quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Nova Classe


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um resumo de um dos capítulos do livro “A Nova Classe”, de autoria de Milovan Djilas, um dos dissidentes e contestadores dos regimes comunistas. Foi Ministro, Vice-Presidente e principal teórico do Marechal Tito, na Iugoslávia. Desiludido com as propostas do Stalinisno e mesmo com a linha política adotada por seu país, foi afastado de suas funções no governo e expulso do Comitê Central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia. Esteve preso por um período de 3 anos, quando escreveu “A Nova Classe”, numa época em que, segundo ele,“acreditava ainda poder ser um comunista, permanecendo, ao mesmo tempo, um homem livre” 
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A origem social da Nova Classe está no proletariado, assim como a aristocracia nasceu de uma sociedade camponesa e a burguesia de uma sociedade comercial e artesanal. Há exceções, segundo as condições nacionais, mas o proletariado dos países economicamente subdesenvolvidos, atrasados, constitui a matéria prima para a Nova Classe. Há outras razões pelas quais a Nova Classe age sempre como campeã das classes trabalhadoras. Ela é anticapitalista e, conseqüentemente, depende das camadas trabalhadoras.
A Nova Classe é sustentada pela luta proletária e pela fé tradicional que o proletariado deposita numa sociedade socialista, comunista. É vital e importante para a Nova Classe assegurar um ritmo normal de produção, de forma a não perder nunca o seu contato com o operariado. E o que é ainda mais importante: a Nova Classe não pode atingir a industrialização e consolidar seu poder sem o auxílio das classes trabalhadoras. Por outro lado, a classe proletária vê na expansão da indústria a salvação da pobreza.

Durante um longo período, os interesses, idéias, fé e esperança da nova classe e de partes da classe operária e dos camponeses pobres coincidem e unem-se. Tais fusões ocorreram no passado entre classes inteiramente diferentes. A burguesia, por exemplo, não representou os camponeses na luta contra os senhores feudais?

O monopólio que, em nome da classe trabalhadora, se estabelece sobre toda a sociedade, é exercido principalmente sobre essa mesma classe trabalhadora. É um monopólio, a princípio intelectual, sobre a chamada vanguarda proletária e daí se estende a todo o proletariado.

Antigos filhos da classe trabalhadora são os mais afoitos membros da nova classe. Foi sempre o destino dos escravos o fato de que seus representantes mais inteligentes se tornassem seus senhores. Nesse caso,uma Nova Classe dominante e exploradora nasceu da classe dominada e explorada. Uma Nova Classe tem sempre que existir em qualquer sociedade socialista.

O número de funcionários de gravata aumenta constantemente nos monopólios capitalistas e nas indústrias nacionalizadas do Ocidente, o que indica que os funcionários do Estado estão se transformando numa classe especial da sociedade.

Os funcionários experimentam o destino comum àqueles que trabalham juntos. Participam dos mesmos interesses, especialmente por ser praticamente inexistente a competição, uma vez que as promoções se fazem em termos de antiguidade. Os conflitos internos ficam, assim,  reduzidos ao mínimo, e esse estado de coisas passa a ser como positivamente funcional para a burocracia. O sprit de corps é a organização social informal que se desenvolve com características típicas nessas situações, levam, freqüentemente, o pessoal a defender antes os seus interesses do que os do público ou os de seus superiores.

Nos sistemas não-comunistas, os burocratas formam uma camada especial, mas não exercem a autoridade tal como os comunistas. Existem chefes políticos, geralmente eleitos, ou proprietários, situados em posições superiores. São funcionários de uma economia capitalista moderna, ao passo que os comunistas são algo diferente e inédito: uma Nova Classe.

Tal como a define o direito romano, a propriedade é o uso, o gozo e o controle doos bens materiais. A burocracia política comunista usa, goza e dispõe da propriedade nacionalizada.

Presumindo-se que a participação nessa burocracia ou Nova Classe proprietária seja confirmada pelo uso de privilégios inerentes à propriedade – no caso, os bens materiais nacionalizados -, então a participação na Nova Classe partidária, ou na burocracia política, reflete-se numa percepção maior de bens materiais e privilégios, do que os normalmente concedidos pela sociedade a tais funções. Esse privilégio se manifesta, na prática, num monopólio partidário, no direito exclusivo que tem a burocracia de distribuir a renda nacional, fixar salários, dirigir o desenvolvimento econômico, dispor da propriedade nacionalizada e outras. É assim que o homem comum, que considera o funcionário comunista como um cidadão mais rico, que não precisa trabalhar, vê a situação.

A propriedade privada se tem mostrado, por muitas razões, contraproducente ao estabelecimento da autoridade da Nova Classe. Além disso, a destruição da propriedade privada era necessária à transformação econômica das ações.  A Nova Classe extrai seu poder, seus privilégios, ideologia e costumes de uma forma específica da propriedade - a coletiva – que ela administra e distribui em nome da Nação e da sociedade.
Privar os comunistas de seus direitos de propriedade seria aboli-los como classe. Obrigá-los a abrir mão de outros poderes, a fim de que os trabalhadores possam participar dos lucros de seu trabalho, significaria privá-los do monopólio da propriedade, da ideologia e do governo, o que representaria o início da democratização e da liberdade no comunismo, e o término do monopólio e do totalitarismo.

Os privilégios de que goza a Nova Classe, e a participação nessa classe, são privilégios daadministração, e se estendem desde a administração estatal e empresas econômicas até a administração dos esportes e das organizações humanitárias.

A sociedade não pode viver sem Estado ou governo. Há, porém, diferenças fundamentais entre os políticos profissionais dos outros sistemas e os do comunismo. Em casos extremos, os primeiros servem-se do governo para assegurar privilégios para si mesmos ou para seus correligionários, ou para favorecer os interesses econômicos de uma determinada camada social. No sistema comunista, sendo poder e o governo idênticos ao uso, gozo e controle de todos os bens nacionais, a situação é diferente: quem tiver o Poder tem os privilégios e, indiretamente, a propriedade.

Conseqüentemente, a política como profissão é, no comunismo, o ideal dos que desejam viver como parasitas, às expensas dos demais cidadãos.
A participação no Partido Comunista antes da revolução significa sacrifício, e ser revolucionário profissional, uma das maiores honras. Depois, quando o partido consolida seu poder, pertencer a ele significa pertencer a uma classe privilegiada. E no centro do partido estão os senhores todo poderosos, os Secretários-Gerais.

Durante muito tempo o surgimento de uma Nova Classe foi disfarçado pela fraseologia socialista e, o que é mais importante, pelas novas formas de propriedade coletiva. A chamada propriedade socialista é um disfarce para manter a propriedade nas mãos da burocracia do partido, que, no início, teve pressa em completar a industrialização, a fim de esconder, sob esse pretexto, a sua essência de classe.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Professor Azambuja: Gostei muito do seu artigo,na mesma esteira do brilhantismo dos outros. Apesar de fazê-lo numa ótica um pouco diferente da exposta por Vossa Excelência,também abordei a "Nova Classe",que encontrou terras férteis para se desenvolver especialmente a partir de 2003,início dos governos do PT.O estudo que fiz levou o título< A MAIS-VALIA CORRUPTA DO PT >,recepcionado aqui no Alerta Total.

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Professor Azambuja: Gostei muito do seu artigo,na mesma esteira do brilhantismo dos outros. Apesar de fazê-lo numa ótica um pouco diferente da exposta por Vossa Excelência,também abordei a "Nova Classe",que encontrou terras férteis para se desenvolver especialmente a partir de 2003,início dos governos do PT.O estudo que fiz levou o título< A MAIS-VALIA CORRUPTA DO PT >,recepcionado aqui no Alerta Total.
http://www.alertatotal.net/2015/09/a-mais-valia-corrupta-do-pt.html

Jorge Geisel disse...


O Mestre Azambuja é uma fonte preciosa de conhecimentos históricos. Seus artigos são aulas que merecem ser lidas, retidas nas mentes e arquivadas para eventuais consultas.