e amadurecimento do movimento popular e à tomada do Poder, objetivo irrenunciável do socialismo.

O PC Chileno, por sua vez, aprovou também uma nova estratégia com vistas à consecução da unidade popular, valendo-se da via eleitoral para esclarecer as massas, numa primeira etapa, através de um governo multipartidário. Em novembro de 1969, o PC lançou a candidatura de Pablo Neruda à presidência.

Em resposta a essa articulação, a FRAP, também em um Congresso, rechaçou as tentativas feitas com o objetivo de forçar a aceitação de uma aliança com as forças democrático-burguesas para as eleições presidenciais de 1970. Todavia, malgrado as resistências da FRAP, na realidade, essa Frente vinha perdendo forças, dinamismo e propósitos revolucionários no que diz respeito ao estabelecimento de uma República Democrática, com representação exclusiva de trabalhadores.

Após março de 1969, a invasão da Checoslováquia pela União Soviética – ocorrida no ano anterior – complicou as relações entre o PC Chileno e o Partido Socialista, sem, todavia, influenciar os pactos eleitorais já feitos.

Em meados de 1969, o PS e o PC formularam um apelo a diversos outros partidos de esquerda, propondo a constituição de um bloco político como alternativa nacional, primeiro passo para a constituição da Unidade Popular. O próprio Salvador Allende, então deputado, retornando de uma longa viagem a diversos países comunistas, lançou a idéia de constituição de uma Frente Patriótica.

Tudo isso confirmava que o Partido Socialista caminhava em direção à linha política de Unidade Popular, diversa da aprovada no Congresso de Chillan.

Na Democracia Cristã, parte qualitativamente importante da juventude se separou do PDC, dando origem ao Movimento de Ação Popular (MAPU), que, de imediato, se vinculou ao bloco dirigido pelos partidos operários.

Em junho de 1969, o PS fez a apresentação formal da proposta de uma nova linha política popular de ampla aliança, em conformidade com as condições sociais e políticas do País.

Em razão disso, em dezembro de 1969, os partidos de esquerda aprovaram a constituição do bloco Unidade Popular, bem como um programa básico para servir de bandeira para as eleições presidenciais de 4 de setembro de 1970.

Em janeiro de 1970, dentro do espírito da Unidade Popular, o Partido Comunista admitiu a retirada da candidatura de Pablo Neruda a fim de apoiar Salvador Allende, do PS, que logo depois foi proclamado candidato da Unidade Popular.

Na esfera do MIR, a partir de 1966, a criação, em Cuba, da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), sugerida pelo então deputado Salvador Allende e patrocinada por Cuba, e o início da campanha guerrilheira de Che Guevara, na Bolívia, passaram a exercer uma decidida influência em favor da luta de guerrilhas em toda a América Latina, baseada no “Foco Guerrilheiro”.

Nesse período, o MIR, passando para a clandestinidade, iniciou uma série de ações espetaculares de assaltos a bancos, a título de expropriação, para financiar suas atividades. Suas ações terroristas e paramilitares estenderam-se até o ano de 1968.

A constituição da Unidade Popular, em 1969, foi objeto de crítica do MIR, em declaração pública, segundo a qual a Unidade Popular representava uma nova tentativa revisionista de desmobilização das massas,  de antemão condenada ao fracasso, e que os partidos marxistas-leninistas que integravam a UP assumiam uma posição reformista e não revolucionária.

No campo teórico, persistiam entre o PS e o PC as discussões que, na realidade, poderiam ser definidas como questiúnculas sobre o que poderia ser definido como “divergências táticas”. Tais discussões referiam-se ao entendimento das diferenças entre a via armada e o caminho insurrecional, e a via armada e o caminho político-institucional.

O emprego da expressão “via pacífica” tendia a ser abandonado pelos dois partidos (PS e PC), para evitar deixar a impressão de que, durante a implantação do socialismo, em nenhum momento se recorreria à violência.

O PS e o PC concordavam com a idéia de que a violência das lutas sociais se processa com armas ou sem elas. O caminho utilizado pelas vias políticas para expressar os interesses e objetivos dos trabalhadores, assim, não negava que, no período de transição para o socialismo, em algum momento deixassem de surgir fatores capazes de determinar a adoção do caminho armado.

Os teóricos marxistas-leninistas sempre afirmaram que os choques e as confrontações que necessariamente devem ocorrer em algum momento dessa trajetória, exigiriam que as forças socialistas contassem com uma estrutura defensiva de caráter armado. Sustentada por uma correta política militar, essa estrutura deveria preocupar-se permanentemente com a preparação de quadros com formação militar, tendo à sua disposição aparelhos paramilitares, de forma a estar preparada para mudar as formas de luta no momento oportuno.

Essas são as leis gerais da revolução e da passagem do capitalismo ao socialismo, conforme ensinam a teoria e a experiência do marxismo-leninismo.

Em julho de 1970, atendendo a apelos do candidato Salvador Allende, o MIR concordou em suspender as ações militares que vinha empreendendo contra quartéis, bancos, casas comerciais e delegacias de polícia.

Em 4 de setembro, vencendo a eleição presidencial pela diferença de apenas pouco mais de 1%, Salvador Allende foi eleito e, por não ter obtido maioria absoluta, teve sua eleição confirmada pelo Congresso, com os votos de toda a esquerda e do próprio PDC, partido com o qual Allende fez uma composição, sob a condição de cumprimento das garantias constitucionais. A eleição de Allende, com apenas 36% de votos, representou o ponto culminante de uma luta que durou 14 anos.

Um parêntesis para um breve relato sobre as principais medidas de cunho social, postas em prática, e sobre o desempenho da economia no governo da Unidade Popular.

Uma das primeiras medidas de Salvador Allende foi a de anistiar os militantes do MIR que se encontravam cumprindo pena por suas ações criminosas. Assim, o MIR recuperou sua total legalidade, com seus quadros indultados e os que estavam no exílio retornaram ao Chile. Em contrapartida, o MIR passou a oferecer um apoio tático, embora crítico, à experiência de transformação pacífica a que se propunha a coalizão de esquerda.

Na campanha política, Allende havia anunciado enfaticamente as “primeiras 40 medidas” de efeito popular que iria pôr em prática. Entre essas medidas, além da já tradicional eliminação do desemprego, fim da inflação, educação, assistência médica, moradia, luz e água, e previdência social para todos, havia algumas medidas curiosas: restrição de viagens de funcionários do governo ao exterior; controle do uso de automóveis oficiais; fim dos reajustes de prestações e dívidas com a Corporación de Vivendas; e dissolução do Grupo Móvil, aparelho policial semelhante à Rota, em São Paulo.

O objetivo básico do novo governo era a construção do socialismo com democracia e pluralismo. Para tanto, tornava-se necessário transformar as grandes empresas de mineração, o sistema financeiro e as grandes empresas nacionais e estrangeiras em propriedade social. A reforma agrária, que já estava em curso no País, seria acelerada, com o anúncio de expropriação de mil latifúndios, somente no primeiro ano de governo.

A política econômica de curto prazo tinha por objetivo aumentar a disponibilidade de bens e serviços de consumo. Para isso, dizia Allende, era preciso redistribuir a renda. Nesse sentido, logo no início do governo, foram tomadas as seguintes medidas:
 
aumento de 100% do IPC para todos os trabalhadores e aumentos acima do IPC para os salários mais baixos (IPC mais 5% até um salário-mínimo e IPC mais 3% até dois salários-mínimos);

para deter a inflação e assegurar ganhos reais para os trabalhadores foi iniciada uma inflexível política de controle de preços. Foi determinado que os aumentos de salários não poderiam ser repassados aos preços, e os produtores deveriam buscar os seus lucros no aumento da produção. Nos setores onde não houvesse capacidade ociosa suficiente para atender ao incremento da demanda, o abastecimento seria garantido pelo aumento das importações. Os preços dos diversos produtos foram congelados ao nível de outubro de 1970 (mês anterior ao da posse de Allende). Foi criada a “Oficina Coordinadora del Consumidor, Difusión y Denuncias”, especialmente dedicada a receber denuncias do povo sobre a especulação e problemas de abastecimento, o que provocou em todos um importante afã de cooperação. A referida “Oficina” logo elaborou e distribuiu listas de preços e disposições legais de caráter geral a que passariam a se submeter os comerciantes, para orientação dos consumidores;

objetivando evitar o aumento dos custos, a taxa cambial foi congelada e anunciou-se que a política de desvalorizações periódicas e sistemáticas da moeda chilena seria abandonada. Segundo Allende, ao terminar com a prática das desvalorizações cambiais, deveria ser entendido que o Chile reivindicava o direito de dirigir sua política monetária de acordo com seus próprios interesses, sem nenhum tipo de sujeição aos organismos internacionais (FMI e Banco Mundial);

foram adotadas Medidas de Redistribuição Direta: entrega gratuita de meio litro de leite, diariamente, a cada criança; assistência médica gratuita em todos os postos de saúde e hospitais; supressão do pagamento de matrículas no Ensino Básico e congelamento no Ensino Médio; suspensão dos reajustes nas prestações devidas à CORVI e outros organismos previdenciários; e construção de balneários populares;

a taxa de juros “máxima”, que estava tabelada em 24% ao ano desde o governo anterior, foi reduzida para 18%, o mesmo ocorrendo com as taxas referentes às linhas de crédito especiais, concedidas pelo sistema bancário, com refinanciamento do Banco Central do Chile. Em alguns casos, as taxas caíram para a metade;

a política fiscal foi reorientada, no sentido de aumentar os impostos das grandes empresas, dos grandes proprietários e dos produtos consumidos pelas classes média e alta, com o objetivo de aumentar a arrecadação e promover a redistribuição de renda. O imposto sobre o patrimônio das pessoas físicas foi aumentado e estendido também às sociedades anônimas chilenas e às empresas estrangeiras. O imposto de renda nacional sobre as sucursais ou agências de empresas estrangeiras foi aumentado. Com relação aos automóveis, foi aumentado o imposto sobre a venda de veículos novos e o imposto anual foi também aumentado e tornado progressivo para os automóveis de maior valor.

Além dessas medidas de impacto, o presidente Allende propôs ao Congresso a aprovação de um “Fundo Nacional de Capitalização”, com o objetivo de aumentar a poupança pública e prover uma fonte de financiamento para investimentos nos setores básicos da produção (empresas estatais). Esse “Fundo” seria formado com contribuições obrigatórias de todas as empresas industriais, comerciais, mineradoras, pesqueiras e outras, cujo capital efetivo fosse superior a dois milhões de escudos em 31 de janeiro de 1970, na base de 15% sobre os lucros anuais.

Os resultados obtidos no primeiro ano de governo foram espetaculares: o PIB cresceu 9% em 1971 (contra 2,1% no ano anterior). A indústria de transformação cresceu 13,6% (2% no ano anterior) e o comércio cresceu 15,8% (-1,5% no ano anterior). A inflação caiu de 34% em 1970 para 22,1% em 1971 e o salário médio mensal cresceu 16,3% (de 87,8% para 102,1%).

A prosperidade econômica dos primeiros 6 meses combinada com a total abertura política levou muitas pessoas, especialmente de baixa renda, a votarem nos candidatos da Unidade Popular nas eleições municipais de abril de 1971, fazendo com que os partidos da coalizão política de Allende recebessem cerca de 50% dos votos, em comparação com os 36,2% de seis meses antes.

Mas nem tudo corria às mil maravilhas. Problemas de abastecimento e mercado negro logo começaram a surgir, e alguns dos resultados macroeconômicos do primeiro ano de governo indicavam que as medidas econômicas haviam lançado as sementes do desastre.

As exportações caíram e as importações aumentaram, reduzindo o superávit da Balança Comercial para apenas US$ 95,7 milhões em 1971 (contra US$ 200 a 300 milhões anuais nos três anos anteriores). O movimento líquido de capitais foi negativo em US$ 111 milhões, contra um saldo positivo de US$ 194 milhões no ano anterior, levando o Balanço de Pagamentos a um saldo negativo de quase US$ 300 milhões em 1971, contra um saldo positivo superior a US$ 100 milhões em 1970. Com isso, as reservas internacionais do Chile caíram para a metade.

Também, com os aumentos reais de salários, congelamento de preços, nacionalizações, educação e assistência medica gratuita, distribuição de leite, etc, as despesas do governo aumentaram brutalmente, quadruplicando o déficit público, que passou de 2,7% para 10,7% do Produto Interno Bruto.

O segundo ano de governo (1972) foi marcado por um incremento das dificuldades. Em dezembro de 1971, o governo havia realizado a primeira desvalorização da moeda (33%). Os problemas de abastecimento se intensificaram, a inflação começou a subir, os investimentos continuavam em declínio, as reservas internacionais se reduziam e os credores internacionais passaram a não aceitar a renegociação da dívida externa sem o monitoramento do FMI.

Os problemas de abastecimento eram particularmente graves, levando o governo a criar, em abril de 1972, as “Juntas de Abastecimento e Preços (JAP’s)”, em nível local, com as seguintes atribuições:
 
atender aos problemas de desabastecimento dos comerciantes varejistas e respaldar suas denúncias contra os intermediários inescrupulosos;
cooperar com o controle de preços, tendo sempre atualizadas em cada “Unidade Vecinal”, as listas de preços oficiais e exigindo dos comerciantes seu cumprimento, mediante a persuasão ou mediante as respectivas denúncias.

As JAP’s eram formadas por organizações de trabalhadores que tivessem sua sede na localidade, tais como juntas de vizinhos, centros de mães, sindicatos, associações de moradores, centro de estudantes, clubes esportivos e outras organizações similares.

No caso específico da carne, o governo, já no ano de 1971 havia tomado a seu cargo o abastecimento e distribuição, através da “Sociedade de Construciones y Operaciones Agropecuárias (SOCOAGRO)”. Para atingir o objetivo de controlar integralmente o comércio de carne e de gado em pé, a SOCOAGRO proibiu o transporte de gado em pé sem licença especial, centralizou o abate nos matadouros da chamada rede nacional e fechou paulatinamente os pequenos matadouros municipais. Centralizou também o controle de importação.

Os funcionários do governo e os trabalhadores das empresas produtoras recentemente estatizadas logo descobriram que atenderiam melhor a seus interesses individuais se desviassem a produção para o mercado negro – esse desvio foi estimado em 70% da produção nas 535 empresas estatais -, o que agravou ainda mais o abastecimento aos preços tabelados e generalizou a corrupção no País. O governo, naturalmente, explicava o problema pelo aumento da demanda das classes de mais baixa renda que antes estavam marginalizadas e acusava a oposição de manobras especulativas com óbvias intenções políticas.

A verdade é que o mercado negro expandia-se vigorosamente. Com a inflação e a recusa do governo em reajustar os preços oficiais pagos aos agricultores, a produção de alimentos dirigia-se cada vez mais para o mercado negro. Na área industrial, por exemplo, o preço de um automóvel no mercado negro chegava a ser dez vezes maior do que no mercado oficial. O resultado foi o surgimento de dois sistemas de preços: um, subsidiado, através do sistema de distribuição estatal e dirigido principalmente para a população de baixa renda, e outro, o do florescente mercado negro, dirigido às classes média e alta.

Paralelamente à corrupção, começou a reinar no campo a mais completa anarquia, pois os grupos esquerdistas, especialmente o MIR, faziam invasões de terras para apressar a reforma agrária, o que acabou por conduzir à violência.

Em meados de 1972, um ano e meio após a posse de Allende, a situação econômica do País era alarmante. O déficit público tornou-se insustentável, principalmente devido aos subsídios destinados à chamada área social; as reservas internacionais haviam caído a quase zero e a produção industrial declinava. O presidente Allende substituiu os ministros da Economia e da Fazenda.

Em agosto de 1972, a nova equipe econômica desvalorizou novamente a moeda em 56,2%, aumentou os preços dos setores nacionalizados e permitiu aumentos de preços limitados na agricultura. O resultado foi um brutal aumento da taxa de inflação: 22,7% em agosto, 22,2% em setembro e 15,2% em outubro. Em 12 meses, a inflação, que estava no patamar de 20% a 40%, pulou para 142,94 nos 12 meses terminados em outubro.

O déficit público, em 1972, aumentou para 13% do PIB, a base monetária cresceu 185,7% e a inflação atingiu 163,4%. O salário-médio real caiu 19,6% (de 102,1 para 82). A Balança Comercial apresentou um déficit superior a US$ 130 milhões e o Balanço de Pagamentos fechou o ano com um déficit semelhante ao do ano anterior, que foi coberto pelo endividamento externo.

O ano de 1973 começou já com o País em situação caótica e em meio a uma radicalização política e às ações armadas de autoria do MIR (do qual um dos dirigentes era Andrés Pascal Allende, sobrinho do presidente Allende). Esse ano iria encerrar-se com uma queda de 10,3% na produção agrícola, -2,3% na indústria, - 6,4% no comércio e –5,6% no PIB. Ao final do ano de 1973, o déficit público representou 24,7% do PIB, a inflação chegou a 508,3% e o salário-médio real caiu mais 46,3% (de 82,1 para 44,1).

Em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende foi deposto.

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OBSERVAÇÃO: Espero que os atuais governantes do País, pós-impechement, leiam e meditem sobre a matéria acima.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Estéfani JOSÉ Agoston disse...

Principiei a ler o artigo lá pela metade, pois estou interessado é aqui com o Brasil e a partir da metade é quase igualzinho a situações que já vivenciamos e então pensei, oras, daqui para a frente o sr. Azambuja refere ao Brasil, mas foi um erro meu, que constatei ao reler, percebendo o engano.

Texto extremamente interessante que reproduz quase integralmente situações que já vivenciamos, com controle de preços, confisco de boiadas nas fazendas, fiscais do povo e na primeira leitura pensava que referisse ao Brasil, mas engano meu, refere ao Chile.

Que os erros chilenos e de muitos outros que tentaram pelas mesmas vias, sirvam de lição e exemplos clássicos para os novos ladrões que estão assenhoreando a presidência da república, ministérios e outras repartições governamentais.

EL J disse...

O fato é que para se dividir a riqueza é preciso primeiro que se a produza. Caso contrário, é estrago na economia.