segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Maletagate


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por José Padilha

O Senado tem 81 senadores e 11 maletas. As maletas permitem ações de contraespionagem, como o rastreio de escutas ambientais, e ações de espionagem, como a gravação à distância de conversas telefônicas em celular.

(Quanto será que custa uma maleta? Quanto será que o Senado pagou? Quem foi o vendedor? Houve intermediários?)

Renan Calheiros e a polícia do Senado juram que as maletas foram usadas, única e exclusivamente, para proteger os senadores da bisbilhotagem de terceiros. Mas por que 11 maletas, se a Polícia Federal inteira só dispõe de duas? E por que a Câmara dos Deputados, com 511 parlamentares, não tem maleta alguma?

Acho que sei a resposta.

Ora, se cada varredura leva cerca de duas horas, com 11 maletas e uma equipe azeitada, a polícia do Senado pode, pelo menos em princípio, varrer o escritório de 33 senadores a cada seis horas. Logo, a cada dois dias, trabalhando oito horas por dia, pode varrer o escritório de todos os senadores.

Sobram quatro dias na semana. Dias de espionagem?

Claro que não! E os apartamentos funcionais?

É razoável supor, dado o bom trânsito de Brasília, que essa mesma equipe, munida de 11 veículos oficiais, pode varrer o apartamento funcional de 20 senadores por dia. Em quatro dias, varreriam tudinho. Escritórios e residências.

Está vendo só, amigo contribuinte? Renan Calheiros dimensionou a compra das maletas de modo a fazer uma varredura completa no Senado a cada semana. E você que estava pensando que as maletas eram usadas para espionar colegas, juízes do STF, procuradores e outras autoridades? O pessoal do PT tem razão. Desde que Sérgio Moro surgiu em Curitiba, os brasileiros estão sofrendo de um frenesi condenatório que precisa ser controlado. Daí o projeto contra o abuso de autoridade, imagino eu.

Voltando ao assunto das maletas. Se os meus cálculos estiverem corretos, para manter o padrão de segurança de Renan, além das maletas, Pedrão, o sujeito que chefia a polícia do Senado, deve ter implantado uma rigorosa rotina, com funcionários e times de policiais se revezando constantemente, para realizar essa varredura semanal. E essa rotina, evidentemente, não pode acontecer na ausência de documentos.

Há de haver, em farta abundância, registros de entradas e de saídas das maletas nos escritórios e nas residências dos senadores, registros de controle dos funcionários alocados nas tais varreduras e, principalmente, registro da localização geográfica das maletas, dada a natureza sensível das atividades a que se prestam. Além, é claro, de registros dos inúmeros grampos desarmados e removidos. Afinal, ninguém em sã consciência gastaria tanto dinheiro do contribuinte se realmente não houvesse espionagem industrial contra os nossos senadores.

Fica aqui uma sugestão para Renan e seu colega de foro privilegiado Pedrão: tornem os registros da rotina de varreduras do Senado públicos. Além de colaborar com o país, os srs. matariam a minha curiosidade a respeito de quem está a nos espionar. Seria o pessoal do WikiLeaks? Da NSA? Putin? Os hackers da Coreia do Norte? A campanha de Donald Trump? Ou quem sabe o Comando Vermelho, a ADA e o Instituto Lula?

Amigos, o Senado brasileiro é presidido por um camarada que é objeto de 11 inquéritos e um pedido de investigação no STF! Será que isso tem a ver com as maletas? Como diria Trump, na ausência de esclarecimentos, o caso das maletas é pior do que Watergate. O contribuinte precisa saber como foram usadas as maletas do Renan.

José Padilha é Cineasta. Originalmente publicado em O Globo em 6 de novembro de 2016.

Um comentário:

Martim Berto Fuchs disse...

O Senado tem 81 senadores, 11 maletas e 13.000 apadrinhados pendurados na folha de pagamento. Uma República Democrática não mais precisa da casa dos "nobres". Pode fechar.