terça-feira, 27 de setembro de 2016

O debate Latino-Americano dos anos 60: Foquismo ou Política de Massas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um capítulo do livro “A Política Armada – Fundamentos da Guerra Revolucionária”, de autoria de Hector Luis Saint-Pierre, editado em 1999 pela Editora UNESP. O livro é, antes de tudo, um estudo minucioso, erudito e atualizado dos aspectos estratégicos da guerra revolucionária. Atualmente, o autor é professor na Universidade Estadual Paulista – UNESP -, Campus de Franco, onde coordena o grupo de Estudos Estratégicos dos Movimentos Armados e dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos.

É interessante recordar um dos debates que agitaram a esquerda latino-americana nos anos 1960 a respeito do procedimento que a guerra revolucionária deveria assumir no Continente: se deveria dar desenvolvimento a uma política de massas, por meio, basicamente, na inserção nos movimentos sociais – sindicais e estudantis -, ou se deveria concentrar-se na formação de células armadas a partir de cujo desenvolvimento buscar-se-ia a formação de um exercito revolucionário.

A questão confrontava duas posições apresentadas como antagônicas e excludentes, e que na década de 60 comoveram os grupos revolucionários do continente. O foquismo afirmava a impossibilidade do movimento de massa se armar espontaneamente. O argumento principal era o alto grau de especialização exigido pela guerra revolucionária, pois a formação do guerrilheiro profissional exigia requeria um trabalho preparatório eu deveria ser desenvolvido independentemente da tarefa da organização política das massas.. Não se poderia esperar a ideal maturação política das massas para organizar sua estrutura militar, pois esta é que deveria precipitar aquela.

Por sua vez, os que defendiam o desenvolvimento da política de massas acreditavam que a sua organização forneceria as condições para transformar a luta de classes em guerra revolucionária. Achavam que a condições objetivas necessárias para detonar a luta armada surgiriam da consciência das massas, sempre que as demais formas de luta se mostrassem, na prática, impotentes para resolver as contradições fundamentais da sociedade capitalista.

A crítica que dirigiam contra o foquismo tinha, basicamente, dois aspectos: um, de índole estratégica, que apontava para a possível “decolagem” da vanguarda em relação ao movimento de massas; e outro, de índole tática, qu temia que o desenvolvimento do foquismo desencadeasse um maior grau de repressão das forças das classes dominantes contra o movimento de massas, retardando ou mesmo aniquilando sua organização. Che Guevara, considerado o mais importante formulador do foquismo, criticava esse debate por considerá-lo um pseudoproblema. Para ele, tratava-se de métodos que não apenas não eram excludentes, mas que deviam ser compreendidos como complementares.

Critica-se aqueles que querem fazer a guerra de guerrilhas, aduzindo que se esquecem da luta de massas, quase como se fossem métodos contrapostos. Rejeitamos o conceito que encerra essa posição; a guerra de guerrilhas é uma guerra do povo, é uma luta de massas. Pretender fazer esse tipo de guerra sem o apoio da população é o prelúdio de um desastre inevitável.

Depois da vitória militar da guerrilha castrista e da instalação de um governo popular em Cuba, ficou claro que aquela não tinha completado o horizonte político da revolução. Eliminada a ditadura nacional, ficava à vista o inimigo principal: o imperialismo que, personificado nos EUA, se agigantava ameaçadoramente sobre a Ilha. A necessidade de distrair e desestabilizar esse perigo levou a urgência de abrir novas frentes de combate no continente latino-americano. A “exportação” da guerra revolucionária cubana visava completar o horizonte político que a guerrilha não podia satisfazer na frente interna, pois o inimigo se encontrava fora da Ilha.

Por outro lado, a desproporção militar entre o regime castrista e a potência norte-americana desalentou qualquer intento de confronto direto, limitando-se a rechaçar as ofensivas e intentos de invasão financiados e apoiados logisticamente pelos norte-americanos. A crise dos mísseis, que abalou o mundo durante o governo Kennedy foi o ponto final às pretensões de que com a presença de um “terceiro interessado” na região – a URSSS – se pudesse alterar a correlação de forças no Caribe.

Desse quadro, a única estratégia possível para completar o objetivo político da revolução era criar uma retaguarda de instabilidade no quintal dos EUA: uma América Latina solidária, socialista e revolucionária que tirasse a atenção do gigante americano de Cuba. A tática consistia em que a maturação da experiência da luta de classes em Cuba arrebentasse como um fruto maduro e lançasse seus esporos revolucionários para todo o continente. Esses esporos seriam unidades político-militares revolucionárias guerrilheiras revolucionárias: a teoria do foco entrava na sua etapa de formulação.

Che Guevara desenvolve a tese da disseminação da guerra revolucionária por meio do foquismo, da dinâmica evolutiva que, para ele, devia tomar a revolução n continente, por analogia com as abelhas e a formação de novas colméias.

A guerriha, em seu processo de crescimento, chega a um instante em que sua capacidade de ação cobre uma determinada região para cujas medidas sobram homens e há demasiada concentração. Aí começa o efeito colméia, no qual um dos chefes, guerrilheiro destacado, pula a outra região e vai repetindo a cadeia de desenvolvimento da guerra de guerrilhas, sujeito, isso sim, a um mando central.

A urgência da hora para colocar fogo em todo o continente deixou a porta aberta para as distorções políticas. Apenas como um exemplo dessas distorções que acontecem em quase todas as experiências de luta armada na América Latina, podemos lembrar as considerações dos Tupamaros, que aceitaram a tese de Regis Debray que “o decisivo para o futuro é a abertura de focos militares e não de focos políticos”.

A iminência de um conflito generalizado levou a cometer um pecado capital para a guerra revolucionária: subordinar a formação política do militante à formação militar do quadro guerrilheiro. Dessa maneira, acabaram simplificando a tarefa da repressão, pois ao aniquilar militarmente a guerrilha, eliminavam também a resistência política que poderia manter viva a luta de classes e a esperança d revolução até que houvesse condições objetivas mais propícias para o confronto bélico.

Outra questão que ocupou os debates contemporâneos dos revolucionários latino-americanos foi a que diz respeito à formação da guerrilha revolucionária: se ela deveria começar no campo ou na cidade. Para Che Guevara não havia dúvidas, o meio rural era o mais propício para o desenvolvimento da guerrilha, pois este fornecia o espaço necessário para a formação do exército revolucionário. A guerrilha urbana teria apenas a função tática de recrutar nas cidades os recursos humanos para a luta, mas, sobretudo, de distrair as forças da repressão, por meio do terrorismo e da sabotagem, com o objetivo de tirar sua atenção do campo, onde desenvolveriam a função estratégica.

Che Guevara descrevia o desenvolvimento da guerrilha, desde a sua fundação, até o desborde e a tomada do Poder, em três momentos fundamentais:

A guerra de guerrilhas ou guerra de libertação terá, em geral, três momentos: o primeiro, da defensiva estratégica, em que a pequena força que foge e morde o inimigo não está refugiada para fazer uma defesa passiva em um círculo pequeno, senão que sua defesa consiste nos ataques limitados que possa realizar. Passado isso, chega-se a um ponto de equilíbrio em que se estabilizam as possibilidades de ação o inimigo e da guerrilha, e logo o momento final do desbordamento do exército repressivo, que levará à tomada das grandes cidades, os grandes encontros decisivos, ao aniquilamento total do adversário.

Para Marighela, a guerrilha urbana tinha fundamentalmente um sentido tático, côo forma de viabilizar a guerrilha rural, cuja função era estratégica: “a cidade é a área de luta complementar...a luta decisiva é a que se trava na área estratégica, isto é, na área rural”.

Finalmente, uma questão importante na dinâmica da guerrilha é o momento no qual ela pode se transformar em exército regular para procurar a decisão pelo combate. Esse momento encerra uma decisão d qual pode surgir a vitória na guerra ou seu fracasso definitivo.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...







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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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