sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Como seria a Baía de Guanabara despoluída?

 Imagem de "Guanabara Espelho do Rio" - livro
do magistral fotógrafo Custódio Coimbra

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Caio Barretto Briso

Sonhos são fenômenos psíquicos nos quais realizamos desejos inconscientes. Sonhamos porque “existe algo que não quer conferir paz à mente”, escreveu Sigmund Freud há mais de um século. Em plena Olimpíada, com 380 atletas de 66 países velejando na cidade, sonhar é o que resta aos fluminenses quando o assunto é Baía de Guanabara. Como não se cumpriu a promessa do governo feita à população e ao Comitê Olímpico Internacional — reduzir em 80% o esgoto e o lixo despejados no espelho d’água —, só podemos imaginar o que seria da Baía limpa.
Com a ajuda da ciência*, imaginemos.

A Baía de Guanabara respira. De seis em seis horas, a maré sobe e desce, embalando 245 espécies de peixes e dois mil pescadores. De 12 em 12 dias, metade de sua água é trocada, renovando boa parte do espelho. Antes de o Rio ser escolhido a sede olímpica de 2016, essa troca com o oceano era comprometida pelo desastre ambiental em que a Baía se transformou com o passar do tempo e das promessas de saneamento não cumpridas. Há poucos anos, cem toneladas de lixo eram despejadas por dia em suas águas. Dos 20 metros cúbicos por segundo de esgoto gerados por quem vive ao redor do espelho — 11,3 milhões de pessoas espalhadas por 15 municípios —, nada menos que 70% eram lançados sem qualquer tratamento. O Rio, no entanto, aproveitou a oportunidade olímpica e ganhou sua medalha de ouro: a Baía está limpa.

Na quarta-feira de manhã, crianças do Complexo de Manguinhos mergulhavam sem medo no Rio Faria-Timbó. No estreito canal onde descia de tudo — televisão, sofá e, não raro, vítimas da violência na cidade —, hoje é possível nadar. Perto dali, no Canal do Cunha, que leva para a Baía águas do Faria-Timbó e também do Rio Jacaré, a Guanabara estava praticamente morta: cheia de lixo industrial e doméstico e de esgoto que ficavam presos na área assoreada. Culpa do aterramento de oito ilhas concluído em 1953, quando o governo aumentou em três milhões de metros quadrados o tamanho original da Ilha do Fundão. O Canal do Fundão foi se estreitando e perdendo profundidade, mas o presente é outro: a água pode não ser cristalina, mas seus mangues agora são visitados por pássaros de toda sorte: biguás, frangos-d’água, savacus e até marreca-caneleira, que estava à beira da extinção. Há poucos dias, um dos botos-cinza remanescentes foi visto por ali com dois filhotes.

Antes desertas, as 12 praias da Ilha do Governador, onde vivem 300 mil pessoas, voltaram a ser frequentadas pelos moradores. A Praia de Cocotá, onde o poeta Vinicius de Moraes tomava banho na infância, tem lotado nos dias de sol. Na Praia da Bica, que já havia sido revitalizada, com quiosques reformados, o povo mergulha até a noite quando a temperatura sobe. Outra praia recuperada, a de Ramos, trouxe alegria para os moradores da Zona Norte — e também valorizou os imóveis da região. Pescadores que precisavam navegar até a boca da Baía para encontrar peixes melhores e mais graúdos agora pescam linguado, robalo e camarão-rosa perto de casa — foi-se o tempo em que só havia sardinha-boca-torta e corvina pequena.

A população de camarão deve aumentar pela primeira vez em seis décadas.
São tantos e tão diversos peixes que é possível vislumbrar a Baía que hipnotizava antigos viajantes — com exceção do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que a achou parecida com uma boca banguela. No século XVI, o escritor e missionário Jean de Léry, também francês, descreveu-a no livro “Uma viagem à Terra do Brasil” como palco de sonhos e pesadelos, repleta de tubarões e de “horríveis baleias que diariamente nos mostravam suas enormes barbatanas fora d’água”. Por enquanto, ninguém viu baleias, mas o cenário se parece cada vez mais com o de antigamente.

Com a construção do Sistema de Esgotamento Sanitário de Alcântara/São Gonçalo e também do tronco coletor da Cidade Nova, para despoluição do Canal do Mangue, no Centro, os avanços foram notáveis. Além disso, foram feitas obras para complementação da rede da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Pavuna, bem como a ampliação da ETE Alegria, além da construção dos troncos Faria-Timbó e Manguinhos e da rede de coleta de esgoto das mais de 130 mil pessoas que vivem no Complexo da Maré. Finalmente foram inauguradas as oito Unidades de Tratamento de Rios prometidas, que aumentaram a biodiversidade nas águas doces de 15 municípios, especialmente na Baixada Fluminense. Rufem os tambores: a Baixada tem saneamento básico.

Todo o entorno do espelho ganhou biodiversidade. A Área de Proteção Ambiental Guapimirim, no fim da Baía, que abriga o maior bosque contínuo de manguezais do estado, já não é um recanto isolado de preservação. Ao seu redor se encontram verdadeiros berçários de vida, onde botos-cinza se alimentam e criam filhotes perto de imensos manguezais. Com a Baía despoluída, segundo pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua/Uerj), a espécie foi salva.

De repente, despertamos do sonho com um odor fétido nas narinas. É o esgoto que desce o Rio Faria-Timbó, onde a criançada de Manguinhos mergulha de cabeça. Os dejetos não tratados que fizeram a população de botos-cinza cair de 400, nos anos 80, para apenas 34 — em 20 anos, se nada mudar, não haverá mais nenhum. Às vésperas da festa olímpica, as promessas de despoluição se reduziram a ações paliativas ao redor da área de competição. Ainda perdidos entre devaneio e realidade, ouvimos de especialistas que a Baía não será despoluída em menos de 15 anos — alguns sustentam que são necessários 30 anos. Quem sabe a tempo de sediar a Olimpíada de 2048.

*Foram ouvidos especialistas da Coppe/UFRJ, UFF e Universidade Santa Úrsula, além de sanitaristas envolvidos no projeto de despoluição da Baía.

Caio Barretto Briso é repórter de O Globo, onde a reportagem foi publicada em 11 de agosto de 2016.

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