quinta-feira, 12 de maio de 2016

O dever de temer Temer


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Bloch

Por mais que esteja dividida, a imensa maioria de brasileiras e brasileiros tem pelo menos um ponto em comum: não confia em Michel Temer. Curiosamente, o percentual de apoio ao presidente-tampão regula com o da presidente afastada. No jogo político, onde pouco importam as consequências imediatas, já se sabe que ele vai enfrentar chumbo grosso da Nova Oposição. Já para um cidadão pagador de impostos, caso as coisas piorem, o sofrimento será democraticamente distribuído. Se torcer contra Temer é temerário, por outro lado é um dever de todo brasileiro honesto temer Temer.

Os motivos pululam. A não ser que Temer tenha uma nova epifania, o ministério de notáveis foi para as cucuias: prevaleceu o velho conchavo político. Em relação às escolhas em si, parece um filme de terror: homem-forte no novo ministério, braço direito de Temer, Romero Jucá —investigado na Lava-Jato, áulico da mineração selvagem e inimigo número 1 dos povos indígenas — é a aposta no Planejamento. Para a Agricultura deve ir Blairo Maggi, vencedor do Troféu Motosserra e relator de um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que manda para o esgoto licenças ambientais. Outro provável ministro investigado na Lava-Jato é Geddel Vieira Lima.

Em entrevista a Lauro Jardim e Guilherme Amado, Temer exibiu total menosprezo pelas inquietações da sociedade com estas escolhas, mostrando de que matéria são feitas sua consciência e seu espírito público. Aliás, no que se refere a consciência, para um exame válido dos valores que pautam Temer, não basta analisar os ministros que serão empossados, mas, sobretudo, aqueles que ele cogitou indicar.

Saber que o presidente interino, ainda no período conspiratório, chegou a pensar em levar ao ministério da Ciência e Tecnologia um pastor criacionista e que, para a Justiça, gostaria de conduzir um ativista da luta contra a Operação Lava-Jato, basta para julgar do que ele é capaz.

A revelação de que disse a interlocutores, segundo Jorge Bastos Moreno, ter ficado “impressionado” com a reação negativa (dentro de seu próprio núcleo, ora vejam!) a tais indicações leva a uma constatação gravíssima: Temer está descolado, alienado, da ânsia pátria por uma guinada moral nos costumes políticos. Ou, por outra, ele sincera e empenhadamente despreza tais anseios.

Ao seu perfil resta adicionar os predicados de sagaz conspirador, traidor de mão cheia e, não adianta negar, o maior aliado de Eduardo Cunha, por quem, a esta altura, nada pode fazer, mas cujos serviços estão anotados em seu caderno de gratidão eterna. Isto dito, vamos à Bolsa, ao dólar, às agências de risco e aos mercados!


Arnaldo Bloch é Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 12 de maio de 2016.

Um comentário:

"Política sem medo" disse...

O Jornalista so faltou dizer que espera que Dilma volte porque contra Temer falou tudo, MENOS que ele ja esta diminuindo despezas, cortando ministerios, demitindo a legiao de nomeados da Dilma, alertando para a nao tolerancia de violencia de movimentos terroristas cortando verbas para MST e Ongs que sempre receberam so para fazer manifestacoes em favor da presidente. Vao revisar os Bolsas e outros programas eleitoleiros de Dilma, incentivar o emprego o mais breve possivel. reformular as politicas do Itamarati, comecar a tratar os bolivarianos com menos condescendencias como ja bem mostrou o Ministro Jose Serra, rever a situacao de parlamentares que estao fora do pais como Ideli Salvati e por ai vai. Quanto a mim tenho certeza que em SEIS meses quando a mulher pensa que voltara vitoriosa, sera impedida pelo povo, caso o Senado com a batuta de Lewandowski vote a favor da volta dela.