sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Ser da Nomenklatura determina sua consciência


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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Marx escreveu: “Não é a consciência do homem que determina seu ser, mas, pelo contrário, é o ser social do homem que determina sua consciência”. O ser social da Nomenklatura, que é uma classe exploradora, privilegiada e parasitária, exercendo um Poder ditatorial, determina totalmente sua consciência.

Seus princípios morais, a Nomenklatura os deve a dois pais: Lenin e Stalin. Lenin pregava a boa nova aos jovens comunistas: “Toda esta moralidade que tem por ponto de partida conceitos exteriores à humanidade, exteriores às classes, nós a repelimos (...) Afirmamos que nossa moral é inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes do proletariado” – sendo, portanto, a luta pela instauração da ditadura da Nomenklatura: “Afirmamos que é moral a luta o que contribui para a destruição da velha sociedade de exploradores e para a reunião de todos os trabalhadores em torno do proletariado” – quer dizer, para a edificação de uma nova classe de exploradores por aqueles que se proclamam, eles mesmos, “a vanguarda do proletariado”- a Nomenklatura à testa. Stalin teorizava menos, mas tinha uma maneira muito impressionante de praticar esta nova moral. 

Os trabalhos realizados pelos sociólogos soviéticos no curso dos anos 20 – há muito tempo já desapareceram das bibliotecas na URSS –, mostravam uma rápida degradação dos costumes, e revelavam, no seio da juventude, uma tendência ao egoísmo cínico e ao carreirismo. Como o provam os estudos empíricos, o fenômeno estava em vias de aumentar. Podia-se, pois, dificilmente falar de “sobrevivência do capitalismo”. Qual seria, pois, a evolução desta sociedade, onde só se falava de idéias revolucionárias, coletivistas e igualitárias? Na verdade, as pesquisas sobre este assunto foram engavetadas e substituídas por grandes declarações sobre “o novo homem soviético” que ama profundamente o Partido e sua direção, e que trabalha de maneira desinteressada por sua pátria socialista.

Ora, o fenômeno se explica facilmente para um marxista. Marx e Engels disseram: “Os pensamentos da classe dominante são, também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou, em outras palavras, a classe que é a potênciamaterial dominante da sociedade, é, também, a potência dominante espiritual”. A moral de classe da Nomenklatura se espalhou pela sociedade soviética. Contudo, ainda qe alguns grupos sociais isolados tenham sofrido o contágio, foi na Nomenklatura que ela se manifestou – e se manifesta – em seu mais alto grau.

Os privilégios e diversas injustiças de que se beneficia o nomenklaturista não representam a contraprestação de um trabalho fornecido, mas a simples conseqüência de uma decisão tomada por um órgão dirigente do Partido, que lhe atribui um posto e os privilégios a ele inerentes. Somente um ambicioso, um homem capaz de galgar os escalões da hierarquia pode alcançar este resultado. No meio capitalista, só se consegue através do espírito de empreendimento. A Nomenklatura é dominada pelo carreirismo.

O carreirismo constitui o traço característico de sua mentalidade de classe. Todas as esperanças, todos os pensamentos de um nomenklaturista giram em torno de sua carreira. Como numa partida de xadrez, é preciso refletir sempre no lance seguinte, num procedimento que lhe permita subir ainda mais alto e “adquirir prestígio”, como se diz na gíria. Tal é o estado de espírito comum do nomenklaturista. Daí a regra de ouro: na Nomenklatura só se pode estar seguro de manter seu posto, visando ao posto superior. Contentar-se com o que se tem é correr o risco de se ver retroagir, na maior parte dos casos. Para conseguir o posto superior, o nomenklaturista deverá desenvolver mais esforços do que a média de seus colegas. Do contrário, será ultrapassado.

Não se deve, pois, ficar espantado de que, nessa corrida ao Poder, todos os golpes sejam utilizados, desde que sejam eficazes. Em nenhum outro meio existem tantas intrigas, nem tanta hipocrisia disfarçada sob “a fidelidade aos princípios do Partido”. Bem entendido, as personalidades que compõem a Nomenklatura são bem diversas para que não haja ali somente celerados. Existem também nomenklaturistas simpáticos. Mas, quando as coisas se tornam sérias é preciso esquecer os escrúpulos, do contrário se corre o risco da exclusão. E nada é mais catastrófico para um nomenklaturista do que a perda do seu status. Desse status que é a alegria de sua vida.

Falamos da solidariedade de classe da Nomenklatura, daquela frente unida que os nomenklaturistas apresentam a todos aqueles que não fazem parte dela. Mas, há o reverso da medalha. E esse reverso é o sentimento de solidão que sente cada nomenklaturista, perfeitamente consciente de que seus irmãos de classe são também seus mais perigosos concorrentes, e que só o apóiam na medida em que isso sirva a seus próprios interesses. Em caso contrário, ficarão muito felizes em “largá-lo”. Ele, que fala tão decisivamente sobre aquele capitalismo em que o homem é o lobo do homem, descobre que ele próprio nada mais é do que um lobo numa matilha de lobos, cercado, é certo, por seus semelhantes, mas, contudo, solitário e ameaçado. Tal situação é, provavelmente, inevitável em toda “classe nova” de aventureiros renegando sua origem de classe.

A filosofia da Nomenklatura encontrou sua expressão mais característica numa obra do poeta Eduardo Bagritski, que é considerado um clássico da literatura soviética: 
    
A época te dá a certeza
De que é ela que te impõe tua solidão
Em volta, inimigos, impostores vis
Nenhum amigo para te apertar a mão
 Se a época te ordena, sê mentiroso
 Se a época te ordena, sê assassino  
 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...



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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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