terça-feira, 14 de junho de 2016

Os Kamaradas partem


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro CAMARADAS – uma História do Comunismo Mundial -, escrito por Robert Service, um dos maiores especialistas em história moderna da Rússia - historiador, acadêmico e escritor britânico; leciona História Russa na Oxford University -. A importante mensagem transmitida por esse livro, tanto para os contemporâneos quanto para as gerações vindouras do Século XXI, é que, embora o comunismo, em seu formato original, esteja morto ou em estado terminal, a pobreza e a injustiça que possibilitaram seu surgimento ainda vivem perigosamente, vulneráveis à exploração de extremistas.
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Dezenas de estados comunistas deixaram de existir nos dois anos posteriores aos meados de 1989.  Esse fenômeno não se limitou à Europa Oriental e à União Soviética; na Etiópia a ditadura marxista foi derrubada em maio de 1991 e Mengistu buscou asilo político no Zimbábue. Visto sob a perspectiva de séculos de história oficial, isso aconteceu numa fração de segundo. Um sistema político econômico que cobria um quarto da superfície terrestre passou por uma crise de progressivo encolhimento e, depois disso, as pessoas criadas com as páginas de seus Atlas assinaladas em vermelho, mal conseguiam entender os novos mapas políticos do globo. Somente uns poucos países continuaram a professar compromissos com os objetivos do marxismo-leninismo e suas variantes.

A República Popular da China foi a única potência comunista de importância global que permaneceu de pé, mas sua implantação frenética da economia de marcado transformara o país numa espécie de híbrido de comunismo e capitalismo. Isso serviu para desviar as críticas ao sistema de campos de trabalho forçado da China ou as terríveis condições de trabalho dos trabalhadores chineses livres.

As empresas globais estavam prosperando no país e, como fora o caso de muitos empreendimentos industriais que tinham contratos com a URSS na década de 1930, procuraram não meter o nariz nos macabros desvios do sistema penal nacional. Embora o Vietnã permanecesse sob o governo de um regime comunista, seus dirigentes também adotaram o capitalismo, pois viam a China como modelo para o próprio desenvolvimento. Nesse sentido, Cuba deu alguns passos hesitantes na direção de umas poucas reformas. Passou a tolerar mais a religião, abriu as portas aos turistas estrangeiros e atraiu investimentos diretos do exterior, apesar do bloqueio econômico dos EUA.

No Laos, o governo comunista tinha poucas alternativas. A única ajuda financeira de que dispunha desde a tomada do Poder, em 1975, vinha de Moscou. E, com a finalidade de conseguir mais verbas,as autoridades haviam construído hotéis para veranistas soviéticos. O colapso soviético foi um desastre para o comunismo do Laos e mudanças tornaram-se inevitáveis. Em meados de 1990, as autoridades chegaram a fechar os campos de trabalho forçado.

A essa altura, nenhum país comunista tinham mais interesse em fomentar insurreições comunistas no exterior. A ajuda financeira de Pequim era concentrada em países capazes de fornecer o petróleo necessário ao desenvolvimento da economia chinesa ou para a segurança territorial do país. Insurrecionistas maoístas nepaleses e de outros países não recebiam nem ajuda e nem incentivos. Em toda a parte, partidos comunistas de todos os tipos aprenderam a cuidar de si mesmos, até porque não tinham alternativa. O Movimento  Comunista Internacional já não estava apenas fragmentado, mas quebrado em mil pedaços.

No entanto, a Guerra Fria havia terminado e o Ocidente fora o vencedor, embora sua vitória não tivesse uma data específica, nem tenha havido um acontecimento que a assinalasse, como uma rendição militar. A conclusão do processo passou quase despercebida, mas não havia como negar que o comunismo sofrera uma derrota global. O presidente George Bush saudou o advento da “Nova  Ordem Mundial”.

Mais e mais governos estavam sendo formados por meio de eleições livres. As economias dos países se voltavam para o capitalismo e, graças ele, se expandiam. Muitos passaram a ter liberdade para dar vazão às suas aspirações políticas. Era crença generalizada que democracias liberais e economias de mercado se tornariam a forma universal de se organizar sociedades em todo o globo. Esse pensamento foi endossado por Bill Clinton, sucessor de Bush, e tornou-se parte do sendo comum. Proclamou-se o ”fim da História”.

Os governantes do Universo, no entanto, se esqueceram de que todos os países, coletiva ou individualmente considerados, tinham traços duradouros que podiam dobrar a linha reta do desenvolvimento futuro, suas esperanças, pois, foram rapidamente frustradas. Surgiram conflitos étnicos, culturais e nacionalistas na Iugoslávia, Chechênia e Ruanda, misturados com hostilidades religiosas. O crescimento de variantes fanáticas do islamismo prosseguiu.

O grupo Al-Qaeda, liderado por Osama Bin-Laden conseguiu refúgio para suas bases de treinamento no Afeganistão, sob o amparo do severo regime muçulmano do governo do Talibã. Bin Laden organizou a realização de campanhas de terrorismo no mundo inteiro e seu exemplo foi seguido por organizações que surgiram como grupos independentes. No fim das contas, verificou-se que a Nova Ordem Mundial não era nem tão nova, nem global e tampouco ordeira. 

Em 2002, o Talibã e a Al-Qaeda foram militarmente derrotados no Afeganistão, mas não eliminados, e o subseqüente regime afegão estava longe de ser um modelo de governo que respeitava as leis ou de ser objeto de aprovação popular. O Iraque foi invadido em 2003, e o ditador baatista Saddam Hussein, deposto. A intervenção militar desencadeou um amplo movimento insurrecionalista e uma incipiente guerra civil, apesar da instituição de eleições livres. A história não havia completado seu processo de transformação.

Mas George Bush e Bill Clinton estavam certos em relaçãoa um acontecimento muito importante na última década do Século XX: o comunismo na maioria das regiões do planeta havia chegado ao fim como sistema de governo. Os governos subseqüentes, após a saída do Poder dos kamaradas, recorreram a diferentes meios para impedir a restauração de regimes comunistas. As autoridades búlgaras, por exemplo, mandaram prender Todor Jivkov e, dois anos depois, o condenaram pelo crime de peculato. Foi mais ou menos como condenar Al Capone por sonegação de impostos.

Em 1993, os alemães formularam acusações contra Erich Honecker, porém ele já estava gravemente afetado por um câncer no fígado e o julgamento foi suspenso. Ele morreu um ano depois, no Chile. Jã Egon Krenz, seu sucessor, desfrutava melhor estado de saúde e foi tratado com menos indulgência, sendo condenado a 6 anos de prisão - mas cumpriu apenas 3 - em 1997. Ele foi acusado de cumplicidade no fuzilamento de pessoas que haviam tentado pular o Muro de Berlim. Em Praga, o presidente Vaclav Havel não quis vingar-se de seu algoz, Husak, que estava gravemente doente e faleceu em 1991. Sucessivos governos na Polônia reconheceram que Jaruzelski, apesar das falhas, havia ajudado a evitar que seu país fosse invadido pelas tropas do Pacto de Varsóvia, na década de 1980.

Na República Checa instituíram uma lei proibindo  líderes comunistas de ocupar cargos no governo. Na Alemanha reunificada os alemães passaram a ter acesso a documentos sobre eles, criados pela Polícia de Segurança. As portas dos arquivos nacionais foram abertas ao público e divulgados os horrores do governo comunista. O consenso nos meios de comunicação era de que o “pesadelo totalitário” havia chegado ao fim. 

Do litoral siberiano no Pacífico até a Hungria, nos Balcãs e na antiga Alemanha Oriental, aconteceu a mesma coisa: os povos recuperaram o orgulho nacional e as tradições culturais e religiosas foram restauradas; bandeiras, redesenhadas; ruas renomeadas; estátuas de heróis marxista-leninistas, derrubadas; e os livros de História reescritos. Os velhos partidos comunistas tiveram confiscados os escritórios, suas casas de veraneio e contas bancárias.

Embora tenha sido pacífico o abandono do comunismo na maioria dos países surgidos após o fim da União Soviética, houve também algumas exceções terríveis. Elites russas e moldávias, por exemplo, lutaram pela supremacia da Moldávia. Numa região fronteiriça com o Afeganistão, rivalidades tribais e religiosas causaram uma violenta guerra civil no Tadjiquistão. A Chechênia rebelou-se contra a Federação russa. Uma guerra sangrenta estourou entre a Armênia e o Azerbaijão por causa da disputa pelo enclave com habitantes armênios em Carabaque.

As coisas poderiam ter sido muito piores, mas pelo menos a maioria dos países da ex-URSS conseguiu a independência sem derramamento de sangue. Foi o caso também na região do “império exterior”do Kremlin. Os povos da Europa Oriental cuidaram pacificamente da própria vida após a queda do comunismo e logo que livres da interferência russa. Houve uma situação política grave na Checoslováquia quando os eslovacos, após anos alimentando ressentimentos para com os checos, passaram a exigir o direito à separação.

Porém a disputa foi resolvida sem que nenhuma bala fosse disparada quando, em janeiro de 1993, a República Checa e a Eslováquia decidiram seguir, cada qual, um caminho diferente. A grande exceção foi a Iugoslávia – que nunca se submeteu ao Império Soviético -. Eclodiram conflitos nas fronteiras de muitas repúblicas depois que Milosevic subiu ao Poder na Sérvia. Disputas étnicas convulsionaram os assuntos internos na Croácia, na Bósnia-Herzegovina e no Kosovo. Finalmente, em 1991, a Iugoslávia se desmembrou quando, unilateralmente, a Eslovênia e a Croácia se declararam independentes. Em setembro de 1991 foi a vez da Macedônia e, em março de 1992, a da Bósnia-Herzegovina. Num processo de concomitantes secessões, guerras civis, invasões inter-republicanas e expulsões étnicas, a Federação inteira desmantelou-se.

A violência bárbara chegou ao fim em 1995, com a assinatura em Dayton, Ohio, com Milosevic sendo momentaneamente saudado com pacifista. Todavia, depois de derrotado nas eleições na Sérvia e tirado do Poder, as autoridades sérvias o entregaram ao Tribunal Internacional, em Haia, para que fosse julgado por crimes de guerra. Mas ele morreu em março de 2006, antes que se chegasse a um veredicto. A essa altura, no entanto, havia muito que a Iugoslávia havia sido desmembrada e seu comunismo relegado à lixeira da História.

Na Itália, o Partido Comunista Italiano, com o nome trocado para Partido Democrata de Esquerda (PDE), fazia muito tempo que havia cortado os laços com Moscou e, para demonstrar seu rompimento, filiou-se a Internacional Socialista e manteve sua posição de principal organização de esquerda da Itália.

No início do Século XXI, o comunismo havia exaurido quase todo o seu potencial para transformar sociedades. Tal como os misteriosos monólitos da Ilha de Páscoa, os grandes mausoléus de Lenin, Mao, Ho Chi Minh e Kim Il-Sung continuavam a atrair visitantes, todavia era cada vez menor o número de pessoas, até nos países supostamente comunistas, que se importavam com seus escritos. Em quase todas as suas variantes, o Leninismo era quase sempre mais ridicularizado ou mais odiado do que esposado.

Os partidos comunistas perderam filiados, respeito e a própria razão de existir. Abandonaram suas ambições globais e passaram a concentrar seus esforços na atração de adeptos para causas patrióticas. Sempre que possível, substituam seus líderes, nomes e ideologia básica. O comunismo ficou desconcertantemente diverso do que realmente fora no passado. O mundo passou a conhecer KAMARADAS russos que possuíam cassinos e comunas chinesas que faziam negócios com o Google e a Dell. 

Enquanto isso, KAMARADAS cubanos cuidavam de proteger o que podiam de sua herança revolucionária, e KAMARADAS coreanos prosseguiam com o fortalecimento de um regime até mais invasivamente repressor que o de Stalin. Grupos de KAMARADAS guerrilheiros na Ásia e na América Latina continuaram a sustentar suas guerras contra o capitalismo nacional e o imperialismo ianque. Já a maioria dos KAMARADAS europeus asseverava que havia se desligado totalmente de objetivos totalitários marxista-leninistas, e pararam de chamar uns aos outros de KAMARADAS.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Loumari disse...

China é um perigo para o mundo e dominará recursos do Brasil

https://youtu.be/3fYs6ThNbpw