sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Necrofagia Política de Kruschev


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O enquadramento póstumo de Pio XII como o “Papa de Hitler” levado a cabo por Nikita Kruschev originou-se de uma “ciência” soviética bastante secreta, que no santo dos santos do bloco soviético era conhecida como necrofagia política. Essa “ciência”, objetivando a consolidação do cargo de um novo governante político, tinha se tornado um estilo de vida no Kremlin. Claro, líderes políticos de outros países também tentam culpar seus predecessores por qualquer coisa que dê errado, mas na Rússia a culpa tem uma tendência de se tornar repulsiva, até mesmo letal.

A necofragia política de Kruschev advinha da tradição soviética de santificação do governante “supremo”. Embora os comunistas proclamassem publicamente o papel decisivo do “povo” na História, o Kremlin, – e sua KGB – acreditava que só o líder importa. Mude a imagem pública do líder e você muda a História, costumava dizer Kruschev.

Uma vez que Kruschev foi coroado no Kremlin, ele mudou a imagem póstuma de Stalin de um santo russo para a de um açougueiro brutal. Isso mudou a história da Rússia. Em seguida, mudou a imagem póstuma do Papa Pio XII. E isso mudou a história do mundo judaico-cristão.

A ”ciência” da necrofagia política nasceu oficialmente em 26 de fevereiro de 1956, quando Kruschev expôs os crimes d Stalin em um “documento secreto” de 4 horas no Vigésimo Congresso do Partido Comunista da União Soviética. A imprensa mundial foi enganada por sua “nova honestidade”. Harry Schwartz, experiente correspondente do New York Times, escreveu: “O sr Kruschev abriu as portas e janelas de uma estrutura petrificada. Deixou entrar ar fresco e idéias novas, produzindo mudanças que o tempo já demonstrara serem irreversíveis e fundamentais.

Realmente, o “discurso secreto” de Kruschev foi apenas um show barato destinado a tirar a atenção de sua própria imagem de insensível assassino político, que aprovara a carnificina infame de Katyn – onde 14 mil prisioneiros poloneses foram fuzilados –, e que ficara conhecido como o “açougueiro da Ucrânia”, por causa das muitas centenas de milhares de pessoas executadas, quando era o representante de Stalin em Kiev.
Em junho e 1956, o tal “discurso secreto” de Kruschev foi publicado pelo New York Times, que reconheceu o ter conseguido junto à CIA. Há diversas versões de como o discurso foi parar noTimes.

O enquadramento de Pio XII foi a segunda necrofagia política de Kruschev. Esta não apenas atingiu sua meta inicial, como também a que Kruschev, subitamente tornado impotente, sobrevivesse no Kremlin por algum tempo. Em 1962, a Suprema Corte da Alemanha Ocidental julgou publicamente Bogdan Stashinsky, um oficial ilegal do KGB, por matar dois emigrados russos na Alemanha Ocidental. Depois de ser ouvido, a princípio com ceticismo, Stashinsky convenceu a Corte e o público alemão da sua sinceridade e remorso. O que começara como o julgamento de Sthavinsky logo se transformou num julgamento de Kruschev, que condecorara Sthavinsky por seu trabalho, enquanto o mundo começara a conhecer que tipo de homem e mentalidade estava governando o Kremlin.

O governante santificado, cujo discurso secreto desmascarando os crimes de Stalin estava fresco na memória de todos, surgia para o tribunal de Karlsruhe e para o mundo livre como mais um açougueiro e como rematado mentiroso. Não era, de forma alguma, verdade que, após o XX Congresso do PCUS, Kruschev havia feito parar os assassinatos promovidos pelo KGB. Ele tinha apenas levado suas fronteiras ao exterior.

Não era verdade que ele queria uma coexistência pacífica com o Ocidente – assassinatos políticos tinham claramente s\e tornado uma ferramenta fundamental de sua política externa. Não era verdade que Kruschev era inocente, pois ele tinha ordenado os assassinatos cometidos por Stravinsky e tinha assinado o decreto recompensando o perpetrador com a mais alta medalha soviética.

Ao final do seu julgamento de 7 dias, Stravinsky declarou: “Quero dar visibilidade mundial ao modo como a coexistência pacífica – de Kruschev -funciona na prática.

Stravinsky fez exatamente isso. Ele recebeu uma sentença relativamente curta de 8 anos, já que a Corte da Alemanha Ocidental o declarou apenas “cúmplice de assassinato” e enfatizou que a culpa daqueles de quem ele recebera a ordem era muito maior. “Assassinato é agora realizado sob ordens expressas do governo”, explicou o Juiz. “Assassinatos políticos foram, por assim dizer, institucionalizados”.

O extravagante Kruschev tornou-se um governante impotente, lutando para respirar. As primeiras páginas dos jornais ocidentais eram agora dedicadas aos seus crimes e mentiras. Poucos meses depois, contudo, apareceu O Vigário. De repente, a mídia ocidental voltou sua atenção dos crimes de Kruschev,  passando a se deter nos “crimes” de Pio XII.

Kruschev pode ter sido posto para fora, mas suanecrofagia política sobreviveu. Quando veio Gorbachev, este acusou Brejnev de ter explorado o país para ganho pessoal, e fez até com que alguns de seus associados anteriores fossem presos, em uma óbvia tentativa de provar que a União Soviética tinha sido devastada por indivíduos, não pelo marxismo. De sua parte, Yeltsin acusou Gorbachev de ter “levado o país à ruína”, e Putin culpou Yeltsin pela “derrota da União Soviética, a maior catástrofe do Século”.

Necrofagia Política – culpar e condenar o antecessor – é um jogo perigoso. Fere o orgulho nacional e freqüentemente se volta contra quem a usa. Quando Kruschev morreu, Brejnev decretouque seu antecessor havia prejudicado gravemente o respeito histórico do país pelo Kremlin, e que ele não era digno de ser sepultado na Necrópole da Muralha do Kremlin, junto a outros ex-líderes. O governo soviético recusou-se até a pagar pela lápide de Kruschev.

Em 1989, quando o tirano romeno Nicolae Ceausescu foi executado, a Corte que o sentenciou à morte decidiu que o seu culto ultrajante da personalidade e sua necrofagia política haviam desonrado o respeito tradicional da Romênia pelos seus líderes, e que ele não merecia nem caixão e nem sepultura. O corpo de Ceausescu foi então colocado dentro de um saco e jogado num estádio de futebol.   
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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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