terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Rússia depois de Stalin


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “O Fim do Homem Soviético”, cuja autora, SVETLANA ALEKSIÉVITCH, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2015. O livro foi editado em 2013 pela editora Companhia de Letras. Dela, a Companhia das Letras publicou “Vozes de Tchernobil” e “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”.
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1953: Iossif Stalin morre em 5 de Março. Nikita Kruschev se torna Secretário Geral do PCUS.
    
Fevereiro de 1956: Kruschev pronuncia um discurso no XX Congresso do PCUS, denunciando o culto a personalidade de Stalin e o excesso de suas políticas oficiais. Ao longo das décadas seguintes, seu discurso circula secretamente através dosamizdat e é discutido em reuniões fechadas do Partido, chocando muita gente. Esse discurso marca o início da desestalinização e do degelo de Kruschev, período marcado por relativa liberalização.
    
Novembro de 1956: O exército soviético reprime violentamente um levante na Hungria.
    
Novembro de 1857: A editora italiana Feltrinelli publica Doutor Jivago, de Boris Pasternak. Sob pressão das autoridades soviéticas, Pasternak é forçado a recusar o Prêmio Nobel de Literatura no ano seguinte.
    
Novembro de 1962: Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Alexandr Soljenitsin, e publicado naNovy Mir, influente revista literária russa. Pela primeira vez, os campos de trabalho soviéticos são citados abertamente numa obra literária. Apesar disso, uma cisão nos grupos dissidentes marca o fim do degelo.
    
1964: Kruschev é apeado do Poder, e substituído por Leonid Brejnev.
    
1968: As FF AA soviéticas invadem a Checoslováquia numa tentativa de reverter uma série de reformas liberalistas que ficaram conhecidas como Primavera de Praga, provocando ondas de protestos e resistência não violenta.
    
1973/1974: O Arquipélago Gulag, de Alexandr Soljenitsin, é publicado no Ocidente, tato em russo como em outros idiomas. Soljenitsin é expulso da URSS.
    
1975: 35 países, entre eles a URSS e os EUA, assinam  os Acordos Helsinque, uma tentativa de melhorar as relações do bloco soviético e o Ocidente. O documento ressalta o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, como a liberdade de expressão.
    
1979: Tropas soviéticas invadem o Afeganistão.
    
Novembro de 1982: Leonid Brejnev, Secretário-Geral do PCUS de 1964 a 1982, morre de ataque cardíaco. Iuri Andropov, chefe do KGB, é nomeado seu sucessor.
    
Fevereiro de 1984: Andropov morre de insuficiência renal. Konstantin Tchernenko é o seu substituto.
    
Março de 1985: Tchernenko morre de enfisema. Mikhail Gorbachev se torna Secretário-Geral do PCUS e toma medidas reformadoras, sinalizando o início da perestroika. A Novy Mir dá início à publicação, em série, 3 anos depois, de Doutor Jivago. 
    
Importantes reformas são implementadas por Gorbachev entre 1985 e 1991, sob o guarda-chuva da perestroika e da glasnost: a restituição de terras aos camponeses, 60 anos depois da coletivização da agricultura; restauração progressiva do pluralismo político e da liberdade de expressão; a libertação de prisioneiros políticos; a publicação de literatura censurada; a retirada das tropas do Afeganistão; a criação de uma nova Assembléia Legislativa, o Congresso dos Deputados do Povo; esse Congresso elege Gorbachev para a presidência d URSS e promove reformas constitucionais em março de 1990;o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start 1), com os EUA, é assinado em 1991.
    
Fevereiro de 1986: Boris Yeltsin se torna membro do Politburo, meses depois de ser nomeado Secretário-Geral do Comitê da cidade de Moscou – o que, na prática, faz dele prefeito de Moscou -. Ele é tirado do Politburo em 1988.
    
26 de abril de 1986: O reator número 4 da Usina Nuclear de Tchernobil explode, contaminando seriamente o território soviético.
    
Março de 1989: Yeltsin é eleito parta o congresso dos Deputados do Povo.
    
Novembro de 1989: Berlim Oriental abre a passagem para Berlim Ocidental, marcando o fim definitivo da Guerra Fria e o início da reunificação da Alemanha.
    
Dezembro de 1989: Gorbachev e George W. Bush anunciam, em Malta, o fim da Guerra Fria.
    
Junho de 1990: O Congresso dos Deputados do Povo aceita a Declaração de Soberania Estatal da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, colocando a União Soviética numa posição antagônica à Federação Russa e a outras repúblicas constituintes assinalando o início das reformas constitucionais na Rússia.
     
Maio de 1991: Boris Yelsin é eleito presidente da RSFSR
A República Socialista Federativa Soviética da Rússia (em russo: Российская Советская Федеративная Социалистическая Республика).
    
Agosto de 1991: Um grupo de oito altos dirigentes, liderados pelo vice-presidente de Gorbachev, Guennádi Ináiev, forma o Comitê Geral do Estado de Emergência, o GKCHP, e tenta um golpe contra o governo, que fica conhecido como “o putsch”. O GKCHP baixa um decreto de emergência suspendendo todas as atividades, fechando a maioria dos jornais, e pondo Gorbachev, então de férias na Criméia, em prisão domiciliar.
    
Milhares de manifestante saem às ruas contra o “putsch”, e se posicionam em frente à Casa Branca – o Parlamento da Federação Russa e sede do gabinete de Bors Yeltsin -, armando barricadas para defender suas posições. Em um discurso célebre, Yeltsin fala para a multidão em cima de de tanque. As FF AA enviadas pelo GKCHP se recusam a avançar contra as barricadas e se aliam aos manifestantes. Depois de três dias, o putsch fracassa. Gorbachev volta da Criméia e os membros do GKCHP são presos. Em 24 de agosto, Gorbachev dissolve o Comitê central do PCUS e renuncia ao cargo de Secretário-Geral.
    
- Novembro de Dezembro de 1991: Em um referendo popular na Ucrânia, em 1 de dezembro de 1991, 90% dos eleitores votam pela independência da União Soviética.
     
Em 8 de dezembro de 1991, os governantes da Rússia, Ucrânia e Bielorússia se reúnem, em segredo, no oeste da Bielorúa para assinar o Pacto de Belaveja, declarando a dissolução da União Soviética e o estabelecimento da Comunidade dos Estados Independentes, para substituí-la.Na noite de 25 de dezembro de 1991, a bandeira soviética é baixada pela última vez e o pavilhão tricolor da Rússia é hasteado em seu lugar, marcando simbolicamente o fim da União Soviética. Gorbachev renuncia ao cargo de Primeiro-Ministro. Num período de grande turbulência, Yeltsin assume simultaneamente as funções de Primeiro-Ministro e Presidente.    
    
Os Estados independentes da Armênia, da Geórgia e do Azerbaijão são criados, e imediatamente sucumbem os violentos conflitos étnicos. A Armênia e o Azerbaijão entram em disputa pelo enclave do Alto Carabaque, a Abcásia, a Ossétia do Sul e a Adjara lutam para se separar da Geórgia. Djokhar Dudáiev assume o Poder na Chechênia e proclama sua independência.  
    
Janeiro de 1992: A liberalização das políticas de preços leva a uma inflação altíssima e desestabilizadora, de 200% ao ano inicialmente, e chegando a 2.600% anuais.
     
Terceiro trimestre de 1993: Numa reaçãoà tentativa do presidente Yeltsin de dissolver o Parlamento, o Congresso decreta seu impedimento e nomeia o vice, Aleksandr Rotskoi como presidente. Em desdobramentos semelhantes aos do putsh de 1991, manifestantes se reúnem em frente à Casa Branca e tentam invadir a torre de rádio e televisão Ostankino. Cumprindo ordens de Yeltsin, o exército entra na Casa Branca e prende membros do Parlamento que lhe fazem oposição. A disputa de dez dias entre manifestantes favoráveis aos parlamentares e os defensores armados de Yeltsin leva ao mais violento conflito nas ruas de Moscou desde 1917. As baixas são estimadas em até 2 mil vítimas.
    
1994-1995: Primeira guerra da chechênia.
    
1998: Turbulências econômicas que provocaram quedas drásticas no padrão de vida da população ao longo dos anos 1990 levam a uma grave crise financeira e a uma brutal desvalorização do rublo.
    
1999-2000: Segunda guerra da Chechênia. Em 31 de dezembro de 1999, Yeltsin anuncia e Vladimir Putin se torna presidente da Federação Russa. Em 2000, Putin vence a sua primeira eleição presidencial, derrotando seu adversário comunista Guennadi Ziuganov e se estabelecendo de vez no Poder.
    
Outubro de 2003: O magnata do petróleo e proeminente defensor do liberalismo, Mikhail Khodorkóvski, acusado de sonegação e fraude fiscal, foi a primeira vítima da campanha de Putin para banir da política os oligarcas da era Yeltsin a prisão de Khodorkóvski e o confisco dos seus bens, marcam o início dos esforços do presidente para transferir o controle dos principais setores da economia para o seu partido político, o Rússia Unida. Essa intervenção econômica que exige uma boa dose de manobras corruptas, também leva à necessidade de silenciar críticos e dissidentes na imprensa. Em 2010.a maior parte das empresas privadas de mídia já estava sob o controle do governo, inclusive as principais redes de televisão.

Os veículos independentes estão, em sua maior parte, restritos quase exclusivamente à internet.
    
2008: Explode a guerra entre a Geórgia e a Ossétia do Sul. Dimitri Medvedev, da Rússia Unida, é eleito presidente da Federação Russa e nomeia Putin Primeiro-Ministro.
    
Dezembro de 2010: Alexandr Lukashenko é reeleito para um quarto mandato como presidente da Bielorússia, o que leva a protestos violentamente reprimidos.
    
Dezembro de 2011: Putin declara que vai ser candidato a presidente outra vez em 2012, com Dmitri Medvedev como Primeiro-Ministro; na prática, Putin e Medvedev vão trocar de lugar. Isso causa os primeiros grandes protestos contra o governo desde o início de 1990. Embora as manifestações sejam toleradas nas aparências, cada vez mais manifestantes são presos e condenados individualmente, e o Parlamento passa a restringir de forma severa a atuação de grupos de ativistas e organizações não governamentais que fazem oposição ao governo.
    
Fevereiro de 2012: Putin é mais uma vez eleito presidente da Rússia, com 63% dos votos, e nomeia Medvedev Primeiro-Ministro. Os oposicionistas tomam as ruas novamente nas principais cidades do país e a Polícia prende centenas de pessoas. O governo Putin pune com severidade alguns manifestantes, intensificando seus esforços para reprimir a dissidência política na Federação Russa.
     
Fevereiro-Maio de 2014: Os protestos de Maidan, em Kiev, na Ucrânia, levam a um conflito armado com ucranianos que apóiam a entrada do país na União Européia, e aqueles que desejam permanecer sob a esfera de influência da Rússia. Depois da fuga do presidente pró-Moscou, Viktor Yanukóvytch, da Ucrânia, as FF AA russas tomam a Crimeia, que posteriormente vota por se juntar à Rússia, em um referendo popular. Apesar de negar que suas tropas tenham entrado na Ucrânia, a Rússia oferece apoio financeiro e militar aos grupos pró-Moscou, incitando, na prática, uma guerra civil. Esses eventos provocam o mais sério incidente diplomático entre Oriente e Ocidente desde o fim da Guerra Fria com os EUA e seus aliados europeus impondo pesadas sanções à Rússia.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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