quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Homem Sem Rosto - Autobiografia do maior mestre de espionagem do comunismo

Markus Wolf, no áuge

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Sem um máximo de conhecimento, você é incapaz
De ser bem sucedido em colocar espiões
Sem humanidade e justiça você é incapaz
De enviar batedores na dianteira
Sem instintos firmes e uma mente penetrante você é incapaz
De julgar a autenticidade de um relatório
Sensibilidade! Sensibilidade!
Sun-Tzu, Século IV A.C. – A Arte da Guerra
   
MARKUS WOLF, o Homem Sem Rosto, foi o maior mestre de espionagem do comunismo. Por 34 anos foi chefe do Serviço de Informações Exteriores do Ministério de Segurança do Estado da República Democrática Alemã, provavelmente o mais eficiente e eficaz serviço secreto do Continente europeu. A integração do Serviço de Informações Exteriores ao Ministério de Segurança do Estado significava que ambos eram responsáveis tanto pela repressão interna na RDA quanto pela cooperação com terroristas internacionais.

Segundo o general MARKUS WOLF relata em sua autobiografia: “Lutamos por uma combinação de socialismo e liberdade, um objetivo nobre que falhou por completo (...). Mas não sou um desertor e estas memórias não são um pedido confessional por redenção (...). Não costumava haver clemência na guerra travada entre as duas ideologias que dominaram a segunda metade do nosso século (...). Crimes eram cometidos por ambos os lados no conflito global. Como muitas pessoas neste mundo, sinto remorsos (...). Não busco justificativa moral, nem perdão, mas, depois de um grande conflito, é hora dos dois lados fazerem uma reavaliação. Nenhuma história que se preze pode ser contada somente pelos vencedores”.

Em seu julgamento por crimes de guerra, em uma Corte de Dusseldorf, após a reunificação da Alemanha, perante cinco juízes, a lista de acusações enchia 389 páginas. Markus Wolf prossegue: ”Meu sucesso tinha sido a minha ruína. Estava no banco dos réus por dirigir o mais bem sucedido Serviço de Espionagem na Europa, Oriental ou Ocidental”.

Markus Wolf e seus advogados procuraram demonstrar que não houvera diferença juridicamente relevante entre as atividades de Informações do Leste e do Ocidente. O pleito da acusação era de ele era culpado por ter passado informações à KGB, e que a Stasi (Serviço Secreto da Alemanha Oriental, a RDA) tinha sido servo de um regime injusto. Todavia, o BND (Serviço de Informações da Alemanha Ocidental) não fora menos diligente em passar informações para a CIA.

Prossegue Markus Wolf, falando aos Juízes: “Eu me submeti a este julgamento porque quero viver no meu país natal. Respeito as leis da República Federal da Alemanha, concorde ou não com elas, mas só me tornei um cidadão da República Federal em 3 de outubro de 1990. Até esse dia fui cidadão de um país diferente. Que país eu teria supostamente traído, então?”.

Apesar das absurdas e freqüentemente proclamadas dúvidas legais relativas à acusação, Markus Wolf foi indiciado em 6 de dezembro de 1993. A acusação de traição correspondia a uma sentença de prisão, e o Tribunal considerou-o culpado. Todavia, em junho de 1995 a Corte Constitucional Federal julgou que agentes dos Serviços de Informações da RDA não podiam ser acusados de traição e espionagem. Assim, em 18 de outubro de 1995, a condenação foi cancelada.

Segundo escreveu Markus Wolkf, “A Guerra Fria foi um tempo de brancos e pretos, mas com muitas nuanças de cinzento. Não podemos olhar para o que aconteceu sem relembrar isso, e não podemos seguir em frente sem manter isso em mente”.

Em seu julgamento, Markus Wolf disse à Corte:

“Nenhum processo legal pode iluminar um período da história rico em contradições, ilusões e culpas (...) O sistema no qual vivi e trabalhei foi filho de uma utopia que, desde o início do Século XIX, foi a meta de milhões de pessoas, incluindo notáveis pensadores, que acreditaram na possibilidade de livrar a humanidade da repressão, exploração e guerra. Esse sistema fracassou porque não era mais apoiado pelas pessoas que viviam dentro dele. E, mesmo assim, insisto que nem tudo nos 40 anos de História da RDA foi ruim e que merece ser apagado, e que tudo no Ocidente foi bom e justo. Este período de sublevação histórica não pode ser encarado adequadamente por meio de clichês de um Estado justo, por um lado, e um Estado injusto, por outro”.

Isso significa que não houve nenhuma culpa, nenhuma responsabilidade? Claro que não. A Guerra Fria foi uma luta brutal e coisas terríveis foram cometidas por ambos os lados em busca da vitória. Mas agora que a Guerra Fria - e a RDA - foi eliminada das primeiras páginas dos jornais e dos livros de História, não deveríamos esquecer que as coisas não foram tão bem definidas quanto as máquinas de propaganda dos dois lados deram a entender. Deveríamos recordar as palavras do grande filósofo japonês contemporâneo Daisaku Ikeda: ”Ninguém pode, sem reflexão, fazer de alguns os portadores da bondade e de outros vilões, julgando-os por relativos critérios positivos ou negativos. Estes, com o tudo o mais, mudam, de acordo com circunstâncias históricas, o caráter de uma sociedade, os tempos e os pontos de vista subjetivos”.

E conclui Markus Wolf: “Somente vendo as coisas sob uma luz assim é que poderemos realmente aprender as lições que a Guerra Fria - e as vidas de cada um de nós que ajudamos a travá-la – tem a oferecer. Quando éramos jovens, costumava parecer que a força da nossa fé seria o bastante para transformar o mundo. Mas agora devo admitir que falhamos, não porque fossemos socialistas demais na crença, mas porque não éramos socialistas o suficiente na prática. Os crimes de Stalin não foram o resultado lógico da teoria comunista, mas uma violação do comunismo.

Todavia, o sacrifício da liberdade pessoal em prol da doutrina partidária, a manipulação das pessoas e a falsificação da História, tudo veio da União Soviética de Stalin e foi rapidamente adotado pela maioria dos países em nosso lado da Cortina de Ferro. Admito abertamente que o nosso sistema era incomparavelmente inferior à maioria das democracias pluralistas do Ocidente. A grande lição que aprendi do declínio e queda da RDA é que a liberdade de pensamento e expressão são tão fundamentais à sociedade moderna quanto as vantagens que conquistamos e de que tanto nos orgulhamos.

Não muito longe do meu apartamento, em Berlim, existe um memorial a Marx e Engels. No outono de 1989, enquanto a RDA se arrastava para um fim, alguns jovens picharam as palavras NÃO CULPADOS no memorial. Eles estavam certos. Costumo pegar na minha estante um livro do cientista suíço Jean Zigler. O título encerra bem meus sentimentos ao fim do Século: A Demain, Karl.     

Observações finais: Uma vida inteira passada na espionagem é uma mistura de glória em seus sucessos  ocasionais, infelicidade quando o seu melhor trabalho é ignorado e banalidade diária de trabalhar dentro de uma burocracia cuja tarefa principal é, com freqüência, passar notícias ruins a seus mentores políticos.   

A grande tragédia da vida desses homens foi que serviram a um sistema que não tolerava mentes críticas e uma só pessoa podia tomar todas as decisões e julgar. Um sistema que não permitia dissensão e também ignorava informação discordante. Assim era a RDA: também não tolerava dissensão e mentes críticas.

Os Serviços de Informações deram à Europa meio século de paz – o período mais longo que a Europa já conheceu – ao dar aos estadistas alguma segurança de que não seriam surpreendidos pelo outro lado.
Para Markus Wolf, baseado em sua experiência, a eficácia de um Serviço de Informações depende muito mais daqueles que recebem suas informações, prestando atenção a elas quando contradizem suas próprias opiniões.

Markus Johannes "Mischa" Wolf morreu em 9 de novembro de 2006, em Berlim.   

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

6 comentários:

Anônimo disse...

Morreu sem entender nada.
Agora já deve ter entendido.

Anônimo disse...


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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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Aqui não, jacaré! disse...

Nossa, que absurdo as justificativas desse vagabundo! Quer dizer que a morte de mais de 100.000.000 de pessoas não tem importância?!! Vejo que essa ideologia saída do inferno destrói tanto a mente de um indivíduo que mesmo diante de seu retumbante fracasso ele ainda dá voltas e diz coisas que em sua mente distorcida lhe parecem positivas! O único fato positivo é que ele agora está sentado no colinho do capeta!!!

Anônimo disse...

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acp

Lixo.

O inferno é pouco e pequeno para os comunas

acp

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Anônimo disse...

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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

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Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

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Wanderley Camy disse...

O materialista sempre vai radicalizar nas suas crenças.